Dólar sobe 9,2%, mas soja avança 4,3% e milho tem reação limitada no Brasil
Queda em Chicago, recuo dos prêmios de exportação e oferta doméstica reduzem efeito do câmbio sobre os grãos; soja da próxima safra apresenta valorização estimada próxima de 6% em reais
Publicado em: 05/11/2026 às 10:30hs
A forte alta do dólar na última semana de outubro não se refletiu integralmente nos preços da soja e do milho no Brasil. Entre os dias 23 e 30, a moeda americana avançou 9,2%, enquanto a soja disponível em Paranaguá registrou valorização de 4,3%. No milho, a resposta foi ainda mais discreta.
Segundo análise da Biond Agro, a queda das cotações internacionais e dos prêmios de exportação limitou o impacto positivo do câmbio sobre a soja. Para o milho, a disponibilidade interna e a concorrência do produto norte-americano tiveram maior peso na formação dos preços.
Chicago e prêmios reduzem efeito do dólar sobre a soja
No período analisado, o contrato de soja com vencimento em janeiro de 2027 recuou 2,7% na Bolsa de Chicago. O preço FOB em Paranaguá, referência do produto colocado a bordo para exportação, caiu 1,6% em dólares.
Esses movimentos compensaram parte do impulso cambial e fizeram a valorização da soja disponível no porto ficar abaixo da metade da alta da moeda americana.
Os prêmios de exportação também recuaram no início da semana. Conforme a análise, as tradings ajustaram suas ofertas para se proteger da instabilidade cambial. Parte da queda foi recuperada até sexta-feira, com apoio da menor disposição dos produtores para vender.
Com uma parcela significativa da safra já comercializada, muitos agricultores optaram por manter os volumes remanescentes, restringindo a oferta.
Para Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o resultado reforça a necessidade de acompanhar os componentes do preço em conjunto. A valorização do dólar pode melhorar a remuneração em reais, mas seu efeito diminui quando Chicago e os prêmios seguem na direção contrária.
Oferta e demanda interna limitam reação do milho
No mercado de milho, os contratos com vencimento em 2027 na B3 praticamente não avançaram durante a semana. O indicador do Cepea apresentou reação apenas nos últimos dias do período.
Segundo a Biond Agro, o cereal brasileiro permanece mais condicionado ao abastecimento doméstico do que à paridade de exportação.
O avanço da colheita nos Estados Unidos amplia a disponibilidade de milho norte-americano a preços competitivos, dificultando a participação brasileira no mercado internacional. Assim, a alta do dólar não foi suficiente para provocar uma valorização mais consistente.
No Brasil, a oferta da safrinha e os estoques dos consumidores também limitam as cotações. A expectativa apresentada na análise é de retomada das compras a partir de dezembro, o que poderá alterar o ritmo das negociações.
Yedda avalia que, enquanto os compradores permanecerem abastecidos e o milho americano mantiver competitividade, o câmbio terá força limitada para elevar os preços internos.
Soja da safra 2026/27 tem ganho estimado próximo de 6% em reais
Para a soja da próxima safra, o movimento cambial teve efeito mais expressivo. Considerando os contratos de Chicago, os prêmios de cada mês e os respectivos vencimentos do dólar futuro, os preços estimados no porto avançaram perto de 6% em reais.
Em dólares, entretanto, essas mesmas referências recuaram entre 2% e 3%, evidenciando a importância do câmbio para a melhora das projeções de receita em moeda nacional.
A curva do dólar futuro subiu em todos os vencimentos acompanhados, inclusive de março a julho de 2027, período relevante para a comercialização da safra brasileira.
Cenário fiscal mantém câmbio no radar
Na avaliação apresentada pela Biond Agro, o resultado do segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro, alterou a percepção dos investidores sobre as perspectivas fiscais e contribuiu para a reação cambial.
A consultoria trabalha com a possibilidade de acomodação do dólar entre R$ 5,20 e R$ 5,40, acima dos níveis anteriores à eleição. Trata-se de uma projeção, cuja concretização dependerá dos sinais da política econômica e das medidas do governo reeleito.
Comercialização exige atenção ao câmbio e aos prêmios
Diante da volatilidade, a estratégia defendida pela Biond Agro é avaliar a fixação do câmbio em lotes durante momentos de valorização, por meio de instrumentos na B3 ou de operações com tradings. A consultoria também sugere acompanhar os prêmios antes de comprometer esse componente em um mercado pressionado.
Nas próximas semanas, a demanda chinesa e o ritmo das vendas brasileiras serão importantes para a formação dos diferenciais de exportação. A continuidade das compras da China, combinada com uma oferta controlada pelos produtores, pode sustentar os prêmios. Uma concentração de vendas, por outro lado, tende a ampliar a pressão.
O cenário mostra que dólar mais alto não significa valorização equivalente da soja ou do milho. O resultado de cada negociação depende também das referências internacionais, dos prêmios, da disponibilidade do produto e das condições de demanda.
Fonte: Portal do Agronegócio
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