Açúcar dispara 23% em reais e produção deve cair na safra 2026/27, aponta Rabobank
AgroInfo 2026 destaca prêmio climático do El Niño, maior destinação de cana ao etanol e preocupação com a oferta no Brasil e na Índia
Publicado em: 27/08/2026 às 19:20hs
Os preços do açúcar registraram uma forte valorização em agosto, impulsionados pela redução da produção no Centro-Sul do Brasil, pelas incertezas climáticas relacionadas ao El Niño e pelos riscos para a safra da Índia.
A análise consta na edição de agosto do AgroInfo 2026, relatório elaborado pelo RaboResearch, braço de pesquisa do Rabobank especializado em alimentos e agronegócio.
Após permanecer durante meses próximo de 14,5 centavos de dólar por libra-peso, o açúcar bruto negociado em Nova York alcançou o maior nível do ano. O contrato com vencimento em outubro fechou a 17,5 centavos de dólar por libra-peso no dia 19 de agosto, enquanto os contratos de março e maio de 2027 superaram 18 centavos.
Na comparação com a média dos três meses anteriores, a valorização chegou a aproximadamente 20% em dólar e 23% em reais, favorecida também pela desvalorização da moeda brasileira.
El Niño adiciona prêmio climático ao açúcar
Segundo o Rabobank, o mercado começou a incorporar um prêmio relacionado ao El Niño nas cotações do açúcar.
A possibilidade de condições climáticas adversas aumentou a preocupação com a capacidade do Brasil de processar toda a cana disponível antes do encerramento da temporada. Chuvas acima do normal podem interromper a moagem e deixar parte da matéria-prima no campo.
No início da safra, precipitações registradas em maio e junho favoreceram o desenvolvimento dos canaviais e sustentaram estimativas elevadas para a produção de cana-de-açúcar. Ao mesmo tempo, as chuvas provocaram paralisações nas unidades industriais e reduziram o ritmo de processamento.
As projeções para a moagem no Centro-Sul permanecem entre 630 milhões e 645 milhões de toneladas. Mesmo com um volume elevado de matéria-prima, a produção de açúcar deverá ficar abaixo da temporada anterior devido ao ritmo inicial mais lento e à maior destinação de cana para o etanol.
Produção de açúcar recua no Centro-Sul
Até o fim de julho, as usinas do Centro-Sul produziram 16,9 milhões de toneladas de açúcar. No mesmo período da safra anterior, o volume havia alcançado 19,2 milhões de toneladas.
A diferença de 2,3 milhões de toneladas ampliou as dúvidas sobre a capacidade de recuperação durante a segunda metade da temporada.
Para igualar as 40,4 milhões de toneladas produzidas em 2025/26, o Rabobank calcula que as usinas precisariam destinar aproximadamente 53% da cana ao açúcar entre agosto e o encerramento da safra, considerando uma moagem de 640 milhões de toneladas e qualidade semelhante à do ciclo anterior.
Diante do volume processado e do mix observado até julho, o banco considera praticamente certa uma queda na produção de açúcar em 2026/27. A principal incerteza está na dimensão dessa redução.
Usinas ampliaram produção de etanol
A maior destinação de cana para o etanol foi uma das características mais importantes do início da safra no Centro-Sul.
Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia indicam que apenas 42,5% da matéria-prima processada entre abril e junho foi direcionada para a fabricação de açúcar.
Informações do Ministério da Agricultura referentes ao período entre abril e julho apontam um mix açucareiro próximo de 44%.
Os percentuais mostram uma migração expressiva para o biocombustível, reduzindo o volume de açúcar disponível para o mercado interno e para exportação.
A decisão das usinas reflete a relação de rentabilidade entre os dois produtos. Quando o etanol oferece melhor retorno, as unidades com flexibilidade industrial podem reduzir a fabricação de açúcar e elevar a produção do combustível.
Alta do açúcar pode mudar o mix das usinas
A recente valorização do açúcar altera essa relação e cria espaço para que as usinas aumentem o mix açucareiro durante o restante da temporada.
O nível relativamente baixo de fixação de preços para a safra 2026/27 também permite que parte das empresas aproveite a melhora das cotações internacionais.
A reação, contudo, dependerá da capacidade operacional das unidades, da qualidade da cana, das condições climáticas e dos preços do etanol no mercado doméstico.
Mesmo que o mix avance, o atraso acumulado até julho torna difícil repetir a produção de açúcar registrada no ciclo anterior.
O mercado também acompanha o ritmo de comercialização. A valorização levou os preços futuros a níveis que não eram observados em toda a curva havia mais de um ano, estimulando vendas por produtores e usinas.
Esse aumento da oferta comercial pode limitar novas altas se não surgirem fatores adicionais de sustentação.
Etanol também reage em agosto
Os preços do etanol começaram a apresentar sinais de recuperação em agosto, depois de um período marcado por forte competitividade do biocombustível em relação à gasolina nos postos.
Ainda não está claro, segundo o Rabobank, se a reação foi provocada principalmente pela valorização do açúcar ou por um aumento da demanda dos consumidores.
A alta do açúcar eleva o custo de oportunidade da produção de etanol. Diante de uma remuneração maior no mercado internacional, as usinas podem direcionar uma parcela adicional da cana ao adoçante, reduzindo a oferta potencial do combustível.
Ao mesmo tempo, a vantagem do etanol hidratado diante da gasolina pode sustentar o consumo nas bombas e contribuir para o equilíbrio do mercado.
A evolução dos preços dos dois produtos será determinante para as decisões das usinas durante os próximos meses.
Índia autoriza importação de 1 milhão de toneladas
O mercado internacional também acompanha a situação da Índia, um dos maiores produtores e consumidores de açúcar do mundo.
Diante da alta dos preços domésticos, o país autorizou a importação de 1 milhão de toneladas do produto. A decisão reforçou a percepção de oferta mais apertada no mercado global.
Além disso, as chuvas de monção abaixo da média aumentaram as preocupações com a produção indiana de cana e açúcar na safra 2026/27, que começa no quarto trimestre.
As incertezas no Brasil e na Índia estimularam um reposicionamento dos fundos de investimento e contribuíram para acelerar a valorização dos contratos futuros em Nova York.
Clima será decisivo para o restante da safra
As condições meteorológicas passam a ocupar o centro das atenções no mercado de açúcar e etanol.
Chuvas frequentes no Centro-Sul podem interromper a colheita, reduzir o número de dias disponíveis para moagem e impedir o processamento de toda a cana estimada.
O excesso de umidade também pode diluir a concentração de açúcares totais recuperáveis, indicador conhecido como ATR, diminuindo o rendimento industrial da matéria-prima.
Por outro lado, períodos mais secos favoreceriam a colheita e permitiriam às usinas recuperar parte do atraso. O resultado final dependerá da distribuição das precipitações e da duração da temporada industrial.
Caso o clima seja atípico, o mercado poderá revisar novamente as projeções para a produção brasileira e para o volume de açúcar disponível às exportações.
Projeto busca preservar competitividade dos biocombustíveis
O relatório também destaca o Projeto de Lei Complementar 114/2026, criado para preservar a competitividade dos biocombustíveis diante de possíveis reduções tributárias sobre os combustíveis fósseis.
Segundo o AgroInfo 2026, a proposta foi aprovada pelo Congresso Nacional e encaminhada para sanção presidencial.
A medida é considerada relevante para evitar que alterações nos tributos sobre gasolina e diesel reduzam artificialmente a competitividade do etanol e de outros combustíveis renováveis.
O equilíbrio tributário influencia diretamente as decisões de investimento, a demanda nos postos e a participação do etanol na matriz de transportes.
Mercado entra em fase de maior volatilidade
O cenário traçado pelo Rabobank aponta para uma segunda metade de safra marcada por maior volatilidade nos preços do açúcar e do etanol.
A redução acumulada da produção brasileira, o baixo mix açucareiro observado até julho e as incertezas sobre a safra indiana oferecem sustentação às cotações.
Em sentido contrário, o avanço das vendas pelas usinas e produtores pode limitar novas valorizações. Uma eventual melhora do clima também permitiria acelerar a moagem e reduzir parte das preocupações com a oferta.
Para as usinas, o desafio será ajustar o mix entre açúcar e etanol conforme os preços, a demanda e as condições operacionais. Para o mercado, a principal questão já não é se a produção brasileira de açúcar cairá na safra 2026/27, mas qual será a dimensão dessa redução.
Fonte: Portal do Agronegócio
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