Fim da escala 6x1: supermercados terão de rever turnos, folgas e custos
Redução da jornada começa em dezembro de 2026, com limite de 42 horas semanais; planejamento das equipes será decisivo para manter atendimento e abastecimento das lojas.
Publicado em: 22/10/2026 às 09:30hs
O fim da escala 6x1 exigirá dos supermercados brasileiros uma reorganização das equipes para manter caixas, reposição e setores de perecíveis funcionando com a ampliação do descanso dos trabalhadores. Promulgada em 16 de outubro, a Emenda Constitucional nº 141 estabelece redução gradual da jornada, sem corte salarial, e dois dias de repouso semanal remunerado.
Para o varejo alimentar, o desafio será ajustar a disponibilidade de mão de obra aos horários de maior movimento, preservando o atendimento e o controle das despesas. A mudança alcança um setor que, segundo o Ranking ABRAS 2026, reúne cerca de 9 milhões de trabalhadores diretos e indiretos e atende 30 milhões de consumidores diariamente.
Na avaliação de Vanderlei Goulart, contador, consultor empresarial e diretor-presidente da Meta Assessoria, a adaptação começa pelo diagnóstico da operação: identificar quando cada loja precisa de mais funcionários e como distribuir as atividades ao longo da semana.
Quando começa a redução da jornada de trabalho
A transição será realizada em duas etapas. Dois meses após a publicação da emenda, em dezembro de 2026, o limite passa de 44 para 42 horas semanais, com a entrada em vigor dos dois dias de repouso remunerado. Um ano depois dessa primeira etapa, em dezembro de 2027, a jornada máxima será reduzida para 40 horas. A norma assegura a manutenção dos salários, inclusive dos pisos.
A reorganização do descanso dos empregados não implica, por si só, fechamento dos supermercados em dois dias da semana. O funcionamento das lojas dependerá da distribuição dos turnos e da observância das regras aplicáveis à atividade.
Goulart destaca que operações abertas diariamente precisarão programar as folgas de maneira compatível com a demanda de cada setor, evitando lacunas no atendimento.
Menos horas disponíveis exigem revisão das equipes
O primeiro passo para elaborar as novas escalas é mapear o fluxo de consumidores e a necessidade de pessoal em caixas, açougues, padarias, hortifrutis e reposição.
Uma loja com 20 empregados que trabalham 44 horas semanais dispõe, nesse exemplo, de 880 horas de trabalho por semana. Com a passagem para 42 horas, o total cai para 840 horas — redução de 40 horas semanais. Na etapa de 40 horas por empregado, a disponibilidade será de 800 horas, ou 80 horas abaixo da situação inicial.
Essa diferença não determina automaticamente quantas contratações serão necessárias. O resultado dependerá dos horários de funcionamento, da distribuição atual das equipes e da possibilidade de reorganizar tarefas.
Segundo o consultor, antes de ampliar o quadro, o supermercadista deve verificar se há concentração de funcionários em períodos de baixo movimento e insuficiência nos horários de maior procura.
Treinamento para atividades compatíveis, melhoria dos processos e uso dos sistemas de gestão também podem contribuir para reduzir tarefas repetitivas e aproveitar melhor o tempo das equipes.
Custo salarial por hora pode subir 10%
A manutenção do salário com uma jornada menor eleva o custo salarial por hora. Na redução de 44 para 40 horas semanais, o aumento matemático é de 10%, considerando a mesma remuneração e a mesma base de cálculo.
Isso não significa que a folha total crescerá necessariamente nessa proporção. O impacto efetivo dependerá de novas contratações, horas extras, produtividade e ajustes na organização do trabalho.
Para avaliar os efeitos sobre o negócio, Goulart recomenda acompanhar a despesa com pessoal em relação ao faturamento, além das vendas por período e da quantidade de empregados em cada turno.
O objetivo é identificar quanto custa manter cada setor funcionando e onde a redistribuição das equipes pode preservar o atendimento sem gerar despesas desnecessárias.
Folgas e compensações precisam observar as regras coletivas
A emenda prevê dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos. Também admite, excepcionalmente, regime compensatório definido por acordo ou convenção coletiva, com média de dois dias de descanso por semana dentro do mês-calendário e garantia de pelo menos um repouso no período máximo de uma semana de trabalho.
Na prática, a elaboração das escalas deve considerar tanto o texto constitucional quanto as normas aplicáveis à categoria. A organização do trabalho aos domingos e feriados também precisa integrar esse planejamento.
Para o consultor, antecipar a definição das folgas e manter os registros de jornada atualizados são medidas importantes para dar previsibilidade aos funcionários e reduzir falhas na gestão.
Transição coincide com o movimento de Natal
A primeira etapa ocorrerá em dezembro, período de demanda elevada no varejo alimentar. Por isso, a orientação de Goulart é simular as escalas antes da mudança, identificar possíveis faltas de cobertura e avaliar a necessidade de reforços temporários.
O trabalho deve reunir contabilidade, gestores das lojas e responsáveis pelos setores, considerando as particularidades de cada estabelecimento.
Supermercados de bairro e grandes redes apresentam estruturas diferentes de atendimento, abastecimento e pessoal. A adaptação dependerá de transformar essas características em um planejamento que concilie descanso dos trabalhadores, continuidade da operação e equilíbrio financeiro.
Fonte: Portal do Agronegócio
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