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Análise de Mercado

Biocombustíveis, exportações e tecnologia devem impulsionar novo ciclo de expansão do agronegócio brasileiro

Estudo projeta forte crescimento das áreas de soja, milho e algodão até 2036, avanço do biodiesel e do etanol e maior concorrência de máquinas agrícolas chinesas e indianas no Brasil


Publicado em: 08/09/2026 às 11:55hs

Biocombustíveis, exportações e tecnologia devem impulsionar novo ciclo de expansão do agronegócio brasileiro

O agronegócio brasileiro pode entrar em um novo ciclo de crescimento na próxima década, sustentado pela expansão dos biocombustíveis, pelo aumento das exportações, pela abertura de novos mercados para produtos de baixo carbono e pela incorporação de tecnologias às máquinas agrícolas.

A perspectiva foi apresentada pela Cogo Inteligência em Agronegócio no 18º Simpósio SAE Brasil de Máquinas Agrícolas. O estudo aponta que soja, milho, cana-de-açúcar e algodão continuarão no centro da expansão agropecuária, mas passarão a responder a uma demanda mais diversificada, que vai além da produção de alimentos.

Biodiesel, etanol de milho, combustível sustentável de aviação, biocombustível marítimo, biometano, bioeletricidade e produtos da química verde tendem a ganhar relevância nas decisões de investimento do setor.

Ao mesmo tempo, a entrada de fabricantes asiáticos deve elevar a concorrência no mercado brasileiro de tratores e equipamentos, especialmente em segmentos voltados à agricultura familiar e às pequenas e médias propriedades.

China ainda lidera compras, mas estratégia de autossuficiência exige atenção

A China respondeu por 34% das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, mantendo-se como o principal mercado para os produtos nacionais. Na sequência aparecem União Europeia, com 15%, Estados Unidos, com 7%, Oriente Médio, com 6%, e África, com 5%.

Embora o Brasil exporte produtos agropecuários para aproximadamente 200 países, a elevada participação chinesa reforça a necessidade de acompanhar as mudanças econômicas, demográficas e alimentares do país asiático.

A segurança alimentar passou a ocupar uma posição estratégica nos planos de desenvolvimento da China. O país combina metas governamentais, crédito direcionado, subsídios, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, adequações regulatórias e formação de polos industriais para reduzir sua dependência externa.

Entre as prioridades chinesas estão a autossuficiência proteica, o avanço da biologia sintética, a biofabricação e o desenvolvimento de fontes alternativas de proteína.

Apesar desse esforço, a China ainda enfrenta dificuldades para diminuir as importações de soja e milho. O crescimento da produção de carnes e da demanda por ração mantém o país dependente do mercado internacional.

Importações chinesas de soja devem crescer em ritmo mais moderado

As compras chinesas de soja registraram forte expansão entre 2000 e 2016, com crescimento médio anual de 16,1%. A partir de 2017, porém, o ritmo desacelerou diante do envelhecimento da população, da queda da natalidade e do avanço mais moderado do consumo de carnes.

Pelas projeções apresentadas, as importações chinesas podem passar de aproximadamente 115 milhões de toneladas em 2026 para 136 milhões de toneladas em 2035. No período entre 2028 e 2035, o crescimento médio anual estimado é de 2,4%.

A dinâmica demográfica aparece como uma variável importante para a demanda de longo prazo. O levantamento destaca que a China registrou taxa de fecundidade próxima de um filho por mulher em 2025, abaixo do nível de reposição populacional de 2,1.

Foram contabilizados cerca de 7,9 milhões de nascimentos no ano, o menor número desde 1939, enquanto a população diminuiu pelo quarto ano consecutivo. Até 2035, a quantidade de chineses com mais de 60 anos pode chegar a 420 milhões.

Esse cenário não representa o fim da demanda chinesa por produtos agrícolas, mas indica que o crescimento tende a ser menos acelerado. Para o Brasil, o desafio será ampliar a presença em outros destinos sem perder competitividade no mercado asiático.

Área de soja pode alcançar 57,4 milhões de hectares em 2036

O biodiesel deverá se consolidar como um dos principais motores da expansão da soja brasileira. Em 2026, o óleo de soja representou 85% das matérias-primas utilizadas na produção nacional do biocombustível.

A capacidade instalada das usinas brasileiras é estimada em 16,1 bilhões de litros. Com a elevação gradual da mistura obrigatória e a previsão de adoção do B25 até 2035, a produção de biodiesel pode chegar a 10,8 bilhões de litros.

O aumento da demanda pelo óleo exigirá maior processamento doméstico da oleaginosa. Segundo o estudo, o esmagamento de soja destinado ao atendimento do mercado de biodiesel poderá alcançar 94,5 milhões de toneladas em 2035. O processamento também resultaria na produção de aproximadamente 75,6 milhões de toneladas de farelo.

No cenário-base elaborado pela Cogo Inteligência em Agronegócio, a área brasileira de soja poderá passar de 48,6 milhões de hectares em 2026 para 57,4 milhões em 2036.

A projeção representa uma expansão acumulada de 18,1%, equivalente à incorporação de 8,8 milhões de hectares em dez anos. O avanço médio seria de aproximadamente 880 mil hectares por ano.

Com ganhos anuais de produtividade estimados em 0,9%, a produção brasileira poderia alcançar 232 milhões de toneladas em 2036. As exportações chegariam a 148 milhões de toneladas.

Em um cenário de maior crescimento das importações chinesas, a área de soja poderia atingir 58,8 milhões de hectares, com expansão total de 10,2 milhões de hectares sobre a base de 2026.

Etanol deve acelerar expansão do milho de segunda safra

O etanol de milho aparece como outro vetor decisivo para o agronegócio na próxima década. O Brasil já reúne 58 usinas ligadas ao segmento, sendo 32 em operação e 26 autorizadas, em construção ou associadas a novos projetos.

Os empreendimentos estão concentrados principalmente em Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, mas novos projetos avançam em outros estados, como Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Alagoas.

A expansão fortalece o consumo interno do cereal e reduz a dependência do mercado externo, principalmente em regiões distantes dos portos. Além do combustível, as unidades produzem coprodutos como óleo e grãos secos de destilaria, conhecidos como DDG, destinados principalmente à alimentação animal.

A oferta brasileira de DDG pode passar de 11,1 milhões de toneladas em 2025/2026 para 21,8 milhões de toneladas em 2034/2035.

Entre 2020 e 2026, o retorno médio sobre o custo do milho nas operações brasileiras de etanol foi estimado em 72%, ante 44,5% nos Estados Unidos. A margem bruta média sobre a receita atingiu 40,7% no Brasil e 30,1% no mercado norte-americano.

Essa vantagem está relacionada ao aproveitamento dos coprodutos e ao modelo produtivo do Centro-Oeste, no qual o milho utilizado na usina geralmente integra uma área agrícola já ocupada pela soja na primeira safra.

Milho safrinha pode ocupar quase 30 milhões de hectares

A área brasileira de milho de segunda safra poderá saltar de 17,8 milhões de hectares em 2026 para 29,9 milhões em 2036, conforme o cenário apresentado.

O aumento projetado é de 68,4%, com incorporação de 12,1 milhões de hectares em uma década. Isso representa uma expansão média próxima de 1,2 milhão de hectares por ano.

A produção da safrinha poderá atingir 211,6 milhões de toneladas em 2036, enquanto as exportações brasileiras são projetadas em 77,8 milhões de toneladas.

O cálculo considera crescimento anual de 1,5% na produtividade, apoiado por mecanização, genética e melhorias no manejo. Também incorpora expansão média de 3,5% ao ano no consumo interno, incluindo a demanda das usinas de etanol.

A participação do Brasil no comércio mundial de milho poderá avançar de 22% em 2026 para 25% em 2036.

Cana-de-açúcar ganha espaço como plataforma de energia renovável

O futuro da cadeia sucroenergética deverá ir além da produção tradicional de açúcar e etanol. A cana-de-açúcar tende a se transformar em uma plataforma bioindustrial capaz de fornecer diferentes fontes de energia, combustíveis e matérias-primas renováveis.

Entre os produtos com potencial de crescimento estão etanol de primeira e segunda geração, açúcar, bioeletricidade, biometano, combustível sustentável de aviação, bioquímicos e créditos de descarbonização.

Essa diversificação pode ampliar as receitas das usinas, facilitar o acesso a financiamentos verdes e reduzir a exposição às oscilações dos mercados tradicionais de açúcar e combustíveis automotivos.

O Brasil conta com capacidade instalada para produzir 61,2 bilhões de litros de etanol. Além da demanda interna, a indústria poderá encontrar oportunidades nos mercados global de aviação e transporte marítimo.

Eletrificação muda mercado, mas não elimina espaço dos biocombustíveis

O avanço dos veículos elétricos deverá pressionar gradualmente o consumo de etanol hidratado nos grandes centros urbanos, especialmente depois de 2030. Entretanto, a eletrificação não deve substituir os biocombustíveis em todos os segmentos.

Veículos leves, ônibus urbanos, motocicletas e operações de entrega apresentam maior potencial de eletrificação. Já a aviação, o transporte marítimo, os caminhões pesados e a indústria química continuam demandando soluções energéticas de alta densidade e baixa emissão de carbono.

No cenário apresentado, o risco para o etanol permanece baixo até 2030, sustentado pela frota flex, pela mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina e pela política do RenovaBio.

Entre 2030 e 2035, a pressão dos veículos elétricos deve aumentar, mas poderá ser parcialmente compensada pelo crescimento do combustível sustentável de aviação. A partir de 2035, usinas pouco diversificadas tendem a enfrentar maior pressão sobre as margens.

A estratégia de longo prazo passa pela transformação das unidades sucroenergéticas em biorrefinarias integradas, capazes de direcionar a biomassa para diferentes mercados.

SAF e transporte marítimo abrem novas oportunidades

O combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF, representa atualmente menos de 1% do combustível utilizado pela aviação mundial. Entretanto, a demanda global poderá avançar de aproximadamente 2,4 bilhões de litros em 2025 para um intervalo entre 449 bilhões e 500 bilhões de litros em 2050.

A rota que utiliza etanol para produzir SAF poderá responder por uma demanda entre 90 bilhões e 125 bilhões de litros em meados do século.

No transporte marítimo, o consumo global de biocombustíveis pode passar de aproximadamente 1 bilhão de litros em 2025 para um intervalo entre 130 bilhões e 180 bilhões de litros em 2050. A participação potencial do etanol nesse mercado é estimada entre 20 bilhões e 45 bilhões de litros.

Somados, SAF e transporte marítimo podem gerar uma demanda global entre 110 bilhões e 170 bilhões de litros de etanol em 2050.

O estudo ressalta que esse avanço dependerá da consolidação de mandatos internacionais, da certificação ambiental dos combustíveis e da competitividade das rotas tecnológicas.

Exportações devem sustentar crescimento do algodão brasileiro

No algodão, as exportações continuarão como principal motor de expansão. A área cultivada pode avançar de 2 milhões de hectares em 2026 para 2,55 milhões em 2036.

O crescimento acumulado projetado é de 27,6%, com acréscimo médio de aproximadamente 55 mil hectares por ano.

Com ganhos de produtividade estimados em 1,5% ao ano, a produção brasileira de algodão em pluma poderá alcançar 5,92 milhões de toneladas em 2036. A produtividade média subiria para 2.321 quilos por hectare.

As exportações poderão chegar a 5,1 milhões de toneladas, enquanto a participação brasileira no comércio mundial avançaria de 35% para 45%. O movimento seria favorecido pela redução da área plantada nos Estados Unidos, principal concorrente do Brasil no mercado internacional.

Importação de tratores pode atingir recorde em 2026

Além das mudanças na produção agrícola, o mercado de máquinas também passa por uma transformação estrutural. Índia e China dominaram as importações brasileiras de tratores entre janeiro e julho de 2026.

No período, o Brasil importou 10.747 tratores, com valor total de US$ 240,3 milhões. A Índia respondeu por 5.184 unidades, equivalentes a 48,24% do volume, enquanto a China forneceu 4.968 máquinas, participação de 46,23%.

Juntos, os dois países representaram 94,47% dos tratores importados em quantidade. As projeções indicam que as compras externas podem alcançar o recorde de 18,4 mil unidades em 2026.

O preço médio FOB dos tratores indianos foi de US$ 11.665 por unidade, enquanto o dos equipamentos chineses ficou em US$ 10.859. A média geral das importações alcançou US$ 22.360 por máquina, influenciada por equipamentos de maior valor provenientes de países como Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Finlândia e Canadá.

Fabricantes asiáticos avançam com preços até 40% menores

A entrada de novas marcas no Brasil tende a ocorrer em etapas. O processo começa com importações realizadas por distribuidores, avança para participação em licitações e formação de redes comerciais e, posteriormente, pode resultar em montagem local, nacionalização de componentes e acesso às linhas públicas de financiamento.

Segundo o levantamento, fabricantes chineses e indianos podem apresentar custos de produção até 27% inferiores aos das empresas instaladas no Brasil. Alguns tratores importados chegam ao mercado nacional com preços entre 30% e 40% menores do que modelos equivalentes fabricados no País.

A vantagem está associada à escala industrial, ao menor custo do aço e à estrutura de mão de obra. Entretanto, o preço não será suficiente para garantir espaço no mercado brasileiro.

Assistência técnica será decisiva para novas marcas

A capacidade de estruturar redes de concessionárias, assistência técnica, estoque de peças e atendimento rápido será o principal teste para os fabricantes estrangeiros.

No agronegócio, uma máquina parada durante o plantio ou a colheita pode comprometer a produtividade, elevar custos, atrasar a implantação da segunda safra e aumentar a exposição das lavouras à seca ou ao excesso de chuva.

Por isso, marcas com preços competitivos, mas sem uma estrutura de pós-venda consolidada, podem encontrar dificuldades para ampliar sua participação.

Agricultura familiar deve ser porta de entrada para tratores asiáticos

Os tratores de menor potência aparecem como uma oportunidade estratégica para as fabricantes chinesas. Algumas empresas oferecem modelos a partir de 25 cavalos, voltados a pequenas propriedades, horticultura, fruticultura, pecuária leiteira e operações agrícolas especializadas.

Esse segmento é considerado menos atendido pelas marcas tradicionais, que concentram grande parte do portfólio em máquinas de maior potência.

A experiência das fabricantes asiáticas no atendimento a pequenos produtores em seus mercados de origem pode acelerar sua entrada no Brasil, especialmente se houver acesso a linhas de crédito rural.

Disputa por mercado também envolverá tecnologia

A concorrência no setor de máquinas agrícolas não ficará restrita ao preço. Eletrificação, motorização híbrida, plataformas digitais, robótica, drones e autonomia devem ganhar importância na decisão de compra.

Entre os exemplos apresentados está o trator híbrido Zoomlion DX7004, com potência nominal de 700 cavalos, pico de 1.200 cavalos e torque máximo de 4.500 Nm. A fabricante também planeja lançar colheitadeiras de duplo rotor e colhedoras de cana eletrificadas.

A empresa declarou como meta conquistar 10% do mercado brasileiro até 2030, indicando que a expansão das marcas asiáticas pode ocorrer tanto nos equipamentos de entrada quanto nas máquinas de alta potência.

Brasil tem área e tecnologia para liderar novo ciclo

O Brasil possui 851,6 milhões de hectares de extensão territorial, dos quais 564,6 milhões de hectares, ou 66,3%, permanecem cobertos por vegetação nativa, segundo os dados reunidos no estudo.

A área classificada como agricultável soma 256,7 milhões de hectares. Atualmente, aproximadamente 96,3 milhões de hectares são utilizados pela agricultura, equivalentes a 11,3% do território nacional.

As pastagens ocupam 160,4 milhões de hectares, abrindo espaço para a expansão agrícola por meio da recuperação e conversão de áreas degradadas, sem a necessidade de avançar sobre a vegetação nativa.

O novo ciclo, contudo, exigirá investimentos em infraestrutura, armazenagem, logística, crédito, pesquisa, conectividade e qualificação profissional. A competitividade também dependerá da capacidade brasileira de ampliar a produção com ganhos de produtividade, rastreabilidade e redução das emissões.

As projeções mostram que o crescimento do agronegócio na próxima década será impulsionado por uma combinação de alimentos, energia renovável, exportações e tecnologia. Nesse cenário, o Brasil reúne condições para ampliar sua liderança, mas precisará transformar seu potencial produtivo em uma estratégia de longo prazo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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