Ambev e JBS no 2º trimestre de 2026: receitas avançam, mas margens e custos desafiam setor de alimentos e bebidas
Resultados do 2T26 mostram crescimento de receita nas duas gigantes, enquanto Ambev aposta em premiumização e canais digitais e JBS enfrenta pressão do ciclo pecuário nos Estados Unidos e acelera reorganização global
Publicado em: 18/08/2026 às 10:10hs
Os resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26) das principais companhias brasileiras de alimentos e bebidas revelam um setor com crescimento de receita, mas submetido a diferentes pressões sobre margens, custos e rentabilidade. Ambev e JBS avançaram em faturamento e mantiveram investimentos estratégicos, porém apresentaram desempenhos distintos na geração de resultados.
Na Ambev, o mercado brasileiro de cervejas, a premiumização do portfólio e as ativações relacionadas à Copa do Mundo sustentaram o desempenho operacional. A companhia também ampliou a relevância de plataformas digitais como BEES e Zé Delivery.
Na JBS, a receita trimestral alcançou nível recorde, impulsionada principalmente pelas operações da Austrália, Brasil e Seara. A rentabilidade, entretanto, foi afetada pelo ciclo pecuário desfavorável nos Estados Unidos, onde a menor disponibilidade de gado continua pressionando o negócio de carne bovina.
Os balanços reforçam ainda algumas das principais tendências para o setor de alimentos e bebidas em 2026: digitalização, produtos de maior valor agregado, internacionalização, eficiência operacional e busca por novos mercados consumidores.
Ambev registra receita de R$ 20,1 bilhões no segundo trimestre
A Ambev encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita líquida de R$ 20,15 bilhões, crescimento reportado de 0,3% na comparação anual. Em termos orgânicos, a expansão alcançou 6,1%.
O principal destaque foi novamente o mercado brasileiro de cervejas. O volume de Cerveja Brasil cresceu 5%, enquanto a receita da operação avançou 8,9%.
Parte importante desse desempenho esteve relacionada às estratégias comerciais desenvolvidas em torno da Copa do Mundo, que contribuíram para estimular o consumo mesmo diante de condições climáticas menos favoráveis do que inicialmente projetado.
O cenário internacional foi mais heterogêneo. As operações de bebidas não alcoólicas no Brasil, América Latina Sul e Canadá registraram retração nos volumes, enquanto a região da América Central e Caribe apresentou crescimento de 5,4%.
Margem da Ambev melhora e EBITDA supera R$ 6,3 bilhões
A rentabilidade apresentou evolução no trimestre.
A margem bruta da Ambev avançou 1,9 ponto percentual, para 51,9%, enquanto o EBITDA ajustado cresceu 3,6% na comparação anual, alcançando R$ 6,38 bilhões.
A margem EBITDA ficou em 31,6%, expansão de um ponto percentual sobre o mesmo período do ano anterior.
O resultado mostra que a disciplina de custos ajudou a compensar o aumento dos investimentos comerciais e de marketing realizados durante o período.
Já o lucro líquido ajustado chegou a R$ 3,49 bilhões, crescimento de 23,3% em relação ao segundo trimestre de 2025.
Apesar do avanço, parte da melhora foi influenciada por componentes financeiros e tributários não recorrentes. Esse fator, combinado com receita e EBITDA abaixo de algumas projeções do mercado, contribuiu para uma reação negativa dos investidores após a divulgação do balanço.
Premiumização ganha importância na estratégia da Ambev
Um dos movimentos mais relevantes apresentados pela companhia é a continuidade da premiumização do mercado brasileiro de cervejas.
Enquanto a concorrência permanece elevada nas categorias tradicionais, as marcas premium registraram crescimento de volume em dois dígitos altos.
A Michelob Ultra ganhou destaque nesse processo, com vendas superiores a três vezes os níveis anteriores nos mercados brasileiro e argentino.
A estratégia permite à companhia buscar crescimento não apenas por meio do volume, mas também pelo aumento do valor médio do portfólio comercializado.
No segmento de bebidas não alcoólicas, a Ambev também vem realizando ajustes no mix de distribuição, incluindo a saída seletiva de canais considerados menos rentáveis.
A decisão reforça uma mudança de foco: crescer com rentabilidade passa a ser mais importante do que simplesmente ampliar volumes vendidos.
BEES e Zé Delivery ampliam peso na estratégia digital
Outro pilar importante do balanço da Ambev foi a expansão do ecossistema digital.
A plataforma BEES registrou crescimento de 58% no GMV, indicador que mede o valor bruto das mercadorias transacionadas. O avanço supera significativamente a evolução do volume físico comercializado.
O movimento indica que a plataforma está deixando de funcionar exclusivamente como canal de vendas e distribuição para assumir papel cada vez mais relevante na monetização do relacionamento com clientes.
O Zé Delivery segue trajetória semelhante. O GMV aumentou 16%, enquanto o número de usuários ativos mensais avançou 6% nos dias de jogos.
Além do crescimento digital, essas plataformas apresentam participação maior de produtos premium, favorecendo a estratégia de aumento do valor médio das vendas.
JBS alcança receita recorde de US$ 23,9 bilhões
A JBS também apresentou forte expansão do faturamento no segundo trimestre.
A receita líquida consolidada atingiu US$ 23,9 bilhões, equivalente a aproximadamente R$ 120,7 bilhões considerando câmbio médio próximo de R$ 5,05 por dólar.
O crescimento foi de 13,8% sobre o segundo trimestre de 2025, estabelecendo recorde para o período.
Entre as operações que mais contribuíram para o desempenho estão a JBS Austrália, com crescimento de 30%, a JBS Brasil, com avanço de 28%, e a Seara, cuja receita aumentou 18,2%.
Apesar do crescimento expressivo do faturamento, a companhia enfrentou maior pressão sobre sua rentabilidade.
Ciclo pecuário dos Estados Unidos pressiona margens da JBS
A margem bruta consolidada da JBS recuou 2,7 pontos percentuais, ficando em 10,8%.
O EBITDA ajustado, considerando o padrão IFRS, caiu 18,5% na comparação anual e alcançou US$ 1,43 bilhão, com margem de 6%.
O principal ponto de pressão continua sendo a operação de carne bovina na América do Norte.
A Beef North America registrou EBITDA negativo de US$ 78 milhões, reflexo principalmente da menor disponibilidade de animais para abate nos Estados Unidos.
Embora o desempenho continue negativo, houve melhora na comparação com o primeiro trimestre de 2026, sinalizando uma possível estabilização gradual das condições operacionais.
O ciclo pecuário norte-americano deverá permanecer como uma das variáveis mais importantes para os resultados da companhia nos próximos trimestres.
JBS registra prejuízo líquido no trimestre
No resultado final, a JBS apresentou prejuízo líquido de US$ 102 milhões, revertendo o lucro de US$ 528 milhões registrado no segundo trimestre de 2025.
O desempenho foi impactado por efeitos extraordinários, incluindo despesas relacionadas a operações de dívida e acordos antitruste.
Desconsiderando esses componentes, o lucro líquido ajustado alcançou US$ 218 milhões, ainda assim 62,3% inferior ao registrado um ano antes.
A combinação entre queda das margens, prejuízo contábil e maior alavancagem aumenta a importância da geração de caixa e da recuperação das operações norte-americanas para os próximos resultados.
JBS reorganiza operação de carne bovina nos Estados Unidos
Para enfrentar um ambiente mais desafiador, a JBS está promovendo uma reorganização de suas atividades norte-americanas.
A companhia decidiu consolidar as operações Fed Beef, Regional Beef e Case Ready em uma única estrutura, denominada Beef USA.
O movimento inclui o fechamento de duas unidades e busca simplificar a estrutura operacional, aumentar eficiência e reduzir custos.
A estratégia assume importância adicional diante do atual ciclo pecuário dos Estados Unidos, marcado por oferta restrita de animais e custos elevados para os frigoríficos.
Uma eventual recuperação do rebanho norte-americano poderá representar importante vetor de melhora das margens da companhia nos próximos anos.
JBS mira Sudeste Asiático com parceria na Indonésia
A expansão internacional também continua entre as prioridades estratégicas.
A JBS anunciou uma parceria com a Danantara Indonesia, fundo soberano do país, envolvendo as operações da Austrália e da Nova Zelândia.
Pelo acordo, esses ativos serão reunidos em uma holding sediada na Holanda, enquanto a parceira indonésia ficará com participação de 25% mediante aporte de aproximadamente US$ 2,5 bilhões.
A operação combina entrada de capital com maior acesso ao mercado do Sudeste Asiático, região considerada estratégica diante do crescimento populacional, urbanização e expansão do consumo de proteínas animais.
Para a JBS, a iniciativa pode fortalecer sua presença em mercados asiáticos sem exigir que todo o investimento seja realizado diretamente pela companhia.
Mudança no comando global da JBS chama atenção do mercado
Outra mudança relevante envolve a liderança da companhia.
Wesley Batista Filho deverá assumir o comando global da JBS em janeiro de 2027, substituindo Gilberto Tomazoni.
A transição representa o retorno de um integrante da família controladora à principal posição executiva da companhia e será acompanhada de perto pelo mercado, especialmente diante do processo de internacionalização dos negócios e da estrutura societária global do grupo.
A companhia também manteve a distribuição de aproximadamente US$ 1 bilhão em dividendos, mesmo com a alavancagem ao redor de 3,1 vezes, acima da faixa de aproximadamente 2 a 2,5 vezes considerada como referência.
A decisão sinaliza confiança na capacidade de geração de caixa, mas aumenta a atenção dos investidores sobre o ritmo de desalavancagem.
Ambev e JBS mostram estratégias diferentes para ampliar rentabilidade
Apesar de atuarem em segmentos distintos, os resultados das duas empresas revelam tendências comuns ao setor de alimentos e bebidas.
A Ambev concentra esforços em premiumização, digitalização, eficiência comercial e aumento da rentabilidade por cliente.
Já a JBS aposta em escala global, diversificação geográfica, reorganização operacional e expansão para mercados consumidores asiáticos.
As duas estratégias têm um objetivo semelhante: reduzir a dependência do simples crescimento de volume e aumentar a geração de valor em um ambiente internacional marcado por custos elevados, competição intensa e maior volatilidade econômica.
Copa do Mundo impulsiona consumo e abre oportunidades
A Copa do Mundo de 2026 aparece como importante vetor comercial, especialmente para o segmento de bebidas.
A competição realizada na América do Norte amplia oportunidades para consumo de cerveja e outras bebidas, além de permitir campanhas promocionais globais e estratégias de fortalecimento de marcas.
Para a Ambev, os efeitos comerciais ligados ao torneio já contribuíram para o crescimento da operação brasileira.
O desempenho durante os próximos meses, entretanto, continuará condicionado ao comportamento das temperaturas e ao ritmo do consumo das famílias.
Oferta de gado nos Estados Unidos será decisiva para a JBS
No segmento de proteínas, um dos principais fatores a serem acompanhados é a evolução do rebanho norte-americano.
A baixa disponibilidade de bovinos continua pressionando custos de aquisição e margens dos frigoríficos.
A retomada gradual das importações de animais mexicanos pode contribuir para aliviar parte dessa restrição, mas a recuperação estrutural da oferta depende da reconstrução do rebanho dos Estados Unidos, processo que tende a ocorrer de forma gradual.
Enquanto isso, a diversificação internacional da JBS funciona como importante mecanismo de proteção. Resultados mais fortes no Brasil, Austrália e outras geografias ajudam a compensar parcialmente a deterioração do negócio norte-americano.
Sustentabilidade e rastreabilidade ganham peso na indústria de alimentos
Questões ambientais também permanecem entre os principais desafios estratégicos do setor.
A decisão da JBS de recuar de seu compromisso anterior de alcançar neutralidade líquida de emissões até 2040, diante principalmente das dificuldades relacionadas às emissões indiretas da cadeia de fornecimento, aumenta a atenção sobre políticas climáticas, rastreabilidade e controle de fornecedores.
No setor de proteína bovina, o chamado Escopo 3, que reúne emissões originadas na cadeia produtiva, representa um dos principais desafios para o cumprimento de metas ambientais.
Para empresas brasileiras, especialmente aquelas expostas aos mercados europeu e norte-americano, sistemas de rastreabilidade e comprovação da origem dos animais tendem a assumir importância crescente no acesso a mercados e na estratégia comercial.
Perspectivas para alimentos e bebidas no segundo semestre de 2026
Os balanços de Ambev e JBS mostram que o setor entra no segundo semestre com oportunidades relevantes, mas também com riscos que exigem atenção.
Na indústria de bebidas, premiumização, digitalização, comportamento climático e intensidade da concorrência deverão determinar o ritmo de crescimento das margens.
No setor de proteínas animais, o foco estará principalmente na oferta de gado nos Estados Unidos, preços das matérias-primas, expansão internacional e recuperação da rentabilidade da carne bovina norte-americana.
A evolução do dólar, inflação, juros, renda das famílias e custos de commodities agrícolas também será determinante para os próximos balanços.
Mesmo com cenários operacionais distintos, Ambev e JBS reforçam uma tendência estrutural do setor brasileiro de alimentos e bebidas: crescimento de receita sozinho já não é suficiente.
A capacidade de transformar faturamento em margem, gerar caixa, ampliar eficiência e conquistar mercados de maior valor agregado deverá ser decisiva para determinar quais empresas estarão melhor posicionadas para crescer no restante de 2026 e nos próximos anos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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