Uso de etanol em carros flex patina e pressiona mercado de açúcar no Brasil
Mesmo com vantagem de preço sobre a gasolina em 67% do território nacional, biocombustível abastece apenas 29% da frota flex; retomada do consumo poderia adicionar 8 bilhões de litros à demanda
Publicado em: 27/08/2026 às 19:40hs
A preferência dos motoristas brasileiros pelo etanol hidratado continua abaixo do potencial, apesar da competitividade do biocombustível diante da gasolina em grande parte do País. Segundo levantamento da Datagro, apenas 29% da frota de veículos flex tem utilizado etanol em 2026, cenário que afeta diretamente as estratégias das usinas e as perspectivas para o mercado mundial de açúcar.
O percentual atual, praticamente estável desde 2024, supera os cerca de 22% registrados em 2023. Ainda assim, permanece distante dos 36,7% observados em 2019, quando a vantagem econômica do etanol sobre a gasolina era menor do que a verificada atualmente.
De acordo com o presidente da Datagro, Plinio Nastari, o biocombustível apresentou relação de preços favorável em aproximadamente 67% do território brasileiro neste ano. Essa competitividade, porém, não foi suficiente para ampliar de forma significativa sua participação entre os veículos bicombustíveis.
Desinformação limita escolha pelo biocombustível
Na avaliação de Nastari, a baixa adesão está relacionada, entre outros fatores, à falta de informação dos consumidores sobre o etanol. O setor precisaria reforçar a comunicação a respeito das vantagens econômicas e ambientais do combustível renovável.
O especialista também destaca que os avanços tecnológicos dos veículos e dos sistemas de produção eliminaram antigas preocupações relacionadas ao uso do etanol. Mesmo assim, percepções desatualizadas ainda influenciam a decisão dos motoristas no momento do abastecimento.
Caso a utilização do etanol hidratado retornasse ao percentual registrado em 2019, o consumo nacional poderia crescer cerca de 8 bilhões de litros, estima a Datagro.
O volume adicional seria superior ao aumento de aproximadamente 4,5 bilhões de litros esperado para a produção brasileira na safra 2026/27. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma oferta recorde próxima de 42 bilhões de litros de etanol no ciclo.
Menor consumo altera estratégia de usinas
A baixa procura pelo etanol nos postos também repercute sobre o mercado de açúcar. Isso ocorre porque as usinas brasileiras, especialmente no Centro-Sul, podem direcionar a cana-de-açúcar tanto para a fabricação do adoçante quanto para a produção do biocombustível.
Mudanças na demanda interna influenciam o chamado mix de produção das unidades sucroenergéticas. Como o Brasil ocupa a liderança mundial nas exportações de açúcar, qualquer alteração relevante nessa divisão é acompanhada de perto pelos compradores internacionais e pelos agentes que operam nas bolsas de commodities.
“Mesmo com o incentivo de preço que estamos tendo agora, maior do que em 2019, a proporção ainda está muito baixa. Isso obviamente tem impactos globais para o setor de açúcar e álcool”, afirmou Nastari.
Para a safra 2026/27, a produção nacional de etanol deverá crescer com o avanço das indústrias que utilizam grãos, principalmente milho, além da maior oferta de cana-de-açúcar e da expectativa de aumento da parcela da matéria-prima destinada ao combustível.
Política para gasolina reduz percepção da vantagem
O presidente da Datagro avalia ainda que as medidas adotadas para conter os preços da gasolina diminuem a percepção da competitividade do etanol. A estratégia busca limitar os impactos da valorização internacional do petróleo sobre a inflação brasileira, mas acaba interferindo na relação entre os dois combustíveis.
Nesse contexto, o Brasil já importou aproximadamente 2,5 bilhões de litros de gasolina em 2026. Em todo o ano de 2025, as compras externas somaram cerca de 3,5 bilhões de litros.
Mesmo diante dessas distorções, o etanol continua oferecendo vantagem expressiva ao consumidor em diferentes regiões, segundo a consultoria. Nastari também mencionou que os preços praticados pela Petrobras permanecem abaixo da paridade de importação da gasolina, estimada em R$ 4,50 por litro.
Alta do açúcar influencia preços do etanol
O mercado internacional de açúcar passou a incorporar novas preocupações relacionadas aos possíveis efeitos do El Niño sobre as lavouras e ao anúncio da Índia de importações do produto sem tarifa.
A recuperação das cotações do adoçante tende a tornar sua produção mais atrativa para as usinas brasileiras. Com isso, o mix do Centro-Sul pode ficar menos direcionado ao etanol do que se projetava inicialmente.
Essa movimentação também começou a aparecer nos preços do biocombustível. Conforme Nastari, o valor do etanol avançou aproximadamente R$ 0,20 por litro desde o início de agosto, depois de atingir um piso próximo de R$ 2 por litro na comercialização entre produtores.
A valorização na origem já provoca reflexos semelhantes nas bombas. Ainda assim, a Datagro considera que o etanol preserva uma relação de preços competitiva diante da gasolina, deixando espaço para uma retomada mais consistente do consumo pela frota flex brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
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