Cacau na Amazônia ocupa mais de 121 mil hectares e avança sobre áreas já alteradas
Mapeamento inédito no Pará e em Rondônia mostra expansão da cacauicultura sem avanço predominante sobre florestas nativas, destaca protagonismo da agricultura familiar e amplia a rastreabilidade exigida pelo mercado internacional
Publicado em: 31/08/2026 às 09:30hs
A produção de cacau na Amazônia brasileira ocupa mais de 121 mil hectares no Pará e em Rondônia, segundo um novo mapeamento territorial da atividade. O levantamento revela que a expansão da cultura ocorre principalmente sobre pastagens, vegetação secundária e outras áreas anteriormente alteradas, reforçando o potencial da cacauicultura para recuperar terras degradadas, gerar renda e promover a restauração produtiva.
O estudo atualizou para 2024 os dados do Pará, cujo levantamento anterior era de 2022, e estabeleceu a primeira linha de base geográfica da produção de cacau em Rondônia. A análise combinou sensoriamento remoto, imagens de radar e de alta resolução, inteligência computacional e auditorias realizadas diretamente no campo.
O cruzamento das informações com as bases do TerraClass e do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indica que o avanço do cacau não ocorre predominantemente mediante a derrubada de floresta nativa, mas em territórios já modificados pela atividade humana.
Estudo será apresentado durante a ExpoCacau 2026
Os resultados serão apresentados em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus, na Bahia. O evento deve reunir mais de 6 mil participantes e aproximadamente 60 expositores, entre produtores rurais, pesquisadores, técnicos, empresas e organizações ligadas à cadeia produtiva.
Autor principal do trabalho, o pesquisador Adriano Venturieri, da Embrapa Amazônia Oriental, destaca que a cacauicultura ocupa uma posição estratégica na Amazônia contemporânea.
Além de proporcionar renda a milhares de famílias rurais, o cultivo pode recuperar solos alterados e devolver capacidade produtiva a paisagens anteriormente ocupadas por pastagens degradadas.
Região Norte concentra metade da produção brasileira de cacau
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a região Norte responde por aproximadamente 50% da safra brasileira de cacau. A produção regional se aproxima de 148 mil toneladas, diante de um volume nacional estimado em cerca de 297 mil toneladas.
O Pará lidera a produção brasileira, com aproximadamente 137,5 mil toneladas de amêndoas secas. O volume corresponde a 46% do cacau produzido no País e a 92% da colheita da região Norte.
Rondônia aparece como o segundo maior produtor do Norte e o quarto do Brasil, com produção estimada em 8,6 mil toneladas. Embora tenha uma área plantada menor, o estado registra produtividade média superior a 1.250 quilos por hectare, uma das mais elevadas do País.
Tecnologia permite identificar cacau em meio à vegetação amazônica
O mapeamento de cacaueiros na Amazônia representa um desafio para a ciência geoespacial. Especialmente nos cultivos sombreados, as copas das plantas apresentam características semelhantes às observadas em florestas nativas e áreas de vegetação secundária.
Para superar essa dificuldade, os pesquisadores desenvolveram uma metodologia híbrida, baseada na combinação de imagens e informações de diferentes satélites. A utilização de registros com resolução espacial de 50 centímetros permitiu identificar detalhes no terreno e diferenciar plantações a pleno sol de cultivos integrados a Sistemas Agroflorestais (SAFs).
A equipe também realizou expedições em dez municípios da Transamazônica e do Nordeste Paraense, além de localidades produtoras de Rondônia. O trabalho de campo foi utilizado para validar as informações obtidas por satélite e aumentar a precisão dos dados georreferenciados.
Área de cacau no Pará cresce 33,26% em dois anos
O Pará alcançou 116.436 hectares cultivados com cacau em 2024, distribuídos por 61 municípios. Em 2022, a área identificada era de 87.309 hectares.
Em dois anos, o cultivo cresceu 33,26%, com acréscimo líquido de 29.128 hectares. A expansão, entretanto, ocorreu de maneira desigual entre os diferentes modelos de produção.
Do total incorporado entre 2022 e 2024, aproximadamente 18.350 hectares, ou 63%, correspondem a cultivos a pleno sol. Outros 10.777 hectares, equivalentes a 37%, foram implantados em Sistemas Agroflorestais, nos quais o cacau é consorciado com espécies florestais e frutíferas.
Segundo Venturieri, os dois modelos contribuem para movimentar a economia rural, mas o avanço mais acelerado das plantações a pleno sol sinaliza uma resposta dos produtores aos estímulos econômicos de curto prazo.
O pesquisador defende o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos sistemas agroflorestais, capazes de proporcionar maior diversificação produtiva e ampliar os serviços ecossistêmicos.
Agricultura familiar domina produção paraense de cacau
A cacauicultura do Pará possui forte presença da agricultura familiar. O levantamento identificou 31.843 áreas produtivas, das quais 84,65% possuem até cinco hectares. Cerca de 74,55% estão inseridas em propriedades rurais com até 50 hectares.
Medicilândia lidera a área cultivada no estado, com 35.203 hectares, seguida por Uruará, com 17.024 hectares; Brasil Novo, com 10.162 hectares; Altamira, com 7.301 hectares; e Tomé-Açu, com 6.981 hectares.
Os quatro primeiros municípios estão localizados no eixo da Transamazônica e no oeste paraense. Tomé-Açu, no nordeste do estado, destaca-se nacionalmente como referência na produção por meio de Sistemas Agroflorestais.
Rondônia tem 62% do cacau cultivado em sistemas agroflorestais
O primeiro mapeamento territorial completo da cacauicultura de Rondônia identificou 5.340 hectares plantados em 51 municípios. Diferentemente do avanço recente observado no Pará, o estado apresenta predominância dos Sistemas Agroflorestais.
Dos 5.339,83 hectares de cacau localizados em áreas antropizadas, cerca de 3.310 hectares, ou 62%, estão inseridos em SAFs. Os cultivos a pleno sol ocupam 2.029 hectares, correspondentes a 38% do total.
A produção rondoniense também está pulverizada em pequenas parcelas. O levantamento identificou 38.108 áreas, sendo 75% delas com extensão de até cinco hectares, demonstrando a relevância da agricultura familiar na estrutura produtiva estadual.
Jaru lidera a área plantada em Rondônia, com 832,13 hectares. Na sequência aparecem Porto Velho, com 352,87 hectares; Theobroma, com 305,43 hectares; Ouro Preto do Oeste, com 297,41 hectares; e Mirante da Serra, com 260,28 hectares.
Esses municípios integram o grupo de 11 localidades responsáveis por 62,6% da área estadual destinada ao cacau.
Expansão do cacau favorece restauração produtiva
O cruzamento das bases de monitoramento ambiental mostrou que 96% das áreas com cacau no Pará e 98% das áreas em Rondônia estão localizadas em territórios desflorestados antes de 2020.
A análise identificou que 3,9% do cacau cultivado em áreas antropizadas no Pará e 2% em Rondônia foram implantados em locais desmatados depois de 2021. Os dados permitem que produtores e exportadores aprimorem a gestão de riscos e comprovem a procedência socioambiental da produção.
O trabalho também localizou 11.444 hectares de cacau sob cobertura de florestas nativas no Pará e outros 148,78 hectares em Rondônia. Nessas áreas, a vegetação é aproveitada como sombreamento natural para o cacaueiro.
De acordo com Venturieri, os resultados demonstram que o avanço da cultura pode representar uma alternativa concreta para reabilitar terras modificadas, fortalecer a renda rural e evitar a abertura de novas áreas.

Rastreabilidade prepara cacau amazônico para exigências da União Europeia
O mapeamento também contribui para a adaptação da cadeia produtiva ao Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). A norma estabelece restrições à entrada de commodities provenientes de áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
Como o cacau está entre os produtos abrangidos pela legislação, dados georreferenciados são fundamentais para demonstrar a origem das amêndoas e comprovar a regularidade ambiental das propriedades.
O estudo funciona, portanto, como uma ferramenta de rastreabilidade para atender às exigências da legislação brasileira e dos mercados internacionais. A disponibilidade dessas informações pode fortalecer a competitividade do cacau amazônico e reduzir riscos comerciais para produtores, cooperativas, indústrias e exportadores.
Sustentabilidade deve orientar crescimento da cacauicultura
Para os pesquisadores, o principal desafio não é apenas aumentar a área plantada, mas garantir que o crescimento ocorra com planejamento territorial, sustentabilidade, produtividade e acesso aos mercados mais exigentes.
Segundo Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, conhecer a direção da expansão, os sistemas utilizados e as condições produtivas permite antecipar gargalos, orientar políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica às regiões mais necessitadas.
A expectativa é que o mapeamento ajude a estruturar uma cadeia capaz de combinar maior produtividade, conservação ambiental e geração de oportunidades para as famílias produtoras.
Relatório reúne Embrapa, Uepa e Museu Goeldi
O trabalho recebeu o título “Mapeamento das áreas da cacauicultura nos estados do Pará e Rondônia: implicações para o desenvolvimento territorial”.
O relatório foi elaborado por Adriano Venturieri, Moisés Cordeiro Mourão de Oliveira Júnior, Sandra Maria Neiva Sampaio e Antônio José de Amorim Menezes, da Embrapa Amazônia Oriental; Rodrigo Rafael Souza de Souza, da Universidade do Estado do Pará (Uepa); e Marcelo Cordeiro Thales, do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Os resultados oferecem uma base técnica inédita para acompanhar a evolução da produção, fortalecer a rastreabilidade e orientar políticas de desenvolvimento sustentável para a cacauicultura na Amazônia.
Fonte: Portal do Agronegócio
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