El Niño aumenta riscos no agronegócio e exige planejamento tecnológico para proteger a produção agrícola
Irregularidade das chuvas, ondas de calor e excesso de umidade ameaçam lavouras, pecuária e qualidade dos alimentos; especialistas reforçam o papel da Engenharia Agronômica no planejamento climático do campo
Publicado em: 31/07/2026 às 13:00hs
O avanço do fenômeno El Niño coloca o agronegócio brasileiro em estado de alerta e amplia a necessidade de planejamento técnico, gestão de riscos e adoção de tecnologias no campo. As alterações no regime de chuvas e o aumento das temperaturas podem comprometer a produtividade de culturas agrícolas, pressionar custos de produção e afetar a oferta de alimentos.
Diante de um cenário marcado por calor extremo, estiagens intermitentes e chuvas irregulares, a Engenharia Agronômica ganha protagonismo ao oferecer soluções para adaptação climática, como irrigação inteligente, manejo eficiente do solo, monitoramento meteorológico e escolha de cultivares mais resistentes.
Segundo especialistas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), o produtor rural precisa trabalhar com planejamento antecipado e diferentes estratégias para enfrentar possíveis cenários de seca ou excesso de chuvas.
Clima irregular altera calendário agrícola e ameaça produtividade
O El Niño interfere diretamente no planejamento das principais cadeias produtivas ao modificar o comportamento climático em diferentes regiões do país.
Enquanto áreas do Centro-Sul, como São Paulo, enfrentam riscos relacionados a ondas de calor e períodos de estiagem, estados da Região Sul podem sofrer com volumes elevados de chuva durante períodos críticos de colheita.
No caso de culturas como trigo e milho, o excesso de umidade pode impedir a entrada de máquinas no campo, aumentando os riscos de perdas por germinação dos grãos ainda na planta, deterioração da qualidade industrial e redução do valor comercial da produção.
Para o engenheiro agrônomo Glauco Eduardo Pereira Cortez, diretor de Relações Profissionais do Crea-SP, a irregularidade climática interfere diretamente no calendário agrícola.
“O calendário agrícola pode ser alterado porque a irregularidade de chuvas provocada pelo El Niño desorganiza o planejamento que é feito nas áreas produtoras. Um exemplo é a soja: quando ocorre plantio tardio, a cultura pode enfrentar condições menos favoráveis durante o desenvolvimento, com calor excessivo e redução do rendimento”, explica.
Tecnologia agrícola se torna ferramenta contra extremos climáticos
A adoção de tecnologias de manejo é apontada como uma das principais estratégias para reduzir os impactos do clima sobre a produção.
Entre as soluções estão:
- irrigação de precisão;
- sistemas de monitoramento climático;
- manejo adequado da fertilidade do solo;
- drenagem eficiente em áreas sujeitas ao excesso de água;
- uso de variedades mais tolerantes à seca e ao calor;
- Manejo Integrado de Pragas (MIP).
Essas ferramentas permitem que o produtor tome decisões mais rápidas e reduza perdas em períodos de instabilidade.
Café e citricultura sofrem com calor e irregularidade das chuvas
As culturas perenes também estão entre as mais vulneráveis ao avanço dos extremos climáticos.
Na citricultura paulista, temperaturas elevadas durante a fase de pós-florada podem provocar queda das flores antes da formação dos frutos, reduzindo a produtividade e comprometendo a qualidade da produção.
O estresse hídrico também pode gerar frutos menores, com alterações na espessura da casca e menor rendimento industrial para produção de suco.
“O grande volume de calor pode prejudicar tanto animais quanto plantas. Nas culturas perenes, existe o risco de as flores caírem antes de se transformarem em frutos. Na citricultura, temperaturas extremas fazem a planta abortar parte da produção como mecanismo de sobrevivência”, destaca Glauco Cortez.
Na cafeicultura, o cenário também preocupa. O calor intenso e as chuvas fora do padrão podem provocar floradas desuniformes, fazendo com que os frutos amadureçam em diferentes momentos.
Como consequência, o produtor pode enfrentar:
- redução da qualidade dos grãos;
- maior dificuldade na colheita;
- aumento da exposição a pragas e doenças.
Hortaliças podem registrar aumento de doenças e queda na oferta
Os impactos do El Niño chegam rapidamente ao consumidor por meio das hortaliças.
O excesso de calor combinado com alta umidade favorece a multiplicação de fungos e outros agentes causadores de doenças, aumentando os riscos para culturas como alface, tomate e batata.
No tomate, temperaturas elevadas podem comprometer o desenvolvimento interno do fruto. Apesar de apresentar tamanho externo adequado, o produto pode ter menor preenchimento interno, reduzindo peso e qualidade comercial.
A menor oferta pode refletir diretamente nos preços ao consumidor.
Pecuária leiteira enfrenta risco de queda na produção
O setor pecuário também sofre com o aumento das temperaturas.
No leite, o principal problema é o estresse térmico dos animais, que reduz o consumo de alimento, altera o comportamento de ingestão de água e compromete a produção.
De acordo com o Crea-SP, vacas submetidas a condições severas de calor podem apresentar redução entre 10% e 30% na produção de leite, além de alterações nos índices de gordura e proteína.
Outro impacto ocorre nas pastagens, que podem perder qualidade durante períodos de estiagem, aumentando a necessidade de suplementação alimentar e elevando os custos da atividade.
Armazenamento exige controle de temperatura e umidade
Além dos cuidados durante o ciclo produtivo, a fase de pós-colheita também exige atenção diante dos efeitos climáticos.
Em safras colhidas sob condições de alta umidade, como ocorre frequentemente com o trigo no Sul do Brasil, sistemas modernos de armazenagem se tornam fundamentais.
A utilização de:
- secadores industriais;
- silos automatizados;
- controle de temperatura;
- monitoramento de umidade;
- ajuda a preservar a qualidade dos grãos e evita perdas econômicas após todo o investimento realizado na lavoura.
Planejamento climático é fundamental para o produtor rural
Para enfrentar um ambiente de maior incerteza climática, especialistas destacam que o produtor deve abandonar decisões baseadas apenas em um único cenário e trabalhar com estratégias alternativas.
O monitoramento constante das condições meteorológicas permite antecipar compras de insumos, ajustar o calendário de plantio e preparar ações de emergência.
“O produtor precisa trabalhar com cenários, tendo os planos A, B e C desenhados para agir conforme o comportamento do clima, seja em uma situação de normalidade, seca ou excesso de chuva”, afirma Glauco Cortez.
Agronegócio precisa investir em adaptação climática
O avanço do El Niño reforça uma tendência cada vez mais presente no agronegócio: a necessidade de transformar dados climáticos, tecnologia e engenharia em ferramentas de gestão.
Com maior planejamento, uso de inovação e adoção de práticas sustentáveis, produtores podem reduzir impactos dos eventos extremos e manter a competitividade da agricultura brasileira mesmo diante de um cenário climático mais desafiador.
Fonte: Portal do Agronegócio
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