Sucessão soja-milho eleva produtividade, reduz custos e amplia rentabilidade no campo
Estudo realizado durante 15 safras em Mato Grosso mostra que sistemas diversificados superam a monocultura e mantêm melhores resultados em períodos de seca
Publicado em: 24/08/2026 às 11:20hs
O cultivo de milho após a colheita da soja pode elevar a produtividade da oleaginosa, reduzir o custo por saca e aumentar a capacidade de enfrentar adversidades climáticas. A conclusão faz parte de um estudo desenvolvido pela Agroicone, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Fundação Mato Grosso.
A pesquisa comparou diferentes sistemas produtivos durante 15 safras consecutivas e constatou que a sucessão de culturas apresentou desempenho agronômico e econômico superior ao da monocultura contínua de soja.
Além da maior produção por hectare, os sistemas diversificados registraram menor oscilação de rendimento entre as temporadas. Essa estabilidade representa uma proteção adicional ao produtor diante de secas e de outras variações climáticas.
Segundo Luciane Chiodi Bachion, pesquisadora, sócia da Agroicone e líder do estudo, os resultados demonstram que o cultivo sequencial melhora de maneira significativa o desempenho dos agroecossistemas tropicais em comparação com a produção contínua de uma única cultura.
Experimento acompanhou 15 safras em Mato Grosso
O trabalho foi conduzido em Itiquira, no sul de Mato Grosso, entre as safras 2008/2009 e 2022/2023. A região apresenta clima tropical e estação seca concentrada entre junho e agosto.
Cinco sistemas de produção foram cultivados lado a lado e avaliados em quatro blocos experimentais repetidos a cada ciclo. Dois adotaram a monocultura de soja, um sob plantio direto e outro em sistema convencional. Os três restantes utilizaram sucessão da soja com milho, braquiária ou milheto.
A oleaginosa recebeu a mesma quantidade de fertilizante em todos os tratamentos. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram avaliar com maior precisão os efeitos da diversificação sobre a produtividade e o custo de produção.
Soja após milho supera 65 sacas por hectare
Os melhores rendimentos médios foram observados nos sistemas de sucessão. Ao longo das 15 temporadas, a soja cultivada em sequência com milho produziu, em média, 65,89 sacas por hectare.
A sucessão com braquiária alcançou resultado ainda ligeiramente superior, de 66,47 sacas por hectare. Em contrapartida, a monocultura de soja sob plantio direto registrou média de 52,15 sacas por hectare, enquanto o sistema convencional atingiu 54,36 sacas.
Na comparação com a monocultura em plantio direto, a sucessão soja-milho acrescentou 13,74 sacas por hectare à produtividade média da oleaginosa, diferença de aproximadamente 26%.
De acordo com Sofia Arantes, pesquisadora da Agroicone, os sistemas diversificados também apresentaram menor variação de produtividade entre os anos. Essa regularidade contribui para reduzir a exposição do produtor às mudanças nas condições climáticas de uma safra para outra.
Sucessão de culturas protege produtividade durante a seca
As diferenças entre monocultura e sucessão ficaram ainda mais evidentes nas temporadas com menor disponibilidade de água, especialmente em 2014/2015 e 2020/2021.
Em parte dos blocos experimentais, a produtividade da soja sob monocultivo caiu para menos de 20 sacas por hectare. Nos sistemas com sucessão de culturas, entretanto, o rendimento permaneceu próximo de 50 sacas.
O maior resultado registrado em toda a série histórica também veio da diversificação. Na safra 2018/2019, a soja cultivada em sucessão com milho atingiu 91,74 sacas por hectare.
Os dados indicam que os benefícios não estão limitados aos anos de clima favorável. A sucessão também contribui para preservar o potencial produtivo em temporadas marcadas por déficit hídrico.
Custo com fertilizante por saca é menor
O fertilizante representa aproximadamente 40% do custo de produção da soja e exerce forte influência sobre a rentabilidade das lavouras. Como todos os sistemas avaliados receberam a mesma dose, o aumento da produtividade reduziu o custo do insumo por unidade produzida.
Entre as safras 2009/2010 e 2022/2023, a sucessão da soja com braquiária apresentou custo médio de fertilizantes de US$ 9,25 por saca. No sistema soja-milho, o valor ficou em US$ 9,28 por saca.
Na monocultura sob plantio direto, o custo médio chegou a US$ 10,22 por saca. No cultivo convencional, ficou em US$ 10,07. O maior valor da série foi registrado na safra 2014/2015, quando o sistema convencional alcançou US$ 16,26 por saca.
Luciane Bachion explica que a maior cobertura e o melhor condicionamento do solo aumentam a eficiência no aproveitamento da água e dos nutrientes. Mesmo recebendo a mesma quantidade de fertilizante, os sistemas diversificados produzem mais e, consequentemente, apresentam menor custo por saca.
Milho de segunda safra amplia retorno financeiro
A integração entre soja e milho apresentou a maior rentabilidade entre os cinco sistemas analisados. Em algumas temporadas, como 2011/2012, 2020/2021 e 2021/2022, o retorno superou US$ 30 por saca.
O resultado foi favorecido tanto pelo aumento da produtividade da soja quanto pela receita adicional gerada pelo milho de segunda safra. A utilização da área em dois ciclos produtivos também permite diluir despesas fixas relacionadas a máquinas, mão de obra e financiamento da terra.
Essa combinação ajuda a explicar por que a sucessão soja-milho se consolidou como o sistema de melhor desempenho econômico dentro do experimento.
Diversificação melhora a qualidade do solo
O estudo identificou ainda benefícios relacionados às condições físicas, químicas e biológicas do solo. Entre os principais efeitos estão o aumento da matéria orgânica, a melhora na infiltração de água e o estímulo à atividade de microrganismos benéficos.
A diversificação também contribui para interromper ciclos de pragas e doenças associados à monocultura contínua. Com raízes, palhadas e exigências nutricionais distintas, as culturas favorecem um ambiente produtivo mais equilibrado.
Segundo Luís Guilherme Furlan de Abreu, pesquisador da Unicamp, esses ganhos são cumulativos e ajudam a explicar por que os sistemas de sucessão mantiveram produtividade mais elevada e estável durante os 15 anos de avaliação.
Sucessão soja-milho fortalece sustentabilidade da produção
Os resultados mostram que a sucessão de culturas pode melhorar simultaneamente a produtividade, a rentabilidade e a resiliência climática da agricultura tropical.
Ao produzir mais soja por hectare, diminuir o custo do fertilizante por saca e gerar receita com o milho de segunda safra, o sistema amplia a eficiência econômica da propriedade. Ao mesmo tempo, a melhoria do solo reduz a vulnerabilidade das lavouras e fortalece a sustentabilidade produtiva no longo prazo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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