Selic cai para 13,75%, mas Rabobank vê espaço limitado para novos cortes em 2026
Copom reduz juros em 0,25 ponto percentual, mas mantém cautela diante da inflação acima da meta, mercado de trabalho aquecido, riscos fiscais e incertezas externas
Publicado em: 21/09/2026 às 11:00hs
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, na reunião de 16 de setembro de 2026. A decisão foi unânime e ficou alinhada às expectativas predominantes entre os analistas consultados pelo mercado.
Apesar da continuidade do ciclo de flexibilização monetária, o Banco Central não apresentou uma indicação clara sobre os próximos passos. Para o Rabobank, a ausência de um guidance mais explícito reforça a dependência da autoridade monetária em relação aos próximos dados de inflação e atividade econômica.
Em relatório divulgado após a reunião, o RaboResearch avalia que ainda existe possibilidade de novo corte em 2026, mas mantém como cenário-base uma pausa da Selic em 13,75% e a retomada das reduções apenas em março de 2027.
A projeção do banco é de que a taxa básica de juros encerre 2027 em 12% ao ano.
Copom reduz Selic para 13,75%
A decisão do Copom ocorreu de forma unânime. Dos 33 analistas consultados pela Bloomberg, todos projetavam redução de 25 pontos-base. No levantamento do Broadcast, 75 dos 78 entrevistados esperavam o corte, enquanto três previam manutenção da taxa em 14%.
Pesquisa do Valor Econômico também apontava ampla expectativa de redução: 118 dos 120 analistas consultados esperavam corte de 25 pontos-base.
Segundo a análise do Rabobank, o Copom considerou que a trajetória de juros indicada pelas expectativas de mercado ainda é compatível com a convergência da inflação para níveis próximos da meta de 3%.
No entanto, o cenário continua marcado por riscos relevantes.
Inflação continua acima da meta
Um dos principais pontos destacados pelo relatório é que a projeção do Banco Central para a inflação no chamado horizonte relevante, correspondente ao primeiro trimestre de 2028, permaneceu em 3,2%.
Ao mesmo tempo, a projeção para o IPCA de 2026 subiu de 5,1% para 5,2%, enquanto a estimativa para 2027 passou de 3,8% para 3,9%.
As expectativas de inflação também apresentam movimentos distintos entre os anos. Para 2026, a expectativa caiu de 5% para 4,9%. Para 2027, entretanto, subiu de 4,2% para 4,3%, enquanto a projeção para 2028 permaneceu em 3,8%.
Esse quadro ajuda a explicar a postura cautelosa adotada pelo Copom.
Balanço de riscos segue com viés de alta para a inflação
O Banco Central voltou a considerar que o balanço de riscos para a inflação apresenta assimetria altista.
De acordo com o Rabobank, o Copom manteve os riscos já identificados na reunião anterior. Entre os fatores externos estão a possibilidade de maior depreciação do real, a volatilidade nos mercados internacionais e o comportamento dos preços das commodities.
A instituição também chama atenção para as incertezas relacionadas aos conflitos armados no Oriente Médio e aos rumos da política monetária de países como os Estados Unidos.
Uma desaceleração mais intensa da economia global, choques relacionados ao comércio e ao petróleo e uma eventual queda das commodities aparecem, por outro lado, entre os fatores capazes de reduzir as pressões inflacionárias.
Atividade econômica começa a mostrar sinais de moderação
No ambiente doméstico, o Copom identificou sinais mais claros de desaceleração da atividade econômica, principalmente em setores considerados mais cíclicos.
Apesar disso, a economia brasileira continua apresentando níveis de atividade resilientes, enquanto o mercado de trabalho permanece aquecido.
Os dados acompanhados pelo Rabobank mostram uma perda gradual de ritmo em alguns indicadores. O IBC-Br, considerado uma proxy mensal do PIB, apresentou variação de -0,1% em junho e -0,3% em julho, considerando a medida de média móvel de três meses ajustada sazonalmente.
A indústria também perdeu força no período, passando de crescimento de 0,7% em abril para -0,5% em junho e -0,8% em julho.
No varejo ampliado, as variações também apontam para uma atividade menos acelerada, enquanto o setor de serviços continua demonstrando maior resistência.
Mercado de trabalho continua aquecido
Outro elemento relevante para a política monetária é o comportamento do mercado de trabalho.
Segundo o relatório, o Copom considera que o mercado permanece aquecido, o que contribui para manter a pressão sobre determinados componentes da inflação.
Os dados apresentados pelo Rabobank mostram que o setor de serviços continua sendo um dos principais responsáveis pela geração líquida de empregos. Em julho, foram registrados 45,6 mil novos postos no setor, considerando a média móvel de três meses ajustada sazonalmente.
A construção civil também apresentou saldo positivo, enquanto comércio e agropecuária registraram resultados mais fracos no período analisado.
Serviços seguem como ponto de atenção
A inflação de serviços permanece entre os fatores observados pelo Copom.
O relatório mostra que a inflação acumulada em 12 meses dos serviços subjacentes estava em 5% no fim de agosto. A média dos núcleos de inflação, por sua vez, estava em 4%.
O índice de difusão, que mede a proporção de itens que registram aumento de preços, caiu de níveis superiores a 60% no primeiro semestre para 52,5% no fim de agosto.
A desaceleração de alguns indicadores de inflação representa um sinal de alívio, mas o quadro ainda não é considerado suficiente para eliminar os riscos monitorados pelo Banco Central.
Dólar, petróleo e commodities aumentam incertezas
O cenário utilizado pelo Copom incorpora um conjunto de hipóteses para câmbio, commodities e petróleo.
Na avaliação apresentada pelo Rabobank, o dólar parte de R$ 5,15, enquanto o índice de commodities IC-Br considerado no cenário está em 456,2 pontos, 3% acima do nível utilizado anteriormente.
O preço do petróleo Brent também apresentou aumento significativo na comparação entre as reuniões: de US$ 91 para US$ 98 por barril, alta de 7,3%.
O comportamento desses ativos pode influenciar diretamente os preços domésticos, especialmente por meio do câmbio e dos combustíveis.
El Niño também entra no radar
Além dos fatores financeiros e geopolíticos, o Rabobank chama atenção para as condições climáticas.
Segundo o relatório, modelos probabilísticos indicavam alta possibilidade de ocorrência de um evento de El Niño muito forte entre setembro e dezembro.
Embora esse fator não faça parte diretamente da avaliação de riscos apresentada pelo Copom, o Rabobank considera que seus possíveis efeitos devem ser acompanhados.
Para o agronegócio, eventos climáticos de maior intensidade podem alterar perspectivas de produção, preços de commodities e custos ao longo da cadeia, embora o relatório não apresente uma estimativa específica de impacto sobre cada cultura.
Rabobank mantém previsão de Selic em 13,75% até o fim de 2026
Mesmo reconhecendo que o Copom não fechou a possibilidade de um novo corte, o Rabobank mantém sua avaliação de que a janela para novas reduções neste ano é limitada.
O banco considera que a trajetória de inflação nos próximos meses, a possibilidade de um El Niño forte e a volatilidade associada às eleições gerais sobre os ativos domésticos podem restringir novos cortes.
Por isso, o cenário-base da instituição é de manutenção da Selic em 13,75% após a reunião de setembro, com retomada do ciclo de cortes em março de 2027.
Nesse cenário, a taxa básica chegaria a 12% ao ano no fim de 2027. O próprio Rabobank, entretanto, ressalta que novos dados econômicos podem alterar essa projeção.
Ata do Copom e Relatório de Política Monetária serão decisivos
Os próximos documentos do Banco Central devem ajudar a esclarecer a estratégia para os juros.
A ata da reunião está prevista para 22 de setembro, enquanto o Relatório de Política Monetária do terceiro trimestre de 2026 será divulgado em 24 de setembro.
Segundo o Rabobank, esses documentos poderão oferecer mais informações sobre a função de reação do Copom, suas avaliações sobre inflação e atividade econômica e os fatores considerados na definição da política monetária.
O que pode mudar o cenário para a Selic?
A trajetória dos juros nos próximos meses dependerá principalmente da evolução de alguns indicadores:
- comportamento do IPCA e dos núcleos de inflação;
- expectativas de inflação para 2026, 2027 e 2028;
- evolução da atividade econômica;
- condições do mercado de trabalho;
- trajetória do dólar;
- preços internacionais das commodities;
- comportamento do petróleo;
- evolução dos conflitos no Oriente Médio;
- política monetária dos Estados Unidos;
- condições fiscais domésticas;
- possíveis impactos de um El Niño mais intenso.
O Rabobank ressalta que a ata, o Relatório de Política Monetária e os novos dados econômicos poderão levar à recalibração de suas expectativas atuais para a Selic.
Selic em 13,75% muda cenário para economia e agronegócio
A redução da Selic para 13,75% representa mais um passo no processo de flexibilização monetária iniciado pelo Banco Central, mas o relatório do Rabobank mostra que o ambiente ainda exige cautela.
Para a economia brasileira, a combinação entre inflação acima da meta, atividade ainda resiliente, mercado de trabalho aquecido e incertezas externas mantém o Banco Central diante de um cenário no qual novos cortes dependerão da confirmação de uma trajetória sustentável de desinflação.
Para o agronegócio, a evolução dos juros também deve ser acompanhada em conjunto com câmbio, preços das commodities, petróleo e condições climáticas, fatores que influenciam custos de produção, crédito, investimentos e formação de preços.
Por enquanto, a leitura do Rabobank é de que a Selic pode permanecer em 13,75% até o fim de 2026, embora a instituição reconheça que uma melhora mais consistente dos indicadores econômicos poderia abrir espaço para uma retomada dos cortes antes de 2027.
Fonte: Portal do Agronegócio
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