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Análise de Mercado

China concentra 33% das exportações do agro e geopolítica amplia riscos para o Brasil

RaboResearch aponta que três mercados respondem por 54% das vendas externas do setor, enquanto cerca de 80% dos fertilizantes e defensivos usados no país vêm do exterior


Publicado em: 17/09/2026 às 19:20hs

China concentra 33% das exportações do agro e geopolítica amplia riscos para o Brasil

O crescimento do agronegócio brasileiro no comércio mundial aumentou a exposição do setor às mudanças geopolíticas. Ao mesmo tempo que a China concentra aproximadamente 33% do valor exportado pelo agro nacional, cerca de 80% dos fertilizantes e defensivos agrícolas utilizados no Brasil são importados.

Essa combinação entre concentração dos mercados compradores e dependência externa de insumos está entre os principais riscos analisados pelo RaboResearch no estudo “As exportações do agronegócio brasileiro e a nova onda geopolítica”, divulgado em setembro de 2026.

O relatório, elaborado por Andy Duff, gerente regional do RaboResearch Food & Agribusiness para a América do Sul, aponta que a fragmentação das relações internacionais exigirá novas estratégias para preservar a competitividade das exportações brasileiras.

Entre as prioridades estão a ampliação da produção nacional de insumos, a diversificação dos destinos e dos produtos exportados e o aprofundamento das relações com parceiros comerciais estratégicos.

Brasil lidera exportações líquidas de alimentos e produtos agrícolas

Embora União Europeia e Estados Unidos estejam entre os maiores exportadores mundiais de alimentos e commodities agrícolas, o Brasil ocupa há vários anos a posição de principal exportador líquido global desses produtos.

Dados da Organização Mundial do Comércio apresentados no estudo mostram que as exportações líquidas brasileiras cresceram de forma consistente. No mesmo período, o saldo europeu permaneceu praticamente estagnado, enquanto os Estados Unidos passaram da condição de exportadores líquidos para importadores líquidos.

Soja, proteínas animais, açúcar, café e outras commodities destinadas à alimentação humana e animal impulsionaram essa expansão. O avanço ocorreu em diferentes regiões, mas foi especialmente intenso na China e nos demais mercados asiáticos.

Participação da China nas exportações do agro sobe de 7% para 33%

A transformação dos fluxos comerciais brasileiros fica evidente quando são comparados os períodos de 2003 a 2005 e de 2023 a 2025.

No primeiro intervalo, a China respondia por 7% do valor das exportações brasileiras de alimentos e produtos agrícolas. Duas décadas depois, essa participação chegou a 33%.

No sentido contrário, a União Europeia perdeu participação relativa. A fatia do bloco nas exportações do agronegócio brasileiro caiu de 32% para 14% no mesmo período.

Atualmente, China, União Europeia e Estados Unidos são os três maiores mercados do agro brasileiro e, juntos, concentram 54% do valor exportado pelo setor.

As demais vendas estão distribuídas entre mais de 100 países. Individualmente, nenhum desses destinos responde por mais de 3% das exportações, embora blocos e regiões como o Mercosul e o Oriente Médio tenham participação relevante.

Concentração varia entre as cadeias produtivas

A dependência de poucos compradores também aparece na análise por produto. Conforme o RaboResearch, a China está entre os três principais destinos de nove das dez commodities agrícolas avaliadas.

Em seis dessas dez cadeias produtivas, os três maiores mercados absorvem mais da metade das exportações brasileiras. Isso significa que alterações tarifárias, sanitárias ou comerciais adotadas por grandes compradores podem produzir efeitos expressivos sobre preços e embarques.

A elevada concentração não elimina a força do Brasil como fornecedor. Em produtos nos quais há poucas alternativas de oferta, a escala brasileira também pode funcionar como instrumento de proteção e negociação.

Agro importa cerca de 80% dos fertilizantes e defensivos

A expansão da produção e das exportações foi acompanhada pelo crescimento da demanda por insumos estrangeiros. Segundo o estudo, aproximadamente 80% dos fertilizantes e defensivos agrícolas utilizados no Brasil são importados.

A vulnerabilidade também alcança o setor de combustíveis. Como a capacidade brasileira de refino não acompanhou o aumento do consumo, as importações representam entre 25% e 30% da demanda nacional por diesel.

Essa dependência deixa produtores, cooperativas, tradings e agroindústrias mais expostos a conflitos, restrições comerciais, oscilações cambiais, interrupções logísticas e altas internacionais de preços.

O relatório cita os impactos provocados pelo conflito no Oriente Médio em 2026 sobre os mercados de combustíveis e fertilizantes. O movimento repetiu parte das preocupações observadas após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, quatro anos antes.

Tarifas e políticas comerciais elevam incertezas

O ambiente internacional tornou-se mais fragmentado, com países adotando medidas orientadas por segurança alimentar, autonomia produtiva e interesses estratégicos.

Entre os exemplos apontados pelo RaboResearch estão as tarifas implementadas pelos Estados Unidos em 2025 e a proposta de uma nova rodada tarifária em 2026.

Quando os Estados Unidos elevaram para 50% as tarifas sobre produtos brasileiros, em julho de 2025, foram posteriormente concedidas exceções para itens como café, suco de laranja, carne bovina e celulose. Nesses segmentos, o mercado norte-americano depende da oferta brasileira para atender parte da demanda.

O episódio demonstra que a relevância do Brasil como fornecedor global pode ampliar seu poder de negociação, principalmente quando a substituição dos produtos brasileiros é limitada.

Cota chinesa para carne bovina evidencia risco da concentração

As mudanças na política comercial da China também estão no centro da análise. O país aprovou, em março de 2026, seu 15º Plano Quinquenal, com foco em segurança alimentar, maior autossuficiência e gestão estratégica das importações.

Uma das aplicações práticas dessa orientação foi a adoção de cotas para a carne bovina.

Em 2025, a China importou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, volume equivalente a 48% das exportações totais do Brasil. Para 2026, a cota chinesa foi estabelecida em 1,1 milhão de toneladas.

Segundo o estudo, a diferença obriga os exportadores a buscar outros compradores para um volume equivalente a aproximadamente 17% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil em 2025.

O caso mostra a dificuldade de substituir rapidamente um mercado da dimensão chinesa. Na última década, o crescimento das importações da China de soja e carne bovina superou o aumento combinado registrado pelos outros dez maiores importadores mundiais desses produtos.

Relação entre Brasil e China continuará estratégica

Apesar da necessidade de diversificação, o RaboResearch avalia que a interdependência comercial entre Brasil e China não deverá desaparecer no curto prazo.

A dimensão da demanda chinesa e a capacidade brasileira de fornecimento tornam os dois países parceiros estratégicos. Por isso, o relatório recomenda ampliar o diálogo e a compreensão sobre as prioridades agrícolas e comerciais dos principais compradores.

O acompanhamento dessas políticas pode ajudar empresas e autoridades brasileiras a antecipar mudanças, preparar alternativas logísticas e comerciais e reduzir os impactos de novas barreiras.

África, Oriente Médio e Sudeste Asiático podem ganhar espaço

No longo prazo, as transformações demográficas poderão alterar a distribuição da demanda global por alimentos.

Projeções das Nações Unidas mencionadas pelo relatório indicam que o crescimento da população mundial será impulsionado principalmente pela África, pelo Oriente Médio e pelo Sudeste Asiático. Em contrapartida, as populações da China e da União Europeia deverão diminuir.

A tendência pode abrir espaço para uma redistribuição das importações agrícolas, criando novas oportunidades para as exportações brasileiras.

O acesso a esses mercados deverá ser favorecido pela abertura de novos destinos e por acordos comerciais. O estudo destaca os acordos entre União Europeia e Mercosul, Mercosul e Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e Mercosul e Singapura.

Novos produtos podem reduzir vulnerabilidade do agro

A diversificação não depende apenas da conquista de compradores. O desenvolvimento de novos produtos exportáveis também pode ampliar a resiliência do agronegócio.

O relatório cita os grãos secos de destilaria, conhecidos como DDG, como exemplo dessa transformação. O coproduto da fabricação de etanol de milho praticamente não aparecia na pauta brasileira de exportações há uma década.

Com a expansão da indústria nacional de etanol de milho, os embarques de DDG começaram a crescer. Desde 2023, o produto brasileiro obteve acesso a 21 destinos internacionais, avançando em um mercado historicamente dominado pelos Estados Unidos.

A experiência mostra que a agregação de valor e o aproveitamento de coprodutos podem criar novas fontes de receita e diminuir a dependência de uma pauta concentrada em commodities tradicionais.

Resiliência exige produção nacional e mercados diversificados

Para o RaboResearch, o agronegócio brasileiro deverá avançar em três frentes para enfrentar a nova configuração geopolítica.

A primeira é reduzir a dependência externa de fertilizantes, defensivos e combustíveis, com investimentos na produção doméstica de insumos e na capacidade nacional de refino.

A segunda envolve utilizar de maneira estratégica a relevância do Brasil como fornecedor de alimentos, fortalecendo relações com países que dependem das commodities brasileiras.

A terceira é ampliar a diversificação de mercados e produtos, ainda que esse processo seja gradual e não elimine, no curto prazo, a importância da China.

Em um comércio internacional mais fragmentado, a continuidade do crescimento das exportações dependerá não apenas do aumento da produção. Capacidade de antecipar riscos, garantir insumos, agregar valor e construir alternativas comerciais será decisiva para preservar a competitividade do agronegócio brasileiro.

Fonte: Portal do Agronegócio

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