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Etanol tem octanagem superior, mas ainda é vendido abaixo do seu valor, afirma presidente do IBIO

Combustível brasileiro alcança 116 octanas, reduz emissões e pode abastecer novos mercados, mas é utilizado por apenas 29% da frota flex nacional


Publicado em: 02/09/2026 às 08:30hs

Etanol tem octanagem superior, mas ainda é vendido abaixo do seu valor, afirma presidente do IBIO

O etanol brasileiro oferece desempenho comparável ao de aditivos de alta qualidade, contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa e fortalece a economia regional. Apesar dessas vantagens, o biocombustível ainda seria precificado abaixo de seu valor técnico e ambiental no mercado nacional.

A avaliação foi apresentada por Plínio Nastari, presidente do Instituto Brasileiro de Bioenergia e Bioeconomia (IBIO) e fundador e CEO do Grupo Datagro, durante palestra ao Conselho do Agronegócio (AC/Agro) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

No encontro, aberto pelo presidente da ACSP, Alfredo Cotait Neto, Nastari propôs ampliar o debate sobre os biocombustíveis. Em vez de discutir apenas o percentual de etanol misturado à gasolina, o executivo defendeu uma análise mais abrangente sobre o valor efetivamente entregue pelo produto.

Etanol alcança 116 octanas e melhora qualidade da gasolina

Um dos principais diferenciais do etanol está na elevada octanagem. Segundo Nastari, o combustível renovável apresenta 116 octanas, enquanto a gasolina pura alcança aproximadamente 87.

Essa característica melhora a eficiência da combustão e reduz a ocorrência de detonações no motor. A vantagem técnica seria semelhante à oferecida pelo tolueno, aditivo que pode ser negociado no mercado internacional por valores entre 30% e 40% superiores aos da gasolina.

Apesar disso, o preço do etanol brasileiro continua sendo definido principalmente pela concorrência direta com o combustível fóssil, sem considerar integralmente seus atributos técnicos.

A mistura de etanol também permite a utilização de uma gasolina-base com menor octanagem e custo mais baixo. Dessa forma, o biocombustível contribui tanto para elevar a qualidade do produto final quanto para reduzir os custos de formulação.

Brasil se destaca pela participação das energias renováveis

A presença dos biocombustíveis coloca o Brasil em posição privilegiada na transição para uma economia de baixo carbono. Atualmente, 49,5% da oferta interna de energia do país é proveniente de fontes renováveis, diante de uma média mundial de 14,5%.

Estados Unidos e China apresentam participações inferiores a 10%, enquanto a Alemanha registra aproximadamente 22%. A Noruega alcança 55%, mas possui uma economia de menor escala na comparação com a brasileira.

O destaque também aparece no setor automotivo. De acordo com os dados apresentados, 39% dos automóveis vendidos no Brasil utilizam biocombustíveis, enquanto 35% da frota nacional pode ser classificada como limpa, índice superior ao observado em países como Noruega, Alemanha e França.

Etanol pode ter emissão próxima à dos veículos elétricos

Considerando todo o ciclo de vida do combustível, um automóvel abastecido com etanol hidratado pode apresentar emissões de dióxido de carbono próximas às de um veículo elétrico carregado com energia da matriz brasileira.

A comparação também deve considerar os impactos ambientais relacionados à extração dos minerais utilizados na fabricação das baterias. Nesse contexto, o etanol surge como uma alternativa capaz de reduzir emissões utilizando a infraestrutura de abastecimento e a tecnologia veicular já disponíveis no país.

Apenas 29% da frota flex utiliza etanol hidratado

Mesmo com essas vantagens, o consumo do etanol hidratado permanece abaixo de seu potencial. Atualmente, apenas 29% da frota flex brasileira utiliza o biocombustível, percentual distante do recorde histórico de 41,5%.

A baixa adesão também ocorre em estados nos quais o preço do etanol é mais competitivo em relação à gasolina. Para Nastari, o cenário está relacionado à falta de informação dos consumidores, às orientações inadequadas oferecidas em concessionárias e postos de combustíveis e a distorções regulatórias.

O presidente do IBIO também apontou que políticas de subvenção direcionadas exclusivamente à gasolina aumentam artificialmente a diferença entre os preços dos dois combustíveis nas bombas.

Aviação, transporte marítimo e máquinas agrícolas ampliam mercado

Além do abastecimento de automóveis, o etanol pode conquistar espaço em diferentes setores da economia. Entre as principais oportunidades estão a produção de combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF, e de biobunker para o transporte marítimo.

O produto também pode ser reformado para a geração de hidrogênio e utilizado em máquinas agrícolas pesadas. Tecnologias voltadas a essa aplicação já estão sendo desenvolvidas por fabricantes como Bosch, John Deere, Case, AGCO e Cummins.

Segundo as projeções apresentadas, essas novas frentes poderiam gerar uma demanda global adicional superior a 700 milhões de toneladas até 2050. Atualmente, a produção mundial de etanol está próxima de 100 milhões de toneladas.

Usinas de etanol impulsionam renda nos municípios

A expansão da indústria sucroenergética também produz efeitos econômicos nas regiões produtoras. Estudo mencionado durante a palestra indica que municípios que recebem usinas de etanol apresentam aumento médio de renda equivalente a US$ 1.098 por hectare.

Os benefícios não ficam restritos ao município onde a unidade industrial está instalada. Nos 15 municípios vizinhos mais próximos, o ganho médio estimado chega a US$ 457 por hectare.

Para o setor, os números reforçam o papel do etanol na geração de empregos, na circulação de renda e no desenvolvimento das economias locais. Com novas aplicações industriais e energéticas, o biocombustível brasileiro pode ganhar maior relevância na transição energética mundial e na descarbonização dos transportes.

Fonte: Portal do Agronegócio

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