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Mercado Florestal

Exportações brasileiras de madeira perdem US$ 275 milhões e setor busca novos mercados

Vendas externas dos principais produtos de madeira recuam para US$ 1,47 bilhão em 2026; tarifas, dependência dos Estados Unidos e custo Brasil pressionam a competitividade da indústria


Publicado em: 18/08/2026 às 19:20hs

Exportações brasileiras de madeira perdem US$ 275 milhões e setor busca novos mercados

As exportações brasileiras dos oito principais produtos de madeira movimentaram US$ 1,467 bilhão entre janeiro e julho de 2026, representando uma perda aproximada de US$ 275 milhões em relação ao mesmo período de 2025, quando a receita ficou próxima de US$ 1,75 bilhão.

O levantamento não considera as vendas externas de MDF, celulose e papel. Os dados foram apresentados por Marcelo Wiecheteck, responsável pela área de Desenvolvimento Estratégico da STCP, durante o episódio 29 do Podcast WoodFlow.

O desempenho negativo reforça os desafios enfrentados pela indústria brasileira diante do avanço do protecionismo internacional, da elevada dependência do mercado norte-americano e das dificuldades internas que limitam a competitividade das empresas.

Produtos de madeira apresentam desempenhos diferentes

Os números mostram que a retração não ocorreu de maneira uniforme entre os produtos analisados. Enquanto alguns segmentos conseguiram ampliar o volume embarcado, outros registraram quedas expressivas.

O serrado de pinus alcançou 1,8 milhão de metros cúbicos exportados nos primeiros sete meses de 2026, crescimento de 3% na comparação com igual intervalo do ano passado.

O compensado de pinus, por outro lado, somou quase 1,4 milhão de metros cúbicos, com redução de 17% no volume exportado e de 18% na receita. A situação foi ainda mais desfavorável para as molduras de madeira, cujas exportações recuaram mais de 50%.

Segundo Wiecheteck, a diferença entre os resultados evidencia um cenário de instabilidade, no qual cada produto é afetado de forma particular pelas condições comerciais, pelos mercados compradores e pelas disputas geopolíticas.

Protecionismo passa a integrar planejamento estratégico

As tarifas comerciais deixaram de ser vistas como medidas temporárias e passaram a representar uma variável permanente no planejamento das empresas exportadoras.

Na avaliação de João Alfredo Nyegray, professor, pesquisador e consultor nas áreas de negócios internacionais, geopolítica e estratégia global, o protecionismo faz parte de uma transformação mais ampla da economia mundial.

Grandes economias estão retomando políticas industriais, ampliando mecanismos de proteção e procurando reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. Nesse ambiente, as empresas brasileiras precisam incorporar as variáveis geopolíticas aos planos de médio e longo prazo.

A recomendação é que as indústrias avaliem não apenas tarifas de importação, mas também barreiras ambientais, exigências sanitárias, medidas antidumping, regras de origem e mudanças nas políticas industriais dos países compradores.

Dependência dos Estados Unidos amplia riscos para o setor

A elevada concentração das vendas no mercado norte-americano aumenta a vulnerabilidade da indústria brasileira de madeira às mudanças tarifárias e econômicas dos Estados Unidos.

Mesmo com as iniciativas recentes de diversificação, aproximadamente 94% das molduras de pinus exportadas pelo Brasil continuam destinadas aos compradores norte-americanos. No segmento de portas de madeira, essa participação chega a 84%.

A concentração foi construída ao longo de décadas, período em que as indústrias brasileiras adaptaram produtos, equipamentos e processos produtivos às exigências dos Estados Unidos, considerado o maior mercado consumidor para diversos itens do setor.

Agora, o desafio será reduzir essa exposição sem abandonar um destino comercial relevante. Para isso, as empresas precisarão combinar a manutenção dos clientes norte-americanos com a abertura gradual de novos mercados.

Diversificação exige investimentos e adaptação industrial

Encontrar novos compradores não é suficiente para garantir a diversificação das exportações brasileiras de madeira. Cada mercado possui exigências específicas relacionadas a dimensões, acabamento, qualidade, embalagem, certificação e rastreabilidade.

A entrada em novos destinos pode exigir mudanças nas linhas de produção, aquisição de equipamentos, adaptação das especificações técnicas e desenvolvimento de produtos de maior valor agregado.

No caso de serrados, compensados, portas e molduras, as características demandadas por compradores europeus e asiáticos podem ser diferentes das adotadas nos Estados Unidos.

Por esse motivo, a diversificação deve ser tratada como uma estratégia de longo prazo, envolvendo planejamento comercial, inteligência de mercado e investimentos industriais.

Acordo entre Mercosul e União Europeia cria oportunidades

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, aplicado provisoriamente desde 1º de maio de 2026, aparece como uma das alternativas para ampliar as exportações brasileiras de madeira.

A redução gradual das tarifas pode melhorar o acesso aos países europeus, mas não elimina as exigências ambientais, regulatórias e comerciais existentes no bloco.

Entre os principais desafios está o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR. As regras serão aplicadas aos grandes e médios operadores a partir de 30 de dezembro de 2026.

A legislação exige que as empresas comprovem que os produtos comercializados no bloco europeu não estão associados ao desmatamento ou à degradação florestal.

Rastreabilidade pode virar vantagem competitiva

Embora a EUDR aumente as obrigações documentais, especialistas avaliam que a regulamentação também pode abrir oportunidades para a indústria brasileira.

O Brasil possui ampla produção baseada em florestas plantadas, além de empresas habituadas a trabalhar com certificações, controles de origem e práticas de compliance ambiental.

O principal desafio será organizar as informações e apresentar as comprovações exigidas em cada operação de exportação. As empresas que estruturarem sistemas eficientes de rastreabilidade poderão transformar o cumprimento das regras ambientais em diferencial competitivo.

Essa capacidade será especialmente importante para conquistar clientes que valorizam critérios ambientais, sociais e de governança na seleção de fornecedores.

Tarifa antidumping limita avanço do compensado brasileiro

Apesar das oportunidades proporcionadas pelo acordo comercial, o mercado europeu também mantém instrumentos de defesa da produção local.

Em abril, a Comissão Europeia estabeleceu uma tarifa antidumping de 5,4% sobre o compensado brasileiro de coníferas, com exceção de uma empresa. A cobrança permanece válida mesmo quando a tarifa comercial regular é reduzida pelo acordo entre União Europeia e Mercosul.

O caso demonstra que a abertura comercial não representa acesso automático aos mercados. Além das tarifas convencionais, os exportadores precisam acompanhar investigações antidumping, salvaguardas e outras barreiras que podem comprometer a competitividade dos produtos brasileiros.

Singapura pode funcionar como porta de entrada para a Ásia

O acordo entre Mercosul e Singapura, em vigor para o Brasil desde 1º de agosto, também aparece como alternativa para a expansão internacional do setor madeireiro.

Embora o mercado consumidor de Singapura seja relativamente limitado, o país exerce papel estratégico no comércio asiático e pode funcionar como plataforma de distribuição para produtos de maior valor agregado.

A presença no país pode ajudar as empresas brasileiras a compreender as exigências comerciais da região, desenvolver relacionamentos e alcançar outros destinos no Sudeste Asiático.

A estratégia, contudo, exige conhecimento sobre hábitos de consumo, padrões técnicos, canais de distribuição e características específicas de cada mercado.

Custo Brasil reduz competitividade das exportações

A assinatura de acordos comerciais não resolve, isoladamente, os obstáculos enfrentados pela indústria brasileira de madeira. Problemas internos continuam limitando a capacidade das empresas de transformar, transportar e exportar produtos com maior valor agregado.

Entre os principais entraves estão os fretes internos elevados, a infraestrutura deficiente, a burocracia aduaneira, os juros altos e os custos logísticos.

O setor florestal brasileiro possui vantagens importantes dentro das propriedades, especialmente pela produtividade das florestas plantadas e pelas condições naturais favoráveis. Entretanto, parte dessa competitividade é perdida durante o transporte, a industrialização e o acesso aos portos.

Setor de madeira precisa combinar compliance e visão geopolítica

O cenário internacional indica que a recuperação das exportações brasileiras de madeira dependerá de uma estratégia mais ampla, baseada em diversificação comercial, inovação industrial, rastreabilidade e acompanhamento permanente da geopolítica.

A redução da dependência dos Estados Unidos deverá ocorrer de maneira gradual, sem desconsiderar a relevância do mercado norte-americano. Ao mesmo tempo, Europa e Ásia oferecem oportunidades, mas exigem adaptações produtivas, atendimento às regras ambientais e capacidade de enfrentar novas barreiras comerciais.

Para preservar sua participação no mercado global, a indústria brasileira precisará transformar a qualidade das florestas plantadas, as certificações e o compliance em diferenciais comerciais, enquanto busca reduzir os efeitos do custo Brasil sobre sua competitividade.

Fonte: Portal do Agronegócio

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