El Niño forte ameaça soja, milho e café no Brasil no fim de 2026, alerta StoneX
Relatório climático aponta riscos de calor intenso e irregularidade das chuvas no último trimestre do ano. Cerrado e Matopiba estão entre as regiões que exigem maior atenção, enquanto o excesso de precipitação pode dificultar o plantio e as operações agrícolas no Sul do país.
Publicado em: 13/10/2026 às 11:10hs
O avanço de um El Niño de forte intensidade deve aumentar os desafios climáticos para o agronegócio brasileiro no último trimestre de 2026. Segundo a StoneX, a combinação do fenômeno com possíveis mudanças na circulação atmosférica associadas ao Dipolo do Oceano Índico (IOD) e às temperaturas elevadas no Atlântico tropical poderá provocar condições meteorológicas distintas entre as principais regiões produtoras do país.
A avaliação faz parte da análise climática publicada na 37ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, divulgada em 8 de outubro. O documento destaca riscos para as lavouras de soja, milho e café, além de possíveis efeitos sobre a cana-de-açúcar e outras commodities agrícolas no mercado internacional.
O principal alerta é a possibilidade de alternância entre períodos de chuva excessiva, calor intenso e deficiência hídrica. Nesse cenário, o impacto sobre a produtividade dependerá não apenas do volume de precipitação, mas também da distribuição das chuvas e do momento em que os eventos climáticos ocorrerem durante o ciclo das culturas.
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño já está estabelecido, com probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027. O fenômeno também aumenta a preocupação com a ocorrência de extremos climáticos, como ondas de calor, chuvas intensas e períodos de seca.
Soja e milho enfrentam riscos climáticos distintos no Brasil
As perspectivas para a safra brasileira de grãos variam conforme a região produtora. No Sul do país, a previsão de chuvas acima da média pode favorecer o desenvolvimento inicial das lavouras de soja e milho. Entretanto, o excesso de umidade também representa um risco para o andamento dos trabalhos no campo.
Volumes elevados de precipitação podem comprometer o ritmo do plantio, dificultar o trânsito de máquinas agrícolas e prejudicar a logística nas propriedades rurais e nas rotas de escoamento da produção.
No Cerrado e no Matopiba, que reúne áreas agrícolas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o cenário exige atenção especial. A combinação de temperaturas elevadas com chuvas abaixo do ideal em novembro e dezembro poderá aumentar o estresse hídrico das plantas, especialmente durante fases importantes do desenvolvimento da soja e do milho.
Segundo Carolina Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, a avaliação dos riscos climáticos precisa considerar a interação entre diferentes fenômenos oceânicos e atmosféricos, e não apenas o comportamento tradicionalmente associado ao El Niño.
A analista ressalta que períodos prolongados de calor acompanhados de baixa disponibilidade de água podem representar uma ameaça significativa à produção agrícola, principalmente em regiões nas quais as plantas apresentam elevada demanda hídrica.
Calor pode aumentar o estresse das lavouras de café no Sudeste
A cafeicultura do Sudeste brasileiro também está no radar dos analistas. Embora as projeções não indiquem um déficit generalizado de chuvas para toda a região, as temperaturas acima do padrão esperado para novembro e dezembro podem intensificar o estresse das plantas.
O cenário merece atenção porque as condições de temperatura e umidade influenciam o desenvolvimento vegetativo, a formação das estruturas reprodutivas e as etapas seguintes do ciclo produtivo do café.
Para os produtores, o acompanhamento das previsões meteorológicas e das condições de umidade do solo será importante para avaliar os riscos nas lavouras e orientar o planejamento das atividades agrícolas.
No mercado internacional, as condições climáticas nas principais origens produtoras também poderão influenciar as expectativas de oferta, a qualidade dos grãos e o comportamento dos preços.
Cana-de-açúcar pode encontrar condições mais favoráveis
Diferentemente dos riscos identificados para parte das áreas de soja, milho e café, a cana-de-açúcar do Centro-Sul apresenta perspectivas climáticas relativamente favoráveis para o último trimestre de 2026.
A expectativa de chuvas acima da média, acompanhadas de temperaturas próximas ou ligeiramente superiores aos valores históricos, tende a contribuir para o desenvolvimento da cultura.
O resultado, contudo, dependerá da distribuição das precipitações. Períodos prolongados de umidade excessiva podem dificultar operações agrícolas e afetar o planejamento das atividades no campo.
Assim, mesmo em regiões com perspectiva de maior disponibilidade de água, o comportamento das chuvas continuará sendo um fator determinante para o desempenho das lavouras.
Chuvas apresentam mudanças incomuns entre agosto e setembro
Os registros recentes reforçam a complexidade das projeções climáticas para a América do Sul. Em julho e agosto, o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina registraram volumes de chuva significativamente superiores às médias históricas. Em contrapartida, áreas mais ao norte do continente apresentaram precipitações reduzidas.
Em setembro, o padrão mudou de forma expressiva. Nos primeiros 23 dias do mês, São Paulo acumulou volumes de chuva 273% acima da média, enquanto o Paraná registrou precipitações 181% superiores ao padrão histórico.
Ao mesmo tempo, o Uruguai enfrentou uma das condições mais secas já observadas para o período, segundo a análise apresentada pela StoneX.
A inversão dos padrões entre agosto e setembro evidencia a dificuldade de estabelecer previsões uniformes para todas as regiões agrícolas. Por isso, o acompanhamento contínuo das condições meteorológicas será fundamental para identificar mudanças capazes de afetar o calendário agrícola e as perspectivas de produção.
El Niño também ameaça culturas agrícolas no mercado internacional
Os riscos climáticos não se restringem ao Brasil. O relatório da StoneX identifica possíveis impactos em países que disputam mercados internacionais com os produtores brasileiros.
No Paraguai e no Uruguai, as perspectivas para soja e milho apresentam semelhanças com as do Sul do Brasil. As chuvas podem favorecer o desenvolvimento inicial das lavouras, mas o excesso de umidade também pode prejudicar o plantio e outras operações agrícolas.
No sul da África, a combinação de calor e precipitações limitadas entre novembro e dezembro representa um risco para o potencial produtivo do milho.
Para o café, as condições meteorológicas em países da América Central, no México, na Colômbia e no Vietnã também serão acompanhadas de perto. Períodos mais secos podem facilitar determinadas operações de colheita, mas a persistência de temperaturas elevadas e a falta de água podem comprometer o desenvolvimento das plantas e as próximas floradas.
O cenário também exige atenção para outras commodities tropicais. Na Costa do Marfim e em Gana, importantes produtores de cacau, temperaturas mais altas podem aumentar o estresse das lavouras. Já na Indonésia e na Malásia, o comportamento do clima poderá influenciar a produção de óleo de palma.
No mercado de trigo, Argentina, Índia e Austrália estão entre os países que merecem monitoramento, diante da possibilidade de temperaturas elevadas interferirem no desenvolvimento das lavouras durante o trimestre.
Clima pode influenciar oferta, preços e volatilidade das commodities
A combinação de riscos climáticos em diferentes regiões produtoras pode aumentar a incerteza sobre a oferta global de commodities agrícolas. Quando as condições meteorológicas afetam o desenvolvimento das lavouras, o ritmo da colheita ou a qualidade da produção, as expectativas do mercado podem mudar.
Para soja, milho e café, os efeitos dependerão da intensidade dos eventos climáticos, da localização das áreas atingidas e da fase de desenvolvimento das culturas. Eventuais perdas de produtividade em regiões relevantes também poderão alterar as perspectivas de abastecimento e influenciar as cotações internacionais.
Entretanto, a ocorrência de um El Niño forte não significa, por si só, que haverá quebra de safra ou alta automática dos preços. A confirmação dos impactos dependerá da evolução do clima e de outros fatores que afetam o mercado, como estoques, demanda, câmbio e condições de produção em países concorrentes.
Monitoramento climático será decisivo no último trimestre de 2026
Para Carolina Giraldo, o principal desafio dos próximos meses será acompanhar a evolução de condições climáticas diferentes entre as regiões produtoras.
Enquanto algumas áreas poderão enfrentar excesso de chuva, outras estarão expostas ao calor intenso e à restrição hídrica. Essa diversidade exige avaliações específicas para cada cultura e região, em vez de uma interpretação generalizada dos efeitos do El Niño.
A análise mensal das precipitações, das temperaturas e da umidade do solo será especialmente importante para orientar decisões relacionadas ao plantio, ao manejo das lavouras e ao planejamento das operações agrícolas.
Com o avanço do fenômeno e a possibilidade de persistência até o início de 2027, o clima deve permanecer entre os principais fatores de risco para o agronegócio brasileiro. Para os produtores, acompanhar as atualizações meteorológicas será essencial para antecipar dificuldades, ajustar estratégias de manejo e reduzir a exposição a eventos extremos.
O que acompanhar: a distribuição das chuvas no Cerrado e no Matopiba, o risco de excesso de precipitação no Sul, as temperaturas nas regiões cafeeiras do Sudeste e as condições climáticas nos principais países concorrentes do Brasil.
Fonte: Portal do Agronegócio
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