Brasil forma primeiros 33 RC-Tasters e avança na avaliação da qualidade do café torrado
Especialistas serão responsáveis por análises sensoriais padronizadas em diferentes etapas da cadeia; ABIC agora busca reconhecimento internacional para o protocolo brasileiro
Publicado em: 16/09/2026 às 12:30hs
O Brasil formou sua primeira geração de RC-Tasters, profissionais especializados na avaliação sensorial de cafés torrados. O grupo pioneiro reúne 33 especialistas de diferentes regiões do país, preparados para atuar no controle de qualidade, no desenvolvimento de produtos e na análise técnica dos cafés disponíveis no mercado.
A formação foi celebrada pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) nesta quinta-feira (10/09), em São Paulo. A iniciativa representa uma nova etapa na padronização das avaliações do produto que chega ao consumidor e na profissionalização da indústria brasileira de café torrado.
O próximo objetivo da entidade é obter reconhecimento internacional para a norma brasileira e levar a metodologia desenvolvida no país ao mercado global.
ABIC busca reconhecimento internacional para protocolo brasileiro
A formação dos RC-Tasters está associada ao Protocolo Brasileiro de Avaliação de Cafés Torrados ABIC, registrado na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Segundo o presidente da ABIC, Pavel Cardoso, a entidade também foi convidada pela ABNT para assumir a gestão do comitê de cafés. A capacitação dos profissionais integra o processo de consolidação da metodologia brasileira.
“Buscamos formar profissionais focados em identificar o que há nas xícaras, garantindo a experiência entregue ao consumidor. O próximo passo é o reconhecimento internacional dessa norma, com o protocolo sendo registrado em nível global, para que essa inteligência do Brasil seja reconhecida no mundo”, afirma Cardoso.
De acordo com o presidente, as tratativas para o reconhecimento internacional já foram iniciadas.
A cerimônia contou ainda com a participação de Aguinaldo Lima, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Cafés Solúveis (ABICS); Camila Arcanjo, consultora de Qualidade da ABIC; Edvaldo Frasson, presidente do Sindicafé-SP; e Hugo Caruso, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Ministério da Agricultura e Pecuária (Dipov/Mapa).
O que faz um RC-Taster
Os RC-Tasters são capacitados para avaliar tecnicamente o café torrado em diferentes etapas da cadeia produtiva. Esses profissionais podem atuar em torrefações, armazéns, supermercados, laboratórios, consultorias e empresas responsáveis pelo desenvolvimento de produtos.
Entre as principais atividades estão:
- controle de qualidade em unidades industriais e comerciais;
- avaliação sensorial de lotes de café;
- desenvolvimento e ajuste de blends;
- análise de produtos disponíveis no varejo;
- elaboração de pareceres técnicos;
- orientação para padronização e melhoria dos cafés.
A formação ganha relevância diante da dimensão da indústria nacional. O Brasil reúne mais de mil indústrias de café torrado, segmento que movimentou R$ 46,24 bilhões em 2025.
Para Aline Marotti, coordenadora de Certificações e Qualidade da ABIC, o curso contribui para preencher uma lacuna na cadeia cafeeira.
“Preparamos especialistas para avaliar o café de forma técnica, padronizada e alinhada à percepção do consumidor brasileiro. Mais do que formar avaliadores, criamos uma nova referência profissional para o setor”, destaca.
Ciência sensorial orienta avaliação do café torrado
A capacitação dos primeiros RC-Tasters foi fundamentada na ciência da análise sensorial. Durante o curso, os participantes estudaram fisiologia dos sentidos, psicofísica, identificação e controle de vieses, percepção de diferenças, escalas de intensidade e desenvolvimento de memória sensorial.
Ao final da formação, os profissionais tornaram-se aptos a aplicar o Protocolo Brasileiro de Avaliação de Cafés Torrados ABIC, alinhado à norma NBR 17238, da ABNT.
A metodologia avalia o café torrado em sua condição final de consumo. O objetivo é estabelecer critérios mais consistentes para análise dos produtos vendidos no mercado, contribuindo para o controle de qualidade, a padronização industrial e o desenvolvimento de novos cafés.
Para Camila Arcanjo, coordenadora do curso, a formação fortalece tanto os profissionais quanto a cafeicultura nacional.
“Acredito nos cafés do Brasil. Buscamos a excelência dos cafés e dos profissionais e precisamos trabalhar por toda a cadeia”, afirma.
Formação amplia controle sobre cafés vendidos no varejo
Além de apoiar as indústrias, a atuação dos RC-Tasters pode ampliar a confiabilidade das informações apresentadas aos consumidores. A avaliação técnica permite verificar características sensoriais e acompanhar a consistência dos cafés encontrados nas prateleiras.
Margarete Azevedo, da Exattus Análises e Consultoria Técnica, de Minas Gerais, integrou a primeira turma ao lado de outros três profissionais da empresa. Para ela, a formação científica ajuda a reduzir a percepção de subjetividade nas avaliações.
“Já temos experiência na parte da microscopia e da impureza. Agora, a análise sensorial é a cereja do bolo. O protocolo da ABIC é fantástico”, declara.
José Victor Santos, da JVS Indústria e Comércio, de Barra do Choça, na região do Planalto da Conquista, na Bahia, destaca a responsabilidade envolvida na avaliação dos produtos comercializados.
“É uma responsabilidade enorme avaliar os cafés que estão nas prateleiras. Precisamos seguir os protocolos com o objetivo de manter um bom nível dos cafés nas gôndolas”, afirma.
Éverton Tales, da Verum Consultoria em Cafés, de Minas Gerais, avalia que a formação também cria uma referência para o consumidor.
“É uma validação para o consumidor brasileiro saber que o que está escrito no pacote foi avaliado por profissionais credenciados. É um salto muito grande na qualidade do café brasileiro”, ressalta.
Com a formação dos primeiros 33 RC-Tasters e a busca pelo reconhecimento internacional do protocolo, a indústria brasileira avança na construção de critérios técnicos para avaliar o café torrado, fortalecer o controle de qualidade e ampliar a confiança do consumidor.
Fonte: Portal do Agronegócio
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