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Análise de Mercado

Soja e milho: Brasil mantém vantagem nas margens, mas custos e dívidas desafiam safra 2026/27

Relatório do Rabobank prevê recuperação lenta e desigual da rentabilidade agrícola global em 2027; fertilizantes, juros e riscos climáticos limitam melhora no campo


Publicado em: 20/10/2026 às 10:50hs

Soja e milho: Brasil mantém vantagem nas margens, mas custos e dívidas desafiam safra 2026/27

A recuperação das margens dos produtores de grãos deve continuar lenta e desigual em 2027. No Brasil, soja e milho mantêm uma posição operacional mais favorável que a de outros grandes países produtores, mas o encarecimento dos insumos, o endividamento e as restrições de caixa reduzem os benefícios dessa vantagem.

A avaliação consta do relatório “Field crop margin outlook 2027”, publicado em outubro pelo RaboResearch, divisão de pesquisa do Rabobank. Liderado pelo analista Bruno Fonseca, o estudo aponta que a oferta global abundante dificulta altas sustentadas das commodities, enquanto os custos de produção voltam a pressionar o orçamento das propriedades.

Para o Hemisfério Sul, as projeções de 2027 apresentadas no levantamento correspondem à safra 2026/27.

Brasil preserva margens operacionais, mas enfrenta pressão financeira

Segundo o RaboResearch, as margens operacionais da soja brasileira retornaram a níveis próximos das médias históricas, enquanto as do milho permanecem acima da média.

O relatório projeta margem operacional de 38% para a soja e de 55% para o milho no Brasil em 2026/27. Esses percentuais, entretanto, não representam lucro líquido: o cálculo desconta determinados custos operacionais e exclui despesas com terra, financiamento e outros encargos.

Essa distinção é especialmente relevante no cenário brasileiro. O estudo destaca que produtores ainda carregam dívidas de ciclos anteriores de investimento, em um ambiente de juros elevados e capital de giro limitado.

Em algumas regiões, os índices de inadimplência mencionados no relatório superam 8%. Assim, mesmo propriedades com resultado operacional positivo podem enfrentar dificuldades para cumprir compromissos financeiros.

Custo de produção do milho deve subir 11% no Brasil

A pressão dos insumos tende a ser mais intensa no milho. O RaboResearch estima que os custos operacionais da cultura no Brasil avancem de US$ 739 para US$ 820 por hectare, aumento de aproximadamente 11% entre as temporadas analisadas.

Os gastos com fertilizantes devem crescer 10%, enquanto as despesas com defensivos agrícolas podem aumentar 35%. O relatório destaca fertilizantes e inseticidas entre os principais fatores de encarecimento da produção.

Para a soja brasileira, o custo operacional projetado passa de US$ 866 para US$ 899 por hectare, alta próxima de 4%. Fertilizantes e defensivos apresentam aumentos estimados de cerca de 2% cada.

A combinação dos resultados de soja e milho continua contribuindo para a rentabilidade das propriedades brasileiras, embora a situação financeira limite a capacidade de transformar essas margens em maior disponibilidade de caixa.

Oferta elevada dificulta recuperação sustentada dos preços

O relatório descreve um setor ainda em fase de contenção de gastos, após o período de valorização das commodities e expansão dos investimentos observado entre 2019 e 2023.

Com margens menores, produtores tendem a adiar compras de máquinas, rever investimentos e ajustar a área destinada às culturas menos rentáveis. A redução da disponibilidade de capital reforça esse movimento.

Apesar dos riscos de produção, a oferta mundial de grãos e oleaginosas permanece elevada. Nesse contexto, problemas climáticos ou interrupções comerciais podem provocar picos de preços sem necessariamente iniciar um ciclo duradouro de valorização.

Na avaliação do RaboResearch, oscilações nos próximos seis a 12 meses podem abrir oportunidades de comercialização e proteção de margens. Uma recuperação simultânea e abrangente da rentabilidade global, porém, permanece improvável em 2027.

El Niño e fertilizantes ampliam os riscos para a próxima safra

O clima é uma das principais variáveis do cenário. O estudo considera a persistência do El Niño durante boa parte do primeiro semestre de 2027, aumentando a incerteza sobre o desempenho das lavouras.

A presença do fenômeno não significa, por si só, perda de produtividade. Seus efeitos, contudo, exigem atenção ao planejamento e à gestão dos riscos de produção.

No mercado de fertilizantes, as tensões no Oriente Médio mantêm pressão sobre os nitrogenados e geram dúvidas sobre os fluxos de exportação de fornecedores importantes.

Segundo o relatório, a retomada chinesa das exportações de nitrogenados oferece algum alívio, mas pode ser insuficiente para compensar as interrupções. Nos fosfatados, a oferta restrita, os preços mais altos do enxofre e a ausência da China nas exportações sustentam os custos.

Milho dos Estados Unidos apresenta maior vulnerabilidade

Entre os grandes mercados analisados, os Estados Unidos aparecem em situação mais delicada. A margem operacional do milho americano é projetada em aproximadamente 3% em 2027, após duas temporadas consecutivas de retração.

Ao incorporar o conjunto dos custos da atividade, o resultado indicaria rentabilidade negativa para os produtores da cultura, segundo o RaboResearch.

Na soja americana, a perspectiva é relativamente melhor, com margem operacional estimada em 15%. Ainda assim, a diferença entre preços de venda e custos permanece próxima dos níveis historicamente baixos.

Na Argentina, a recuperação dos preços favorece a soja, cuja margem operacional projetada sobe para 21%. Para o milho, o encarecimento dos fertilizantes e a carga tributária mantêm pressão sobre os resultados.

Europa pode melhorar, enquanto Austrália segue com margens apertadas

Na Europa, o relatório aponta possibilidade de recuperação das margens após o nível mais baixo esperado para 2026, desde que as produtividades se normalizem.

A melhora potencial ocorre após uma temporada marcada por dificuldades climáticas e aumento dos custos. Energia e fertilizantes contribuíram para elevar as despesas com insumos em estimados 10% a 15% na comparação anual.

Na Austrália, perspectivas favoráveis de produtividade em algumas regiões ajudam a distribuir os custos por um volume maior de produção. Entretanto, a oferta local abundante pode limitar os preços recebidos pelos agricultores.

Para 2027, fertilizantes, diesel, frete e riscos climáticos devem manter a rentabilidade australiana sob pressão.

Como interpretar as margens do relatório

As estimativas do RaboResearch consideram receitas e custos operacionais selecionados, como fertilizantes, defensivos, sementes e combustíveis.

Despesas com terra e financiamento ficam fora do cálculo, assim como subsídios governamentais. Por isso, os percentuais permitem comparar o desempenho operacional das culturas, mas não devem ser interpretados como lucro líquido das propriedades.

O relatório tem autoria principal de Bruno Fonseca e reúne a equipe formada por Cindy van Rijswick, Stephen Nicholson, Doriana Milenkova, Barend Bekamp, Frank Donker, Vitor Pistoia, Oskar Mitchell e Samuel Taylor, do RaboResearch Food & Agribusiness.

Fonte: Portal do Agronegócio

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