Dólar pode superar expectativas do mercado até o fim de 2026 com pressão externa e desafios fiscais no Brasil
Rabobank projeta câmbio em R$ 5,35 no encerramento do ano; tensão no Oriente Médio, política monetária dos EUA e desaceleração da economia brasileira elevam a volatilidade dos mercados.
Publicado em: 22/07/2026 às 19:20hs
O mercado financeiro acompanha um cenário de elevada incerteza para o câmbio, com fatores internacionais e domésticos aumentando a pressão sobre o real. De acordo com análise do Rabobank, a cotação do dólar poderá subir mais do que parte do mercado espera nos próximos meses, impulsionada pela retomada da força da moeda norte-americana, pela redução do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos e pelas incertezas fiscais e políticas no cenário nacional.
Para o agronegócio brasileiro, a trajetória do dólar continua sendo um dos principais fatores de influência sobre os custos de produção, preços dos insumos importados e competitividade das exportações de commodities.
Oriente Médio e política monetária dos EUA mantêm investidores em alerta
No cenário internacional, a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a aumentar as preocupações com possíveis interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de energia do mundo.
Ao mesmo tempo, a inflação ao consumidor dos Estados Unidos registrou queda de 0,4% em junho na comparação mensal, resultado influenciado principalmente pela redução dos preços da gasolina.
Apesar do recuo, a inflação anual permanece acima da meta do Federal Reserve (Fed), com o índice cheio em 3,5% e o núcleo da inflação em 2,6%, sinalizando que o processo de controle dos preços ainda não está concluído.
Durante audiência no Congresso norte-americano, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, afirmou que a desaceleração da inflação ainda é insuficiente para encerrar o ciclo de combate à alta dos preços, reforçando o compromisso da autoridade monetária em conduzir a inflação para a meta de 2%.
Esse ambiente tende a sustentar juros elevados nos Estados Unidos por mais tempo, fortalecendo o dólar globalmente e reduzindo o fluxo de recursos para mercados emergentes.
Economia brasileira mostra crescimento modesto
No Brasil, os indicadores econômicos apontam uma atividade ainda resiliente, porém com perda gradual de dinamismo.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), avançou 0,1% em maio na comparação com abril, resultado que superou as expectativas do mercado, que previa retração.
Apesar do desempenho positivo, a avaliação do Rabobank é de que a economia brasileira deverá apresentar crescimento moderado ao longo dos próximos meses, refletindo os efeitos dos juros elevados, da desaceleração do consumo e do ambiente econômico mais desafiador.
Varejo e setor de serviços mostram desaceleração
Os dados mais recentes reforçam sinais de perda de ritmo da atividade.
As vendas do varejo restrito cresceram apenas 0,1% em maio, enquanto o acumulado em 12 meses avançou 0,4%, ambos abaixo das projeções dos analistas.
Já o varejo ampliado — que inclui veículos, materiais de construção e atacado especializado em alimentos — registrou retração de 0,2%, indicando enfraquecimento da demanda doméstica, especialmente diante da pressão da inflação sobre o orçamento das famílias.
O setor de serviços também apresentou desempenho inferior ao esperado. Após crescimento no mês anterior, o segmento recuou 0,4% em maio, reforçando a percepção de uma economia em ritmo de expansão mais lento.
Rabobank projeta dólar a R$ 5,35 até o fim do ano
Mesmo com o real apresentando desempenho relativamente favorável entre as moedas emergentes, o Rabobank acredita que a moeda brasileira poderá perder força nos próximos meses.
Na semana anterior, o dólar encerrou cotado a R$ 5,1119, com leve valorização de 0,06%, enquanto o real registrou o terceiro melhor desempenho entre 24 moedas de países emergentes.
Ainda assim, a instituição financeira projeta a moeda norte-americana em R$ 5,35 no encerramento do ano, sustentando sua estimativa em quatro fatores principais:
- redução do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos;
- possível fortalecimento global do dólar;
- persistência das fragilidades fiscais brasileiras;
- aumento das incertezas relacionadas ao ambiente político e eleitoral.
Impactos para o agronegócio
Para o agronegócio brasileiro, um dólar mais valorizado tende a gerar efeitos distintos conforme o segmento.
Enquanto exportadores de soja, milho, café, carnes, açúcar, algodão e celulose podem ampliar sua competitividade internacional e aumentar a receita em reais, produtores dependentes de insumos importados podem enfrentar custos maiores com fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas, combustíveis e tecnologias.
Nesse contexto, além do comportamento da política monetária norte-americana, investidores também acompanham os próximos indicadores econômicos da América Latina, incluindo os dados de comércio exterior e atividade econômica da Colômbia, que poderão oferecer novos sinais sobre o desempenho das economias emergentes.
Perspectivas
O mercado deverá continuar monitorando simultaneamente a evolução das tensões geopolíticas, os próximos indicadores de inflação nos Estados Unidos e o comportamento da economia brasileira.
Para o câmbio, a combinação entre um cenário internacional mais avesso ao risco, juros elevados nas economias desenvolvidas e desafios fiscais internos mantém o dólar em trajetória de volatilidade, fator que continuará influenciando diretamente os mercados agrícolas e as decisões de comercialização do agronegócio brasileiro ao longo dos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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