Publicidade
Mercado Financeiro

Selic alta encarece crédito rural e aumenta inadimplência entre produtores, aponta Rabobank

Estudo mostra que pessoas físicas são mais afetadas pelo aperto monetário, enquanto linhas subsidiadas do Plano Safra reduzem o impacto dos juros sobre empresas do agronegócio


Publicado em: 09/09/2026 às 18:40hs

Selic alta encarece crédito rural e aumenta inadimplência entre produtores, aponta Rabobank

A manutenção dos juros em patamares elevados tem pressionado o crédito rural no Brasil, principalmente entre produtores que contratam financiamentos como pessoa física. Embora os recursos direcionados e subsidiados do Plano Safra reduzam parte do impacto da política monetária, o encarecimento do dinheiro já se reflete nas taxas cobradas e no aumento da inadimplência no campo.

A conclusão faz parte do estudo “Além do Plano Safra: Crédito Rural sob Aperto Monetário”, elaborado pelo RaboResearch, braço de análises econômicas do Rabobank. O levantamento avalia como as mudanças na taxa Selic afetam os juros, as concessões e os atrasos nas operações destinadas ao agronegócio.

Segundo a análise, a transmissão da política monetária ocorre de maneira diferente entre pessoas físicas e jurídicas. Os efeitos são mais intensos sobre os produtores rurais, enquanto empresas do setor contam com maior proteção oferecida pelas linhas de crédito direcionadas.

Juros elevados atingem com mais força o produtor rural

O estudo mostra que as taxas do crédito rural acompanham os ciclos de elevação da Selic. Quando o Banco Central aumenta os juros para controlar a inflação, o custo dos financiamentos também tende a subir, restringindo a capacidade de investimento e elevando as despesas financeiras das propriedades.

Em maio de 2026, a taxa média das operações contratadas por pessoas físicas estava em 10,32% ao ano. Nas linhas reguladas, o percentual era de 9,10%, enquanto os financiamentos concedidos com recursos de mercado apresentavam juros de 11,91% ao ano.

Entre as pessoas jurídicas, a taxa média chegou a 13,21% ao ano. Nas operações com recursos livres, o custo alcançou 13,80%, ante 11,70% nas linhas reguladas.

Apesar de as empresas enfrentarem taxas nominais mais altas, o Rabobank identificou que os choques monetários produzem efeitos mais persistentes sobre os produtores pessoa física. Nesse segmento, o aumento dos juros é acompanhado por uma elevação gradual da inadimplência.

Inadimplência rural avança entre pessoas físicas

Os dados analisados pelo banco indicam que a inadimplência entre produtores rurais pessoa física atingiu 7,51% em maio de 2026. Um ano antes, o índice estava em 2,96%.

A deterioração foi ainda mais intensa nas operações contratadas a taxas de mercado. Nesse grupo, a inadimplência passou de 4,79% em maio de 2025 para 13,39% no mesmo mês de 2026. Nas linhas reguladas, o indicador avançou de 1,50% para 3,20%.

Entre as pessoas jurídicas, os atrasos continuaram em níveis menores. A inadimplência média subiu de 0,40% para 0,80% no período. Nas operações de mercado, passou de 0,49% para 0,92%, enquanto nas linhas reguladas aumentou de 0,26% para 0,56%.

As estimativas do estudo apontam que, após um choque inesperado na política monetária, a inadimplência das pessoas físicas aumenta aproximadamente 0,1 ponto percentual no intervalo entre seis e 12 meses.

Para as empresas, não foram encontradas evidências de uma deterioração persistente da qualidade do crédito provocada exclusivamente pela alta da Selic.

Preços da soja e do milho influenciam capacidade de pagamento

A evolução da inadimplência rural não depende apenas do custo dos financiamentos. O comportamento dos preços agrícolas, dos custos de produção e da renda obtida nas lavouras também interfere diretamente na capacidade de pagamento do produtor.

Nos ciclos de aperto monetário de 2013 e 2014, por exemplo, os juros mais altos coincidiram com preços favoráveis para soja e milho e com custos relativamente estáveis dos fertilizantes. A geração de receita ajudou a compensar o aumento das despesas financeiras e permitiu a expansão do crédito sem uma piora significativa dos atrasos.

Situação semelhante ocorreu entre 2021 e 2022. Mesmo com o avanço da Selic e a disparada dos preços de insumos como ureia, fosfato monoamônico e cloreto de potássio, as commodities agrícolas permaneceram em níveis historicamente elevados. Esse cenário sustentou o caixa das propriedades e manteve a inadimplência sob controle.

O ambiente mudou no ciclo de 2024 e 2025. Os preços da soja e do milho recuaram em relação aos picos anteriores, enquanto os fertilizantes iniciaram uma normalização mais lenta. A combinação entre receitas pressionadas, custos ainda elevados e crédito caro ampliou o risco financeiro, especialmente entre os produtores pessoa física.

Na avaliação do Rabobank, juros altos não provocam necessariamente uma deterioração imediata da carteira rural quando as cotações agrícolas garantem boa rentabilidade. Entretanto, quando a receita diminui, o custo financeiro passa a potencializar os atrasos e o risco de crédito.

Concessões de crédito rural apresentam trajetórias diferentes

O levantamento também identificou forte volatilidade nas concessões de crédito rural. Após uma expansão superior a 60% entre 2021 e o início de 2022, puxada principalmente pelas pessoas físicas, o mercado passou por uma correção em 2023.

Em 2024, o crescimento voltou a acelerar, desta vez liderado pelas pessoas jurídicas. Depois de nova desaceleração no começo de 2025, os números de 2026 apontaram uma recomposição moderada, mas com desempenhos bastante distintos.

Em maio de 2026, as concessões para pessoas físicas recuaram 9,27% na comparação anual. Nas operações com taxas de mercado, a queda chegou a 26,55%. As linhas reguladas, por outro lado, cresceram 3,61%.

No segmento empresarial, as concessões avançaram 31,62%. O resultado foi sustentado pelos financiamentos de mercado, que cresceram 79,27%, enquanto as operações reguladas diminuíram 14,62%.

O modelo utilizado pelo estudo indica que um choque monetário pode ser seguido por uma alta temporária de 0,37 ponto percentual nas concessões para pessoas jurídicas após seis meses. Esse movimento, entretanto, não representa uma expansão generalizada e permanente do crédito.

Plano Safra reduz transmissão da Selic para o agronegócio

A presença de recursos direcionados é apontada como uma das principais razões para o impacto limitado da Selic sobre parte do mercado de crédito rural.

As taxas subsidiadas e reguladas do Plano Safra reduzem o repasse direto das oscilações dos juros básicos para os financiamentos agropecuários. Essa proteção é mais relevante entre as pessoas jurídicas, que apresentam menor sensibilidade aos choques monetários e índices mais baixos de inadimplência.

Ainda assim, o Rabobank ressalta que o crédito rural brasileiro continua dependente do sistema bancário e de políticas públicas. A participação limitada do mercado de capitais está relacionada à percepção de risco do agronegócio, atividade exposta à volatilidade dos preços, às condições climáticas e às oscilações nos custos dos insumos.

Esses fatores reduzem o apetite dos financiadores privados e reforçam a importância dos programas oficiais para o custeio, a comercialização e os investimentos nas propriedades.

Crédito caro exige maior planejamento financeiro no campo

Os resultados indicam que o canal de transmissão da política monetária continua ativo no crédito rural, embora com intensidade menor do que em outras modalidades de financiamento.

O principal efeito aparece no encarecimento das operações. As mudanças sobre o volume total de concessões são mais moderadas, mas a inadimplência dos produtores pessoa física tende a aumentar gradualmente após períodos prolongados de juros elevados.

Nesse cenário, o planejamento financeiro ganha importância dentro das propriedades. A avaliação da capacidade de pagamento, a escolha entre linhas reguladas e recursos livres, a proteção contra oscilações nos preços das commodities e o controle dos custos de produção tornam-se determinantes para reduzir a exposição ao crédito caro.

Enquanto o Plano Safra funciona como amortecedor para parte do setor, produtores mais dependentes de recursos de mercado permanecem vulneráveis à combinação entre Selic elevada, margens menores e volatilidade da renda agrícola.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias