Trigo chega a R$ 1.600 por tonelada no Sul, mas qualidade da nova safra preocupa mercado
Oferta restrita sustenta preços no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, enquanto PH baixo, giberela, brusone e chuvas ampliam diferenças entre os lotes
Publicado em: 21/09/2026 às 11:40hs
O mercado brasileiro de trigo encerrou a semana com preços elevados, poucos negócios e atenção crescente à qualidade da nova safra. No Sul do país, a oferta restrita e a resistência dos produtores em vender sustentam as cotações, mas os primeiros resultados da colheita aumentam a preocupação de moinhos, cooperativas e cerealistas.
Segundo análise da TF Agroeconômica, foram identificados lotes com baixo peso hectolítrico (PH), grãos chochos e ocorrência de doenças como giberela e brusone. O cenário amplia a diferença de preços entre o trigo destinado à moagem e os produtos de menor padrão.
No Paraná, as referências chegaram a R$ 1.600 por tonelada FOB. No Rio Grande do Sul, vendedores pedem até R$ 1.550 por tonelada, enquanto os moinhos encontram dificuldade para contratar volumes abaixo de R$ 1.550 a R$ 1.570 CIF.
Diante da valorização, a recomendação aos produtores é realizar vendas graduais, preservando parte da margem sem comprometer toda a produção antes da definição da qualidade.
Trigo gaúcho registra negócios de até 18 mil toneladas
No Rio Grande do Sul, os preços pedidos pelos vendedores variaram entre R$ 1.450 e R$ 1.550 por tonelada FOB, dependendo da região de origem e das características do cereal.
Os moinhos encontraram dificuldade para concluir compras abaixo de R$ 1.550 a R$ 1.570 por tonelada CIF. Mesmo com a distância entre compradores e vendedores, foram negociadas até 18 mil toneladas de trigo da safra anterior no encerramento do dia.
Em Panambi, o preço de balcão avançou para R$ 72 por saca.
A firmeza do mercado físico contrasta com as referências de exportação. Para dezembro, a indicação no porto ficou próxima de R$ 1.270 por tonelada, valor considerado pouco atrativo pelos vendedores. A cobertura baseada em Chicago também recuou para R$ 1.343,76 por tonelada.
Com preços internos superiores à paridade de exportação, a comercialização permanece direcionada principalmente ao abastecimento dos moinhos.
PH baixo e giberela afetam primeiros lotes no RS
As primeiras colheitas pontuais realizadas no Rio Grande do Sul apresentaram problemas de qualidade, especialmente no noroeste do estado.
Entre as ocorrências relatadas estão grãos chochos, baixo PH e presença de giberela. Esses fatores podem reduzir o rendimento industrial e limitar a utilização do trigo na produção de farinhas de melhor qualidade.
O PH é um dos principais parâmetros utilizados na classificação comercial do cereal. Quanto menor o indicador, maior tende a ser o desconto aplicado ao produto, dependendo das demais características do lote.
A separação da produção por qualidade ganha importância neste cenário, evitando que lotes com padrão superior sejam misturados ao trigo afetado pelo clima ou por doenças.
Moinhos de Santa Catarina estão abastecidos
Em Santa Catarina, os moinhos permanecem abastecidos e concentram as atividades no recebimento de compras realizadas anteriormente.
Foram registrados negócios pontuais a R$ 1.520 por tonelada FOB. Ainda não havia oferta relevante de trigo da nova safra.
A situação reduz a necessidade imediata de novas aquisições, mas o mercado catarinense acompanha a qualidade do produto que começa a chegar dos estados vizinhos.
Caso a oferta de trigo adequado à moagem permaneça limitada, os compradores poderão enfrentar maior dificuldade de reposição nas próximas semanas.
Trigo chega a R$ 1.600 no Paraná
No Paraná, as referências alcançaram até R$ 1.600 por tonelada FOB. Vendedores de trigo tipo 1 buscaram valores entre R$ 1.550 e R$ 1.600.
Apesar do avanço da colheita, a qualidade das lavouras continua sendo um ponto de atenção. Dados do Departamento de Economia Rural (Deral) mostram que 75% das áreas estão classificadas em condições boas ou excelentes, 22% em situação média e 3% em condições ruins.
Ainda assim, moinhos relataram o recebimento de trigo com PH entre 72 e 73, abaixo do padrão desejado para determinados usos industriais. Também foram identificados problemas relacionados à brusone, à giberela e ao excesso de chuvas.
A situação mostra que a classificação geral das lavouras não elimina o risco de perdas qualitativas em áreas específicas.
Qualidade amplia diferença entre os preços
Com a nova safra chegando ao mercado, PH, força de glúten, umidade, presença de doenças e rendimento industrial passam a determinar a formação das cotações.
Lotes que atendem às exigências dos moinhos tendem a receber prêmios, enquanto o trigo fora de padrão pode enfrentar descontos ou ser direcionado a outros usos.
Para o produtor que ainda não colheu, a comercialização antecipada exige cautela. A definição do preço precisa considerar que a qualidade final poderá alterar o valor recebido.
Quem possui trigo armazenado deve comparar a cotação disponível com os custos financeiros, as despesas de armazenagem e o risco de uma eventual correção do mercado.
Produtor deve escalonar vendas para proteger margem
A TF Agroeconômica avalia que a estratégia mais equilibrada para os agricultores é aproveitar os preços atuais por meio de vendas parciais.
O escalonamento permite assegurar parte da margem e, ao mesmo tempo, manter uma parcela da produção exposta a possíveis novas altas. A alternativa reduz o risco de concentrar toda a comercialização em um único momento.
Para a próxima safra, o produtor deve acompanhar a relação entre custos e preços futuros. Fixações antecipadas podem ser consideradas quando a margem projetada atender aos objetivos da propriedade.
Cooperativas e cerealistas precisam reduzir exposição
As cooperativas devem ampliar gradualmente a cobertura de vendas conforme avançam as compras no mercado físico. A estratégia evita a formação de estoques excessivamente expostos a uma eventual queda em Chicago.
A utilização de contratos futuros pode ajudar a proteger as aquisições, enquanto a segregação por qualidade preserva o valor dos lotes superiores.
Para os cerealistas, a orientação é evitar a expansão agressiva dos estoques sem mecanismos de proteção. Vendas parciais das posições já adquiridas podem reduzir os riscos provocados pela volatilidade dos preços.
Moinhos acompanham trigo argentino, câmbio e fretes
Os moinhos enfrentam o desafio de garantir matéria-prima com padrão adequado em um mercado de oferta limitada. A antecipação de parte da cobertura pode reduzir o risco de novas altas e de escassez de trigo de qualidade.
As decisões devem combinar compras físicas, proteção nos mercados futuros e gestão cambial. Também entram na conta o preço do trigo argentino, os custos de frete e a paridade de importação.
Nas próximas semanas, o avanço da colheita no Paraná e no Rio Grande do Sul deverá definir o volume efetivamente disponível para moagem. Até que a qualidade da safra seja conhecida com maior precisão, o mercado tende a permanecer firme, seletivo e com poucos negócios.
Fonte: Portal do Agronegócio
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