Geopolítica transforma mercado de proteína animal e impõe nova estratégia ao Brasil
Barreiras comerciais, mudanças nos investimentos e exigências por rastreabilidade, biosseguridade e sustentabilidade desafiam a competitividade das carnes brasileiras no mercado internacional
Publicado em: 26/08/2026 às 10:20hs
A reorganização da economia mundial está alterando os fluxos comerciais, os investimentos e as exigências para o acesso aos mercados de proteína animal. Nesse novo cenário, o Brasil precisará ampliar sua capacidade de adaptação e adotar uma estratégia de longo prazo para preservar sua posição entre os maiores fornecedores globais de alimentos.
A avaliação é da Kemin, multinacional especializada em saúde e nutrição animal. Para a empresa, as recentes tensões entre a União Europeia e a cadeia brasileira de carnes representam apenas uma parte de uma transformação mais ampla, marcada por disputas comerciais, mudanças geopolíticas, avanços tecnológicos e novas demandas regulatórias.
Fatores externos passaram a influenciar o setor com intensidade semelhante à produtividade, aos custos de produção e à eficiência operacional. Com isso, decisões tomadas fora do Brasil têm efeitos cada vez mais diretos sobre exportações, investimentos, cadeias de suprimentos e planejamento industrial.
Lideranças da proteína animal discutem novo cenário global
Os impactos dessas transformações foram debatidos durante um encontro promovido pela Kemin com executivos de importantes empresas da cadeia brasileira de proteína animal.
Participaram representantes de companhias como Seara, Cargill, Pif Paf, Lar Cooperativa, ADM, Pluma, De Heus e Auster. O objetivo foi analisar os principais riscos e oportunidades para o setor diante das mudanças em curso na economia internacional.
O evento também contou com uma palestra do economista Ricardo Amorim, que abordou algumas das maiores transformações globais das últimas décadas. Entre elas estão o envelhecimento populacional, a queda das taxas de natalidade, o avanço acelerado da tecnologia e a reorganização geopolítica dos mercados.
Barreiras comerciais tendem a ganhar espaço
Segundo o presidente da Kemin para a América Latina, Rubens Campos, impasses comerciais envolvendo a União Europeia e os produtos brasileiros não devem ser interpretados como episódios isolados.
Na avaliação do executivo, as barreiras tarifárias e regulatórias deverão fazer parte de um ambiente internacional mais complexo. Quanto maior a participação do Brasil na produção e na exportação mundial de alimentos, maior também será a pressão para o atendimento de requisitos sanitários, ambientais e comerciais.
Esse movimento exige das empresas brasileiras capacidade para acompanhar mudanças regulatórias, antecipar riscos e responder rapidamente a decisões que possam limitar o acesso a determinados destinos.
A competitividade, portanto, deixa de depender apenas de preço, escala e produtividade. Aspectos como rastreabilidade, transparência, sustentabilidade e segurança sanitária ganham importância nas negociações internacionais.
Brasil atrai investimentos, mas cenário favorável pode ser temporário
Durante a apresentação, Ricardo Amorim destacou que o Brasil vem sendo beneficiado por uma combinação de fatores externos. Parte dos investimentos internacionais tem migrado para o país diante das instabilidades geopolíticas enfrentadas por outras economias relevantes.
A valorização das commodities também contribui para sustentar o desempenho brasileiro. Entretanto, o economista alertou que esse ambiente positivo não deverá permanecer indefinidamente.
O principal desafio será aproveitar a atual janela de oportunidades para construir vantagens competitivas duradouras. Isso envolve melhorar o ambiente de negócios, modernizar estruturas produtivas e ampliar os investimentos capazes de elevar a eficiência das cadeias nacionais.
Tecnologia e biosseguridade serão decisivas para as exportações
Para a Kemin, essa análise se aplica diretamente à cadeia brasileira de proteína animal. O país reúne condições favoráveis para permanecer como um dos principais fornecedores mundiais de carnes, mas a manutenção dessa liderança exigirá investimentos contínuos.
Entre as prioridades estão inovação, tecnologia, biosseguridade, sustentabilidade, rastreabilidade e eficiência produtiva. Esses fatores serão fundamentais para atender às exigências dos compradores, reduzir riscos sanitários e fortalecer a confiança dos mercados importadores.
A capacidade de comprovar a origem dos produtos e demonstrar conformidade ambiental tende a assumir papel ainda mais relevante. Ao mesmo tempo, melhorias em nutrição, saúde animal e processos industriais poderão ajudar o setor a produzir mais, com menor impacto e maior previsibilidade.
Geopolítica entra definitivamente na agenda das empresas
A geopolítica deixou de ser um assunto acompanhado apenas por governos e organismos internacionais. Seus efeitos passaram a integrar diretamente a gestão estratégica das empresas do agronegócio.
Conflitos, sanções, tarifas, mudanças diplomáticas e novas alianças comerciais podem modificar rotas de exportação, custos logísticos e disponibilidade de insumos. Também podem abrir oportunidades para fornecedores capazes de atender rapidamente mercados afetados por restrições ou interrupções de oferta.
Nesse contexto, a indústria de proteína animal precisa incorporar diferentes cenários internacionais ao planejamento de médio e longo prazo. A diversificação de destinos, a proteção das cadeias de suprimentos e o acompanhamento das mudanças regulatórias tornam-se fundamentais.
Cooperação será essencial para preservar liderança brasileira
A Kemin avalia que o diálogo entre empresas, especialistas e lideranças da indústria pode ajudar a cadeia de proteína animal a construir respostas coordenadas para as transformações do mercado global.
Mais do que reagir a problemas imediatos, o setor precisa desenvolver uma visão estratégica sobre seu futuro. Isso inclui antecipar demandas dos consumidores, acompanhar tendências tecnológicas e reforçar os atributos que diferenciam a produção brasileira.
Com escala, disponibilidade de matérias-primas e capacidade produtiva, o Brasil permanece bem-posicionado no comércio mundial de proteínas. A consolidação dessa vantagem, porém, dependerá da capacidade de transformar eficiência, sustentabilidade, rastreabilidade e segurança sanitária em pilares permanentes da competitividade nacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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