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Clima

El Niño na safra 2026/27: clima irregular aumenta risco de doenças e exige manejo estratégico nas lavouras

Fenômeno climático deve provocar diferentes impactos nas regiões produtoras do Brasil, elevando a pressão fitossanitária em soja, milho e trigo e exigindo planejamento antecipado, monitoramento e aplicações mais precisas


Publicado em: 20/07/2026 às 15:00hs

El Niño na safra 2026/27: clima irregular aumenta risco de doenças e exige manejo estratégico nas lavouras
Foto: Melquizedeque Almeida/Pexels

O possível retorno de um El Niño de forte intensidade na safra 2026/27 coloca produtores brasileiros em estado de atenção. O fenômeno climático, conhecido como “Super El Niño” em eventos mais intensos, pode alterar o regime de chuvas, provocar maior instabilidade climática e ampliar os desafios relacionados ao controle de doenças nas principais culturas agrícolas do país.

Dados recentes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam uma probabilidade elevada de formação do fenômeno até julho deste ano e manutenção das condições de El Niño durante o verão entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. O cenário reforça a necessidade de um manejo fitossanitário regionalizado e mais estratégico para a próxima temporada.

El Niño deve provocar cenários opostos entre regiões agrícolas

Os impactos do fenômeno climático tendem a variar conforme a localização das áreas produtivas. No Cerrado brasileiro, a previsão é de maior irregularidade das chuvas, com possibilidade de atrasos no calendário de plantio e reflexos principalmente sobre o desempenho do milho segunda safra.

Já no Sul do Brasil, a expectativa é de volumes mais elevados de precipitação, aumentando o período de umidade nas lavouras e criando condições favoráveis para o avanço de doenças fúngicas.

Essa diferença regional torna o planejamento agrícola ainda mais complexo, já que a combinação entre temperatura, umidade, estágio das plantas e presença de patógenos determina o nível de risco para cada cultura.

Segundo Mário Drehmer, gerente sênior de Portfólio e Culturas da Sumitomo Chemical, a irregularidade climática pode provocar desuniformidade no desenvolvimento das lavouras.

“A irregularidade no período de semeadura resulta em lavouras com fases de desenvolvimento distintas, aumentando o período de exposição às pragas e doenças. As áreas mais tardias geralmente são as que sofrem maior pressão”, explica.

Soja: doenças podem aparecer mais cedo no ciclo produtivo

Na cultura da soja, a combinação entre temperaturas elevadas e alta umidade favorece o desenvolvimento de doenças como ferrugem asiática, septoriose e cercosporiose.

Um dos principais alertas para a próxima safra é a antecipação do período de ocorrência de doenças consideradas tradicionalmente de final de ciclo.

De acordo com Drehmer, problemas como septoriose e cercosporiose precisam ser tratados com maior atenção desde as primeiras fases da cultura.

“Essas doenças podem se estabelecer ainda no período vegetativo, provocando desfolha nas partes inferiores da planta e reduzindo o potencial produtivo antes mesmo de os sintomas mais evidentes aparecerem”, afirma.

Com isso, o monitoramento frequente das áreas e a adoção de estratégias preventivas ganham importância para preservar o teto produtivo das lavouras.

Milho exige atenção redobrada ao complexo de doenças foliares

No milho, o cenário climático associado ao El Niño aumenta a preocupação com doenças foliares que podem comprometer o desenvolvimento da cultura.

Entre os principais problemas estão:

  • Cercosporiose;
  • Diplodia;
  • Mancha de phaeosphaeria;
  • Helmintosporiose;
  • Ferrugem.

O desafio aumenta porque muitos híbridos modernos apresentam elevado potencial produtivo, mas podem demandar maior cuidado em relação à proteção fitossanitária.

“O produtor precisa trabalhar com fungicidas de amplo espectro de forma preventiva, principalmente nos estádios vegetativos, para reduzir riscos durante períodos favoráveis ao avanço das doenças”, destaca o especialista.

Trigo pode sofrer com aumento da umidade e risco de giberela

Na cultura do trigo, a principal preocupação está relacionada à giberela, doença favorecida por ambientes úmidos durante fases críticas do desenvolvimento da planta.

Além das perdas de produtividade, o problema pode comprometer a qualidade dos grãos devido à produção da micotoxina DON, que impacta a comercialização do produto.

Outras doenças que podem ganhar intensidade em condições de maior umidade incluem:

  • Mancha-amarela;
  • Septoriose;
  • Ferrugem.

O cenário reforça a importância do acompanhamento climático e do posicionamento correto das aplicações.

Janela de aplicação pode ficar mais curta com chuvas intensas

Além dos impactos biológicos, o El Niño também pode aumentar os desafios operacionais dentro das propriedades rurais.

O excesso de chuva favorece a multiplicação e dispersão de patógenos, mas também pode dificultar a entrada de máquinas no campo, reduzindo as oportunidades para aplicação de fungicidas no momento ideal.

“O molhamento foliar favorece a germinação dos esporos e as chuvas ajudam na dispersão dos patógenos. Porém, o excesso de água pode impedir operações agrícolas e diminuir as janelas de controle”, explica Drehmer.

Esse cenário exige maior organização logística, planejamento de equipamentos e definição antecipada das estratégias de manejo.

Manejo regionalizado será decisivo na safra 2026/27

A ocorrência de doenças agrícolas depende da interação entre três fatores principais: hospedeiro, ambiente e patógeno.

Com cultivares cada vez mais produtivas e ciclos mais curtos, muitas variedades apresentam maior sensibilidade a determinados agentes causadores de doenças. Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas alteram a dinâmica dos patógenos presentes no solo, na palhada e em áreas próximas.

Para especialistas, a próxima safra não permitirá estratégias padronizadas para todas as regiões.

“Não existe mais espaço para receitas prontas. Cada região, cada safra e cada condição de cultivo exigem estratégias de manejo adaptadas à realidade local”, reforça Mário Drehmer.

Safra 2026/27 exigirá decisões antecipadas no campo

Com a possibilidade de um El Niño mais intenso, produtores de soja, milho e trigo devem ampliar o monitoramento climático, revisar protocolos fitossanitários e ajustar o planejamento operacional antes do início da temporada.

A combinação entre clima instável, maior pressão de doenças e redução das janelas de aplicação coloca o manejo preventivo como um dos principais fatores para proteger produtividade e rentabilidade no ciclo 2026/27.

Fonte: Portal do Agronegócio

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