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Análise de Mercado

Brasil concentra 78% das agtechs da América Latina, mas gestão de cooperativas ainda enfrenta atraso tecnológico

Avanço de soluções digitais contrasta com lacunas em sistemas voltados ao cooperativismo; integração será decisiva para setores como Alimentação e bebidas e Transportes diante da reforma tributária


Publicado em: 31/08/2026 às 09:00hs

Brasil concentra 78% das agtechs da América Latina, mas gestão de cooperativas ainda enfrenta atraso tecnológico

O Brasil consolidou-se como principal polo de inovação tecnológica para o agronegócio na América Latina e no Caribe. Das 2.656 agtechs identificadas em 23 países da região, 2.075 estão instaladas no território brasileiro, o equivalente a 78% do total.

Os dados fazem parte da primeira edição do Radar AgTech LAC, estudo coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).

O levantamento mostra um ecossistema em processo de amadurecimento, com soluções para agricultura de precisão, inteligência artificial, automação, sensoriamento remoto, monitoramento de lavouras e rastreabilidade. Apesar desse avanço, a transformação digital ainda ocorre de maneira desigual ao longo das cadeias produtivas.

Uma das principais lacunas está na gestão das cooperativas agropecuárias, especialmente na integração das operações relacionadas aos grupos de Alimentação e bebidas e Transportes, fundamentais para o processamento, armazenamento, distribuição e comercialização da produção rural.

Cooperativas ainda utilizam sistemas pouco adaptados ao setor

As cooperativas desempenham funções que vão desde a originação da produção rural até a industrialização e a venda ao mercado interno ou externo. Essa estrutura exige controle integrado de informações comerciais, fiscais, contábeis, logísticas e produtivas.

Entretanto, muitas organizações ainda utilizam sistemas originalmente desenvolvidos para empresas convencionais. Essas ferramentas nem sempre contemplam as especificidades jurídicas, tributárias e societárias do cooperativismo.

Segundo Luis Carlos Crema, CEO da SOLTERRA Soluções Inteligentes, a inovação avançou de forma mais acelerada dentro das propriedades rurais do que nas estruturas administrativas das cooperativas. Na avaliação do executivo, ainda são poucas as plataformas criadas especificamente para atender às particularidades desse modelo de negócio.

Essa deficiência pode dificultar o cruzamento de dados, o acompanhamento financeiro, a apuração tributária e a tomada de decisões em tempo real.

Alimentação e bebidas dependem de maior integração digital

O grupo de Alimentação e bebidas está diretamente ligado à capacidade das cooperativas de receber, beneficiar, industrializar e comercializar a matéria-prima produzida pelos associados.

Carnes, açúcar, etanol, soja, sucos, leite, café e outros produtos agroindustriais exigem controle rigoroso de origem, qualidade, estoque, custos e rastreabilidade. Quando os sistemas de gestão não se comunicam adequadamente, aumentam os riscos de inconsistências fiscais, perdas operacionais e dificuldades para calcular a rentabilidade de cada atividade.

A digitalização também se torna estratégica diante das exigências crescentes dos consumidores e dos mercados internacionais por informações sobre procedência, segurança dos alimentos e sustentabilidade.

Nesse cenário, a tecnologia de gestão precisa acompanhar os avanços já registrados na produção agrícola. Não basta gerar dados no campo se as informações não forem integradas às etapas de processamento e comercialização.

Transportes são essenciais para a eficiência das cooperativas

O grupo Transportes também ocupa posição central na transformação digital do cooperativismo agropecuário. A movimentação de grãos, carnes, leite, frutas, café e insumos exige planejamento logístico, controle de cargas, gestão de frotas e acompanhamento de custos.

Falhas de integração podem provocar atrasos, desperdícios, aumento do frete e perda de qualidade dos produtos. Em cadeias de alimentos perecíveis, problemas logísticos têm impacto ainda maior sobre a conservação e o valor comercial da produção.

Sistemas desenvolvidos para a realidade das cooperativas podem melhorar a programação das entregas, reduzir deslocamentos ociosos e conectar o transporte às áreas de estoque, faturamento, tributação e comercialização.

A integração entre campo, cooperativa, agroindústria e logística tende a ganhar relevância com o aumento da produção brasileira e a expansão das exportações.

São Paulo evidencia força econômica e demanda por gestão

O estado de São Paulo ajuda a dimensionar a importância econômica dessa transformação. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, o agronegócio paulista respondeu por 24% do Produto Interno Bruto do agronegócio brasileiro em 2024.

O setor também representou 18,9% da economia estadual. Desde aquele ano, São Paulo ocupa a liderança nacional nas exportações agrícolas, impulsionado principalmente pelo complexo sucroenergético, pelas carnes, pela soja e pelos sucos.

A diversidade das cadeias produtivas paulistas aumenta a necessidade de sistemas capazes de conectar produção rural, industrialização de alimentos e bebidas, movimentação de cargas, controle tributário e comércio exterior.

Reforma tributária amplia urgência da modernização

A reforma tributária deverá acelerar a necessidade de atualização dos processos de gestão no campo. A partir de 2027, PIS e Cofins serão substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).

Com as novas regras, produtores rurais com faturamento anual superior a R$ 3,6 milhões por CPF passarão à condição de contribuintes obrigatórios. A geração e o aproveitamento de créditos tributários poderão, portanto, influenciar diretamente as negociações com cooperativas, cerealistas e agroindústrias.

O ano de 2026 funciona como período estratégico de preparação. Empresas, cooperativas e produtores ainda podem revisar cadastros, integrar sistemas e corrigir falhas antes da aplicação efetiva das novas exigências e penalidades.

De acordo com Crema, a falta de integração entre a gestão da propriedade rural e a estrutura administrativa da cooperativa pode fazer com que o produtor perceba os impactos apenas depois de sofrer perdas financeiras. A antecipação dos ajustes tende a reduzir os riscos para o caixa da atividade.

Tecnologia precisa avançar da lavoura para a gestão

A liderança brasileira no número de agtechs demonstra que o país possui capacidade para desenvolver soluções digitais em escala. O desafio agora é levar essa inovação para áreas ainda pouco atendidas, principalmente a administração das cooperativas e sua conexão com os grupos de Alimentação e bebidas e Transportes.

A integração de dados fiscais, contábeis, produtivos e logísticos será determinante para aumentar a eficiência, controlar custos e preparar o agronegócio para o novo ambiente tributário.

Com a reforma tributária no horizonte e exigências crescentes por rastreabilidade, as cooperativas que iniciarem a modernização em 2026 poderão chegar a 2027 mais preparadas para proteger as margens, atender aos produtores e competir em mercados cada vez mais digitalizados.

Fonte: Portal do Agronegócio

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