Brasil abre processo para avaliar resposta ao tarifaço dos EUA; US$ 6,6 bilhões em exportações são afetados
Governo aciona Lei da Reciprocidade Econômica, mas ainda não decidiu aplicar tarifas contra produtos norte-americanos; consultas diplomáticas também serão abertas
Publicado em: 14/08/2026 às 11:05hs
O governo federal iniciou nesta quinta-feira (13) o processo formal para avaliar uma possível resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A análise será conduzida com base na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao Brasil adotar contramedidas comerciais diante de ações unilaterais que prejudiquem a competitividade do país.
A abertura do processo, no entanto, não significa que o governo tenha decidido aplicar imediatamente tarifas de retaliação contra produtos norte-americanos. Nesta etapa, o objetivo é analisar os impactos das medidas adotadas pelos Estados Unidos e avaliar quais instrumentos previstos na legislação brasileira poderiam ser utilizados.
Segundo o governo federal, aproximadamente US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras para os Estados Unidos estão sendo afetados pelas novas tarifas.
Governo inicia análise de possível retaliação
O processo foi aberto depois que a Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) encaminhou o pedido aos integrantes do Comitê-Executivo de Gestão.
Paralelamente, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) deverá notificar formalmente o governo norte-americano e solicitar a abertura de consultas diplomáticas.
A estratégia brasileira busca, inicialmente, reduzir ou eliminar os impactos das tarifas por meio do diálogo e da negociação. Caso as tratativas não produzam resultados, o governo poderá avaliar a adoção das medidas previstas na Lei da Reciprocidade Econômica.
A legislação estabelece critérios para que o Brasil suspenda concessões comerciais quando políticas ou práticas unilaterais de outro país provocarem prejuízos à economia brasileira.
Lei da Reciprocidade permite medidas comerciais
A Lei nº 15.122, aprovada em 2025, foi criada justamente para estabelecer mecanismos de resposta a medidas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros.
Entre as possibilidades previstas estão:
- aplicação de tributos ou taxas;
- retirada de benefícios ou reduções tarifárias;
- restrições à entrada de determinados bens ou serviços;
- suspensão de concessões comerciais.
A legislação determina que as eventuais contramedidas sejam, sempre que possível, proporcionais ao prejuízo econômico provocado pelo país que adotou as medidas restritivas.
Por isso, a decisão brasileira dependerá de uma análise dos efeitos concretos das tarifas norte-americanas sobre as exportações e sobre a economia nacional.
Tarifaço dos EUA atinge produtos brasileiros
A nova escalada comercial entre Brasil e Estados Unidos começou após o governo de Donald Trump determinar a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros.
A medida foi anunciada após aproximadamente um ano de análise conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).
Entre os segmentos atingidos estão ferro e aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos, máquinas agrícolas e equipamentos elétricos, além de outros produtos manufaturados.
Posteriormente, uma tarifa adicional de 12,5% foi aplicada sobre determinados produtos brasileiros. Entre as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos está a alegação de que o Brasil não adotaria mecanismos considerados suficientes para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Com a entrada em vigor das novas tarifas, o impacto estimado alcança cerca de US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Brasil também recorre à OMC
Além da possibilidade de utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica, o Brasil já levou a disputa para o âmbito multilateral.
O governo brasileiro solicitou consultas no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), argumentando que as tarifas norte-americanas seriam incompatíveis com as regras internacionais de comércio.
Os Estados Unidos aceitaram participar das consultas no âmbito da organização.
A estratégia demonstra que Brasília pretende utilizar simultaneamente negociação diplomática, mecanismos multilaterais e instrumentos previstos na legislação brasileira para tentar reduzir os prejuízos provocados pelas tarifas.
Relação comercial entre Brasil e EUA entra no centro da disputa
Ao defender sua posição, o governo brasileiro também destaca que a relação comercial entre os dois países não apresenta déficit para os Estados Unidos.
Segundo os dados apresentados pelo governo, os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil, ou seja, vendem mais produtos ao mercado brasileiro do que compram de empresas brasileiras.
O argumento é utilizado para contestar a justificativa de medidas comerciais que possam reduzir o acesso de produtos brasileiros ao mercado norte-americano.
Agronegócio brasileiro pode sentir efeitos das tarifas
A disputa comercial também preocupa setores do agronegócio brasileiro, especialmente aqueles com participação relevante no mercado norte-americano.
Produtos como açúcar e etanol aparecem entre os segmentos afetados pelas medidas, enquanto os impactos indiretos podem alcançar cadeias industriais, fornecedores, logística e formação de preços.
Para exportadores brasileiros, a elevação das tarifas aumenta o custo de entrada dos produtos nos Estados Unidos e pode reduzir a competitividade diante de fornecedores de outros países.
O cenário também amplia a necessidade de diversificação de mercados e fortalecimento das relações comerciais com outros destinos, especialmente para setores mais expostos ao mercado norte-americano.
Próximos passos
O governo brasileiro deverá agora aprofundar a avaliação dos impactos econômicos das tarifas e conduzir as consultas diplomáticas com Washington.
A eventual aplicação de contramedidas dependerá dos resultados desse processo e das conclusões sobre os prejuízos provocados pelas medidas norte-americanas.
Por enquanto, portanto, não há decisão de retaliação imediata. O Brasil abriu o caminho legal para uma possível resposta, mas mantém a negociação diplomática como uma das principais alternativas para tentar conter os efeitos do tarifaço.
Fonte: Portal do Agronegócio
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