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Análise de Mercado

El Niño muito forte eleva risco climático para a safra 2026/27 no Brasil

NOAA aponta mais de 90% de probabilidade de evento de intensidade muito forte; excesso de chuva no Sul, estiagem no Centro-Norte e perdas de nutrientes exigem manejo preventivo nas lavouras


Publicado em: 14/09/2026 às 10:45hs

El Niño muito forte eleva risco climático para a safra 2026/27 no Brasil

O fortalecimento do El Niño reacendeu o alerta entre produtores rurais brasileiros às vésperas do avanço da safra 2026/27. A perspectiva de um evento de intensidade muito forte amplia os riscos de chuvas excessivas no Sul, estiagens em áreas do Norte e Nordeste e maior irregularidade climática em partes do Centro-Oeste e do Sudeste.

De acordo com a atualização de setembro da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño continua em fortalecimento e apresenta probabilidade superior a 90% de atingir a categoria “muito forte” durante o outono e o inverno de 2026/27 no Hemisfério Norte — período que corresponde principalmente à primavera e ao verão no Brasil. A agência também estima em 97% a chance de o fenômeno persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte.

Embora a expressão “Super El Niño” tenha ganhado espaço no mercado e no noticiário, ela não representa uma classificação técnica oficial. O termo é utilizado informalmente para descrever eventos excepcionalmente intensos. Para o agronegócio, mais importante que a denominação será acompanhar a duração, o pico de aquecimento do Pacífico e a distribuição regional das chuvas.

Safra 2026/27 enfrenta riscos diferentes em cada região

Os efeitos do El Niño não ocorrem de maneira uniforme no território brasileiro. No Sul, o fenômeno costuma aumentar a frequência e o volume das precipitações, elevando os riscos de encharcamento do solo, erosão, doenças fúngicas e dificuldades para plantar, pulverizar ou colher.

No Norte, Nordeste e em áreas do Centro-Oeste e Sudeste, o principal risco está na redução das chuvas e na maior ocorrência de veranicos. A irregularidade hídrica pode comprometer a germinação, limitar o desenvolvimento das raízes e reduzir o potencial produtivo de culturas de sequeiro.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) destaca que o excesso de umidade no Sul pode dificultar o plantio e os tratos culturais, além de prejudicar a qualidade e a colheita. Nas regiões sujeitas à estiagem, a preocupação recai sobre o abastecimento hídrico, as pastagens e o desenvolvimento das lavouras.

Enchentes de 2024 reforçam preocupação no Rio Grande do Sul

O novo cenário climático traz à memória as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, durante o ciclo do El Niño 2023/24. O fenômeno contribuiu para um ambiente favorável a chuvas acima da média no Sul, embora episódios extremos resultem da combinação de diferentes fatores atmosféricos, oceânicos e locais.

Naquele ano, o valor da produção agrícola brasileira caiu 3,9% e totalizou R$ 783,2 bilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os impactos observados naquele período mostraram como extremos climáticos podem provocar perdas diretas nas lavouras, atrasar operações de campo, danificar estradas e armazéns e elevar os custos logísticos e de produção.

Excesso e falta de chuva afetam a nutrição das plantas

Além dos danos mais visíveis, como alagamentos, erosão e estresse hídrico, um El Niño intenso pode afetar diretamente a disponibilidade e a absorção de nutrientes pelas culturas.

Segundo Douglas Vaz Tostes, técnico nacional da GIROAgro, o desafio agronômico ocorre em duas frentes opostas. Nas áreas com chuvas excessivas, cresce o risco de lixiviação, processo no qual nutrientes são transportados para camadas mais profundas do solo e ficam menos acessíveis às raízes.

Nas regiões atingidas pela estiagem, a menor disponibilidade de água reduz o transporte e a absorção de nutrientes. O desenvolvimento limitado do sistema radicular também diminui a capacidade da planta de explorar o solo.

“Quando falamos em um possível Super El Niño, pensamos logo no aumento das chuvas no Sul, nas estiagens em partes do Norte e Nordeste e na maior irregularidade climática no Centro-Oeste e no Sudeste. Mas existe um impacto que muitas vezes passa despercebido: os efeitos dessas condições sobre a nutrição das plantas”, explica Tostes.

Manejo nutricional pode aumentar a resiliência das lavouras

Diante da possibilidade de condições climáticas extremas, o planejamento nutricional passa a ocupar uma posição estratégica na safra 2026/27. O objetivo não deve ser apenas fornecer nutrientes, mas melhorar a capacidade das plantas de enfrentar períodos de excesso ou escassez de água.

Entre os pontos que exigem atenção estão o equilíbrio da fertilidade do solo, o desenvolvimento do sistema radicular, a eficiência fotossintética e o parcelamento de aplicações em áreas com maior risco de perdas.

“Tecnologias que favoreçam o desenvolvimento radicular, a eficiência fotossintética e o equilíbrio nutricional ganham grande importância. Quem entende a relação entre clima, solo e nutrição estará mais preparado para proteger o potencial produtivo das lavouras”, afirma o especialista.

O manejo, entretanto, precisa ser definido com base em análise de solo, histórico da área, cultura implantada e previsão climática regional. Soluções padronizadas podem não responder adequadamente à grande diversidade de condições agrícolas do país.

Produtor deve reforçar planejamento antes do plantio

Com o El Niño projetado para permanecer ativo e ganhar intensidade até o fim de 2026, o produtor deverá acompanhar as atualizações meteorológicas ao longo de todo o ciclo agrícola.

A escolha da janela de plantio, o escalonamento das operações, a seleção de cultivares, a conservação do solo, a drenagem de áreas sujeitas ao encharcamento e o armazenamento de água em regiões com risco de estiagem serão fatores importantes para reduzir perdas.

Também será necessário monitorar a incidência de doenças, especialmente no Sul, onde a combinação entre temperatura e umidade elevada pode favorecer patógenos. No Centro-Norte, a prioridade tende a ser a preservação da umidade do solo e o fortalecimento das raízes.

O El Niño é um fenômeno natural recorrente, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e por mudanças na circulação atmosférica. Seus efeitos variam conforme a intensidade, a época do ano e a interação com outros sistemas climáticos. Por isso, a confirmação de um evento muito forte aumenta o nível de atenção, mas não permite antecipar de maneira isolada a ocorrência ou a dimensão de eventos extremos em cada região.

Fonte: Portal do Agronegócio

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