El Niño pode pressionar preços da energia no Brasil; nível dos reservatórios será decisivo, aponta StoneX
Distribuição desigual das chuvas pode ampliar diferenças regionais no mercado elétrico; geração eólica e solar ajuda a conter custos, mas não elimina riscos hidrológicos
Publicado em: 14/10/2026 às 10:45hs
O El Niño pode aumentar a pressão sobre os preços da energia no Brasil, mas seus efeitos dependerão principalmente da quantidade de água armazenada nos reservatórios e das afluências nos próximos meses. Segundo análise da StoneX, a alteração no regime de chuvas pode afetar de maneira distinta as regiões do país, ampliando diferenças de preços entre os submercados.
O estudo, assinado por Letícia Corrêa, analista de Açúcar, Etanol e Gasolina, e Carolina Giraldo, analista de Clima, destaca que a geração hidrelétrica mantém papel central no abastecimento brasileiro. Por isso, a condição dos reservatórios no início de um período de chuvas desfavoráveis é determinante para a capacidade de resposta do sistema.
A expansão das fontes eólica e solar amplia a oferta e pode reduzir a necessidade de geração mais cara. Entretanto, essa diversificação não elimina a exposição ao clima nem as limitações de transferência de eletricidade entre regiões.
Como o El Niño pode afetar o preço da energia
De acordo com a StoneX, o fenômeno tende a reduzir as chuvas no Norte e no Nordeste e favorecer precipitações no Sul. Essa distribuição pode alterar a disponibilidade de água para geração hidrelétrica e produzir efeitos diferentes sobre os preços regionais.
O principal indicador acompanhado no mercado de curto prazo é o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Sua formação considera as condições de atendimento à demanda, o armazenamento dos reservatórios, as perspectivas hidrológicas e a necessidade de recorrer a fontes de geração mais caras.
Outro parâmetro importante é a Energia Natural Afluente (ENA), que representa a energia associada à água que chega às usinas. Afluências maiores favorecem a geração hidrelétrica e, em geral, reduzem a necessidade de acionamento de termelétricas. Quando a entrada de água diminui, o sistema pode enfrentar pressão adicional sobre os custos.
Segundo os números apresentados no estudo, as hidrelétricas respondem por cerca de 58% da matriz elétrica brasileira. As termelétricas, que normalmente representam aproximadamente 11% da geração, podem complementar o abastecimento quando a produção hidrelétrica é insuficiente.
Reservatórios podem amortecer os efeitos da redução das chuvas
A quantidade de chuva em um período, isoladamente, não define o comportamento do mercado elétrico. Os reservatórios armazenam água que poderá ser utilizada posteriormente, permitindo atravessar fases de menor afluência.
Assim, um episódio de El Niño não resulta necessariamente em energia mais cara. Com armazenamento elevado, o sistema tem maior capacidade de absorver uma redução das chuvas. Com níveis baixos, condições climáticas semelhantes podem representar risco maior para a geração e os preços.
A StoneX destaca que essa diferença ajuda a explicar por que episódios anteriores do fenômeno produziram resultados distintos no mercado brasileiro.
Histórico mostra diferenças entre os submercados
Durante o El Niño de 2015–2016, o Nordeste enfrentou condições hidrológicas desfavoráveis. Em determinado momento, o reservatório de Sobradinho, no rio São Francisco, ficou abaixo de 5% da capacidade.
Entre janeiro e abril de 2016, o PLD médio chegou a R$ 248 no Nordeste, enquanto no Sudeste/Centro-Oeste ficou em R$ 38, conforme a análise. O contraste demonstra o efeito da combinação entre baixa entrada de água e armazenamento reduzido.
Já o El Niño de 2023 encontrou reservatórios cheios e não provocou um choque semelhante. Em 2024, porém, a seca levou o PLD a R$ 481 em outubro, mesmo após o encerramento do fenômeno.
O estudo também cita 2014, quando um bloqueio atmosférico dificultou a formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) durante o verão. A escassez de chuva levou o PLD ao teto regulatório vigente naquele ano, de R$ 823, mostrando que altas expressivas não dependem exclusivamente do El Niño.
Sudeste e Centro-Oeste concentram armazenamento do sistema
O Sudeste e o Centro-Oeste reúnem aproximadamente 70% da capacidade de armazenamento de energia do Sistema Interligado Nacional (SIN), segundo a StoneX. Essa concentração faz com que as condições hidrológicas da região tenham influência significativa sobre a formação do PLD.
No Nordeste, a disponibilidade de água em bacias como a do São Francisco divide importância com a geração eólica e solar. Essas fontes podem compensar parte das dificuldades hidrológicas, mas a existência de excedentes não garante sua transferência integral para outras regiões.
Diferenças de oferta, demanda e capacidade de intercâmbio podem ampliar a distância entre os preços dos submercados. Esse afastamento é acompanhado pelo chamado spread, ou diferencial de preços.
Tocantins e São Francisco exigem atenção
O panorama da StoneX, com dados até 7 de outubro de 2026, apresenta condições distintas entre as principais bacias brasileiras.
Paranapanema, Iguaçu, Tietê e Paraná registravam afluências acima da média. O armazenamento, entretanto, precisa ser acompanhado separadamente, pois a melhora na entrada de água não se traduz imediatamente em recuperação dos reservatórios.
No Tocantins, o armazenamento estava próximo de 50%, enquanto a afluência permanecia abaixo da média histórica. Amazonas e São Francisco também apresentavam entrada de água inferior à média.
No Sul, bacias como Iguaçu e Uruguai tinham condições mais favoráveis à reposição. Ainda assim, a evolução de cada reservatório depende das chuvas efetivamente registradas, do armazenamento anterior e da operação do sistema.
Ao comparar episódios anteriores de El Niño com o quadro apresentado, a consultoria aponta atenção para possíveis quedas de armazenamento no Tocantins e no São Francisco. Essas avaliações representam cenários, cuja concretização dependerá da distribuição das chuvas nos próximos meses.
Eólicas e solares ajudam a conter preços, mas têm limitações
Segundo o estudo, a energia eólica representa cerca de 16% da matriz nacional e responde por aproximadamente 60% da geração no Nordeste. A solar corresponde a cerca de 13% da matriz brasileira, com expansão em grandes usinas e na geração distribuída.
A ampliação dessas fontes contribui para aumentar a oferta de eletricidade. Entre 2022 e 2024, houve períodos em que o PLD permaneceu próximo ao piso regulatório, entre R$ 56 e R$ 69, em um ambiente de reservatórios recuperados e maior disponibilidade de geração eólica e solar.
Esse suporte não elimina os riscos. A produção dessas fontes também depende das condições meteorológicas, exigindo alternativas para compensar momentos de menor geração.
Além disso, a expansão da oferta pode aumentar os cortes de geração quando a rede não consegue absorver toda a energia disponível, situação conhecida como curtailment. Para a StoneX, o acompanhamento conjunto das chuvas, dos reservatórios e das condições de operação será fundamental para avaliar a pressão sobre os preços da energia.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias