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Clima

El Niño pode atingir força histórica na safra 2026/27 e eleva risco climático no Brasil

NOAA aponta mais de 90% de probabilidade de evento muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027; excesso de chuva no Sul e veranicos no Centro-Norte preocupam produtores


Publicado em: 21/09/2026 às 11:45hs

El Niño pode atingir força histórica na safra 2026/27 e eleva risco climático no Brasil

O El Niño continua ganhando intensidade no Oceano Pacífico e poderá alcançar níveis históricos durante a safra brasileira de verão 2026/27. A perspectiva amplia a atenção do agronegócio para o risco de chuvas excessivas no Sul, precipitações irregulares no Centro-Norte e alternância entre calor intenso e incursões de ar frio.

O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) estima probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte, período que corresponde à primavera e ao verão no Brasil.

Para o trimestre entre outubro e dezembro de 2026, a instituição calcula em 75% a possibilidade de o fenômeno superar a intensidade dos eventos registrados desde 1950. Isso significa alcançar ou ultrapassar uma anomalia média de 2,5 °C no indicador utilizado pelo órgão.

As águas do Pacífico equatorial já apresentam aquecimento expressivo. Em agosto, a anomalia chegou a 1,8 °C na região Niño 3.4, principal referência para o acompanhamento do fenômeno, e a 3,4 °C na região Niño 1+2, mais próxima da costa sul-americana. Os dados constam do diagnóstico oficial do CPC/NOAA, divulgado em setembro.

El Niño deve permanecer ativo na safra 2026/27

A previsão indica que o aquecimento do Pacífico continuará se intensificando até o fim de 2026, com efeitos durante parte do início de 2027. A possibilidade de um evento excepcionalmente forte aumenta a probabilidade de impactos típicos do El Niño, mas não garante que todas as regiões apresentarão o comportamento climático tradicionalmente associado ao fenômeno.

Outros fatores oceânicos e atmosféricos podem alterar a distribuição das chuvas e das temperaturas no Brasil. Entre eles está uma área de águas mais frias próxima ao litoral da Argentina e do Uruguai.

Segundo o meteorologista Ronaldo Coutinho do Prado, da Climaterra, essa configuração pode favorecer a formação de ciclones extratropicais e impulsionar massas de ar frio em direção ao continente.

O resultado poderá ser a ocorrência de quedas acentuadas de temperatura mesmo durante um El Niño muito forte, comportamento menos comum em eventos dessa natureza.

Sul do Brasil enfrenta risco de chuva excessiva e frio

O El Niño costuma favorecer precipitações acima da média na Região Sul. Para a safra 2026/27, esse padrão poderá afetar a implantação e o desenvolvimento de culturas como soja, milho, arroz e feijão.

O excesso de umidade pode dificultar a entrada de máquinas, atrasar operações, provocar erosão, reduzir a eficiência de aplicações e ampliar a pressão de doenças. Em fases mais avançadas, chuvas persistentes também podem prejudicar a colheita e a qualidade dos grãos.

A presença de águas frias no Atlântico Sul pode conter parcialmente os volumes em determinados períodos. Ainda assim, Coutinho considera elevado o risco de chuva excessiva durante a safra de verão.

As incursões de ar polar acrescentam outra variável ao cenário. Dependendo da intensidade e da época de ocorrência, quedas de temperatura podem afetar lavouras em fases sensíveis, especialmente em áreas de maior altitude.

Centro-Oeste e Matopiba podem ter chuvas irregulares

No Centro-Norte do Brasil, a principal preocupação está relacionada à irregularidade das precipitações. Em anos de El Niño, a chuva pode demorar a se consolidar ou apresentar interrupções prolongadas, mesmo depois dos primeiros episódios da estação úmida.

Coutinho alerta para o risco de “falsas largadas” do período chuvoso em Mato Grosso, no norte de Mato Grosso do Sul e no Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Nesse cenário, as primeiras chuvas podem estimular o início da semeadura, mas serem seguidas por novos períodos de tempo seco e temperaturas elevadas. A falta de umidade após a germinação aumenta o risco de falhas no estabelecimento das plantas e necessidade de replantio.

“Vai ter chuva, mas também haverá veranicos prolongados, com cortes nas precipitações”, projeta o meteorologista.

A regularização das chuvas será especialmente importante para a soja. Além de influenciar a implantação da oleaginosa, qualquer atraso no calendário pode reduzir a janela disponível para o milho segunda safra.

Atlântico aquecido pode afetar a colheita

Outra preocupação indicada por Coutinho é o aquecimento do Oceano Atlântico próximo ao litoral do Nordeste. Essa condição pode favorecer chuvas acima da média em áreas do Centro-Norte justamente durante a colheita da safra de verão.

Caso se confirme, o cenário poderá dificultar a retirada dos grãos, elevar a umidade da produção e aumentar riscos de perdas qualitativas. Problemas logísticos e interrupções nas operações também podem ocorrer em períodos de precipitação persistente.

A interação entre o Pacífico aquecido, o Atlântico Sul e as frentes frias será determinante para a distribuição efetiva das chuvas. Por isso, os efeitos não deverão ocorrer de maneira uniforme em todas as regiões.

Planejamento da safra exige acompanhamento regional

Embora os modelos indiquem elevada probabilidade de um El Niño muito forte, previsões sazonais não determinam o volume exato de chuva em cada município ou propriedade.

O produtor deverá acompanhar previsões de curto e médio prazo antes de definir a data de plantio. Escalonamento da semeadura, escolha de cultivares, conservação do solo, drenagem e planejamento das aplicações ganham relevância diante do risco de extremos climáticos.

No Sul, o foco estará no excesso de umidade e nas possíveis quedas de temperatura. No Centro-Oeste e no Matopiba, a maior ameaça poderá vir da irregularidade das chuvas, do calor e dos veranicos após o início da semeadura.

Com o El Niño em rápida intensificação, a safra 2026/27 começa sob um cenário de elevado risco climático. O impacto final dependerá não apenas da força do fenômeno, mas também da interação com o Atlântico e da distribuição regional das precipitações ao longo do ciclo agrícola.

Fonte: Portal do Agronegócio

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