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Clima

El Niño intensifica risco de incêndios nas florestas tropicais e ameaça safra no Brasil

Calor e redução das chuvas pressionam Amazônia e Sudeste Asiático; no campo, previsão indica falta de água em parte do país e excesso de precipitação no Sul durante o plantio de verão


Publicado em: 22/10/2026 às 11:25hs

El Niño intensifica risco de incêndios nas florestas tropicais e ameaça safra no Brasil

O El Niño de 2026–2027 aumenta a preocupação com secas e incêndios nas grandes florestas tropicais, enquanto amplia os desafios para a agricultura e a disponibilidade de água no Brasil. A combinação de temperaturas elevadas, chuvas irregulares e vegetação mais seca favorece a propagação do fogo, cuja origem nesses ambientes está principalmente associada à ação humana.

A Amazônia, as florestas do Sudeste Asiático e a bacia do Congo concentram a atenção de pesquisadores. Embora os impactos variem entre as regiões, episódios intensos do fenômeno podem submeter extensas áreas florestais a condições de calor e déficit hídrico.

No Brasil, o cenário coincide com o plantio da safra de verão 2026/27. As projeções indicam riscos distintos: restrição de umidade em áreas do Norte e da região central e precipitações acima da média no Sul.

El Niño pode alcançar intensidade histórica

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontou, em seu diagnóstico de outubro, 83% de probabilidade de o índice oceânico relativo atingir ou superar uma anomalia de +2,5°C na média de outubro a dezembro.

Segundo a agência, esse patamar poderia caracterizar um evento de intensidade histórica, superior aos episódios registrados desde 1950 nessa métrica. Trata-se de uma projeção para a média trimestral, sujeita à evolução das condições oceânicas e atmosféricas.

O boletim brasileiro de monitoramento também aponta elevada probabilidade de um El Niño muito forte no último trimestre do ano, com efeitos diferentes sobre o regime de chuvas de cada região.

Amazônia enfrenta combinação de seca, calor e queimadas

A redução das chuvas está entre os sinais mais consistentes dos episódios fortes de El Niño em partes da Amazônia. Uma análise do climatologista Zeke Hausfather reúne o histórico desses eventos e projeções de modelos sazonais para avaliar as áreas mais expostas a alterações de precipitação e temperatura.

Em registro divulgado em 15 de outubro, a NASA mostrou o avanço de incêndios e fumaça na floresta, com aumento da atividade do fogo no Pará e no Amazonas. A agência destaca que a sequência de secas e queimadas associada ao fenômeno pode atingir diferentes regiões tropicais ao longo dos meses.

Os dados reunidos no levantamento que acompanha o cenário brasileiro indicam 41.224 focos de calor na Amazônia em 2026, alta de 63,4% sobre os 25.231 registrados no mesmo período de 2025.

Nos últimos 30 dias considerados, os focos triplicaram no Amazonas, no Pará e no Amapá e mais que dobraram em Roraima. O avanço regional contrasta com as reduções observadas no Cerrado, na Caatinga e na Mata Atlântica, que mantêm o acumulado nacional abaixo do registrado um ano antes.

Indonésia mantém alerta para incêndios em florestas e turfeiras

No Sudeste Asiático, a Indonésia enfrenta sua temporada mais severa de incêndios desde 2015. A estiagem associada ao El Niño aumenta a vulnerabilidade das florestas e das turfeiras, ambientes que armazenam grandes quantidades de matéria orgânica.

Mesmo com uma redução recente dos focos, o país continuava em alerta nesta quinta-feira, 22 de outubro. As chuvas esporádicas ainda eram insuficientes para eliminar o risco de novos incêndios e da retomada de áreas em combustão, segundo informações divulgadas pela Reuters.

A situação exige atenção também aos efeitos da fumaça, que prejudica a qualidade do ar e pode alcançar países vizinhos.

Fogo ameaça estoques de carbono das florestas

A preocupação vai além da perda imediata de vegetação. Amazônia, bacia do Congo e florestas do Sudeste Asiático armazenam carbono e participam da regulação do clima.

Quando o fogo atinge esses ecossistemas, parte desse carbono é liberada para a atmosfera. A degradação também pode tornar a vegetação mais vulnerável a novos episódios de seca e incêndio, prolongando os efeitos de um fenômeno climático temporário.

Na bacia do Congo, o aumento da atividade do fogo exige acompanhamento, mas não permite, isoladamente, atribuir os incêndios ao El Niño. A avaliação precisa considerar as condições locais e as atividades humanas.

Chuvas abaixo da média atingem bacias amazônicas

O monitoramento apresentado para o período de 20 de setembro a 19 de outubro aponta precipitação abaixo da média em 17 das 20 bacias acompanhadas na Amazônia. Juruá, Marañon e Ucayali se aproximaram da classificação de condição extremamente seca.

Os rios da calha principal permaneciam em vazante. Na semana analisada, o Purus recuou 73 centímetros em Beruri, enquanto o Solimões baixou 64 centímetros em Manacapuru. Apesar da redução, os níveis ainda estavam dentro do esperado para a época.

Em Manaus, onde o Rio Negro costuma atingir a mínima anual entre outubro e novembro, a evolução das chuvas nas próximas semanas será determinante para acompanhar as condições de navegação e abastecimento.

Reservatórios e umidade do solo entram no radar

O levantamento indica que o subsistema elétrico Sudeste/Centro-Oeste chegou a 54,9% de armazenamento em 19 de outubro, após perder 0,8 ponto percentual na semana, na quarta redução consecutiva.

No Nordeste, os reservatórios acompanhados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) estavam em 45,4%. Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte apresentaram queda no período.

Para a agricultura, a recuperação da umidade do solo permanece como uma variável central. O boletim integrado dos órgãos federais aponta que o início da estação chuvosa na porção central do Brasil pode ocorrer entre o fim de outubro e meados de novembro.

Safra de verão enfrenta riscos por falta e excesso de chuva

As perspectivas até dezembro mantêm o contraste entre condições mais secas no norte da Amazônia e chuvas acima da média no Sul, acompanhado de temperaturas elevadas em grande parte do país.

Durante a implantação da safra 2026/27, a falta de água no solo pode dificultar o estabelecimento das lavouras em áreas do Norte, do Nordeste e de Mato Grosso. No Sul, o excesso de precipitação pode reduzir as janelas disponíveis para as operações de campo.

O efeito sobre a produção dependerá da distribuição das chuvas, da intensidade do calor e da fase de desenvolvimento das culturas em cada região.

Eventos extremos deixam mais pessoas fora de casa

Os impactos também aparecem nos registros da Defesa Civil. Até 19 de outubro, o levantamento federal contabilizava 23,3 milhões de pessoas afetadas por eventos extremos em 2026, redução de 12% na comparação com o mesmo período de 2025.

Apesar disso, o número de pessoas desalojadas ou desabrigadas aumentou de 339,4 mil para 586,8 mil.

Nos 30 dias analisados, tempestades retiraram de casa 17.432 pessoas em 112 municípios de dez estados, com aproximadamente 90% delas na Região Sul. No mesmo intervalo, 214 municípios de 15 estados tiveram reconhecimento federal de situação de seca ou estiagem.

O quadro evidencia a ocorrência simultânea de riscos distintos no território brasileiro, com pressão sobre comunidades, infraestrutura e atividades agropecuárias.

Fonte: Portal do Agronegócio

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