El Niño ameaça safra de soja 2026/27, mas manejo adequado pode reduzir perdas
Embrapa recomenda seguir o Zarc, ampliar a cobertura do solo, escalonar a semeadura e combinar cultivares de ciclos diferentes para enfrentar excesso ou irregularidade das chuvas
Publicado em: 24/08/2026 às 16:00hs
A possível influência do El Niño sobre a safra brasileira de soja 2026/27 exige planejamento antecipado e estratégias adaptadas às condições de cada região. Enquanto o Sul poderá registrar chuvas acima da média, erosão do solo e maior pressão de doenças, áreas do Norte e do Nordeste devem enfrentar precipitações mais escassas e irregulares.
Segundo pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), as consequências do fenômeno dependerão de fatores como intensidade, volume e distribuição das chuvas, além do manejo adotado em cada propriedade.
Entre as principais recomendações estão o cumprimento das janelas de plantio definidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), a formação de palhada, o escalonamento da semeadura e a escolha de cultivares de soja com ciclos diferentes.
A combinação dessas medidas distribui os riscos ao longo da temporada e reduz a possibilidade de que toda a lavoura seja atingida pelo mesmo evento climático extremo.
El Niño deve provocar impactos diferentes nas regiões brasileiras
A expectativa é de que o El Niño favoreça volumes de chuva acima do normal na Região Sul. No Norte e no Nordeste, o cenário tende a ser marcado por redução e maior irregularidade das precipitações.
Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, os efeitos podem ser menos evidentes. Ainda assim, o fenômeno pode provocar temperaturas mais elevadas, redução da umidade do ar e atraso no início das chuvas de verão, especialmente no Centro-Oeste.
Para o pesquisador José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja, o produtor pode reduzir a vulnerabilidade da lavoura ao adotar antecipadamente práticas de gestão dos riscos climáticos.
As recomendações desenvolvidas para as regiões potencialmente mais afetadas também podem ser aplicadas no Centro-Oeste e no Sudeste, fortalecendo a capacidade de adaptação das propriedades.
Zarc deve orientar a época de plantio da soja
O respeito às épocas de semeadura estabelecidas pelo Zarc está entre as primeiras medidas recomendadas pela Embrapa para a safra 2026/27.
O zoneamento identifica os períodos com menor risco climático para cada cultura, município, tipo de solo e ciclo de cultivar. Os cálculos consideram séries históricas que incluem anos sob influência do El Niño.
Plantar dentro da janela indicada ajuda a diminuir a probabilidade de a soja atravessar fases decisivas, como floração e enchimento de grãos, em condições de deficiência hídrica ou excesso de umidade.
O cumprimento do calendário também é importante para a contratação de instrumentos de gestão de risco, como o seguro rural e o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).
Palhada protege o solo contra seca e excesso de chuva
A implantação de plantas de cobertura antes da semeadura da soja e do milho é considerada estratégica tanto nas regiões sujeitas à chuva intensa quanto nas áreas ameaçadas pela falta de água.
No Sul, espécies como aveia, centeio e nabo forrageiro ajudam a formar uma camada de palhada capaz de amortecer o impacto das gotas de chuva sobre a superfície. A proteção reduz o desprendimento de partículas e o risco de erosão hídrica.
No Norte e no Nordeste, plantas de serviço como braquiária, milheto e crotalária contribuem para aumentar a infiltração da água, diminuir a evaporação e reduzir a temperatura do solo.
A cobertura vegetal ainda melhora a estrutura do terreno e favorece a conservação da umidade, ampliando a capacidade da lavoura de suportar períodos de estiagem.
Escalonamento da semeadura distribui os riscos da safra
Concentrar toda a área plantada em um intervalo muito curto pode fazer com que as lavouras atravessem simultaneamente as fases mais sensíveis do desenvolvimento.
Para evitar esse problema, a Embrapa recomenda escalonar a semeadura e utilizar cultivares de soja com diferentes ciclos de maturação. A estratégia reduz a exposição conjunta da área produtiva a secas, chuvas excessivas ou outros eventos extremos.
Caso uma adversidade ocorra em determinado momento, somente parte da lavoura estará na fase de maior vulnerabilidade. As demais áreas poderão reagir de maneira diferente, diminuindo o risco de perdas generalizadas.
O escalonamento, porém, deve permanecer dentro das datas estabelecidas pelo Zarc e respeitar as regras do calendário fitossanitário de cada estado.
Sul deve reforçar conservação e drenagem do solo
Diante da possibilidade de chuvas frequentes no Sul do Brasil, a Embrapa recomenda atenção especial à conservação do solo e ao escoamento da água.
Uma das técnicas indicadas é a semeadura em nível, também chamada de plantio em contorno. Nesse sistema, as linhas acompanham as curvas de nível e ficam posicionadas de maneira perpendicular ao declive.
A prática reduz a velocidade do escoamento superficial, aumenta a infiltração da água no perfil do solo e diminui as perdas provocadas pela erosão.
O terraceamento agrícola também ganha importância. Quando corretamente dimensionados, os terraços controlam o fluxo superficial, reduzem os efeitos da declividade e ajudam a reter água e sedimentos dentro da área produtiva.
Solos compactados, áreas mal drenadas e terrenos com acúmulo de água apresentam maior vulnerabilidade durante períodos de precipitação intensa. Por isso, o diagnóstico prévio das condições físicas do solo é fundamental.
Excesso de chuva aumenta pressão de doenças na soja
O ambiente formado por calor, elevada umidade e períodos prolongados de molhamento foliar favorece o avanço de doenças fúngicas na soja.
Entre os problemas que podem ganhar intensidade durante uma temporada chuvosa estão:
- Ferrugem-asiática;
- Mofo-branco;
- Mancha-alvo;
- Antracnose;
- Doenças de final de ciclo;
- Podridão-radicular de fitóftora.
A podridão-radicular de fitóftora merece atenção principalmente em áreas compactadas, mal drenadas ou sujeitas ao encharcamento. A doença pode provocar falhas durante a emergência e, em casos mais graves, obrigar o produtor a replantar a lavoura.
A pesquisadora Leila Costamilan, da Embrapa Trigo, recomenda a utilização de cultivares resistentes e o tratamento de sementes com fungicidas específicos para reduzir os danos.
Ferrugem-asiática exige monitoramento constante
A ferrugem-asiática continua entre as doenças de maior risco econômico para a soja. Temperaturas amenas combinadas com longos períodos de umidade nas folhas criam condições favoráveis à infecção e ao avanço do fungo.
O pesquisador Maurício Meyer, da Embrapa Soja, orienta o acompanhamento das condições ambientais e dos primeiros registros da doença em cada região. Essas informações ajudam a definir o momento mais adequado para o controle químico.
As pulverizações devem integrar um programa preventivo, com produtos registrados, alternância de mecanismos de ação e aplicação baseada no risco observado na lavoura.
Também fazem parte do manejo integrado:
- Cumprimento do vazio sanitário;
- Eliminação de plantas voluntárias de soja;
- Semeadura de cultivares precoces no início da janela recomendada;
- Uso de materiais com genes de resistência;
- Monitoramento das ocorrências registradas pelo Consórcio Antiferrugem.
Chuvas frequentes podem dificultar pulverizações
Além de favorecer doenças, o excesso de chuva pode reduzir o número de dias disponíveis para aplicações de herbicidas, inseticidas e fungicidas.
Pulverizações realizadas em condições inadequadas podem apresentar menor eficiência, aumentar custos e exigir novas operações. Por isso, a Embrapa recomenda que o manejo fitossanitário seja definido com base no monitoramento da lavoura, na previsão do tempo e na tecnologia de aplicação.
A atenção deve ser ainda maior nos períodos em que a janela operacional estiver reduzida por chuvas sucessivas.
Seca pode alterar ocorrência de pragas e plantas daninhas
No Norte e no Nordeste, a redução e a irregularidade das chuvas também podem modificar a dinâmica de pragas, doenças e plantas daninhas.
A menor umidade tende a reduzir a ocorrência de algumas doenças foliares. Em contrapartida, pode dificultar o controle de plantas invasoras e favorecer pragas adaptadas a condições mais secas e quentes, como a mosca-branca.
O acompanhamento frequente da lavoura é necessário para identificar mudanças na pressão fitossanitária e orientar as intervenções no momento correto, evitando aplicações desnecessárias ou tardias.
Gestão integrada será decisiva na safra 2026/27
A Embrapa integra um grupo de trabalho instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para avaliar os possíveis impactos do El Niño na agropecuária brasileira.
A equipe prepara recomendações técnicas regionalizadas para as principais culturas, com foco na prevenção e no tratamento dos riscos climáticos.
Os pesquisadores ressaltam que não existe um efeito uniforme para todo o território nacional. Embora os sinais sejam mais claros para o Sul e partes do Norte e do Nordeste, ainda há incertezas sobre a intensidade e a distribuição dos impactos.
Independentemente da evolução do El Niño, práticas como cobertura permanente do solo, respeito ao Zarc, diversificação de cultivares, conservação da água, monitoramento fitossanitário e escalonamento do plantio são essenciais para aumentar a resiliência da soja e proteger o potencial produtivo da safra 2026/27.
Veja mais no vídeo:
<iframe width="1609" height="905" src="https://www.youtube.com/embed/zCkmpwcDYyI" title="Influência do El Niño na safra de soja" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias