Investir na Argentina ainda exige cautela: riscos políticos, câmbio e liquidez seguem no radar dos investidores
Estudo aponta que recuperação econômica cria oportunidades relevantes, mas alerta para desafios ligados às eleições de 2027, reservas internacionais, controles cambiais e estratégias de saída dos investimentos.
Publicado em: 12/08/2026 às 09:30hs
Apesar do ambiente mais favorável para negócios e do avanço das reformas econômicas, a Argentina ainda está longe de ser considerada um mercado livre de riscos. O estudo da L.E.K. Consulting destaca que investidores devem incorporar diferentes cenários de estresse em suas análises, principalmente em projetos que não estejam protegidos pelo Regime de Incentivo aos Grandes Investimentos (RIGI).
Na avaliação da consultoria, o sucesso da recuperação econômica dependerá da continuidade das políticas fiscais, da consolidação da estabilidade cambial e da manutenção do apoio político às reformas implementadas pelo governo de Javier Milei.
Histórico mostra que mudanças políticas podem alterar rapidamente o ambiente de negócios
Um dos principais alertas do relatório está relacionado ao histórico de alternância política da Argentina.
Nas últimas décadas, mudanças de governo frequentemente resultaram em revisões de políticas econômicas, alterações regulatórias e retomada de controles sobre o mercado cambial. Esse histórico aumenta a percepção de risco entre investidores internacionais, especialmente em projetos de longo prazo que não contem com garantias contratuais específicas.
Segundo o estudo, um eventual enfraquecimento das reformas ou uma mudança significativa na orientação econômica após as eleições de 2027 poderá reduzir a confiança dos mercados e comprometer parte da valorização esperada dos ativos argentinos.
Cenários de estresse indicam possibilidade de forte desvalorização dos ativos
A consultoria utiliza episódios anteriores da economia argentina como referência para dimensionar possíveis perdas em cenários adversos.
Entre os exemplos citados está a crise de 2018, quando diversos ativos argentinos registraram queda próxima de 50% em dólar. Em um cenário de reversão parcial das reformas, empresas ligadas aos setores de consumo, saúde e serviços poderiam enfrentar nova compressão relevante de valor.
Já em um cenário mais extremo — marcado por uma nova crise cambial combinada com forte mudança no ambiente político — o comportamento histórico indica que as perdas poderiam ser ainda mais expressivas, exigindo elevada margem de segurança por parte dos investidores.
Controles cambiais continuam sendo um dos principais desafios
Outro ponto de atenção destacado pelo estudo envolve a repatriação de capital.
Embora o governo Milei tenha iniciado um processo de flexibilização dos controles cambiais, ainda permanecem restrições para empresas que desejam remeter ao exterior lucros acumulados antes das mudanças implementadas em 2025.
Segundo a análise, parte dessas operações continua dependendo de instrumentos financeiros específicos ou de mecanismos alternativos de liquidação, normalmente negociados com deságio em relação ao câmbio oficial. Esse custo adicional deve ser considerado na avaliação da rentabilidade de novos projetos.
Mercado de capitais ainda oferece poucas alternativas de saída
Além da questão cambial, a consultoria chama atenção para a reduzida liquidez do mercado argentino.
O mercado de fusões e aquisições (M&A) continua relativamente restrito, enquanto as ofertas públicas de ações (IPOs) permanecem limitadas. Na prática, isso significa que muitos investidores deverão estruturar suas estratégias de saída considerando negociações privadas com grupos locais ou empresas regionais.
Embora exista expectativa de fortalecimento do mercado de capitais argentino nos próximos anos, o relatório recomenda que essa hipótese não seja utilizada como premissa principal na modelagem financeira dos investimentos atuais.
Recomendações variam conforme o perfil do investimento
A conclusão do estudo diferencia claramente dois grupos de investidores.
Para projetos enquadrados no RIGI, a recomendação é avançar imediatamente, aproveitando o ambiente de ativos descontados e a proteção jurídica proporcionada pelo regime. A avaliação é que o número de oportunidades tende a diminuir à medida que novos investidores internacionais ingressarem no mercado.
Já para os demais setores da economia, a estratégia sugerida é diferente: realizar estudos de mercado, identificar parceiros locais, avaliar ativos e preparar estruturas de investimento, mas aguardar a confirmação de dois fatores considerados essenciais:
- fortalecimento consistente das reservas internacionais do Banco Central argentino;
- manutenção da base política responsável pelas reformas após as eleições de 2027.
Empresas brasileiras podem encontrar oportunidades estratégicas
Para companhias brasileiras, especialmente aquelas ligadas ao agronegócio, energia, mineração, infraestrutura, logística e serviços financeiros, a Argentina pode representar uma oportunidade de expansão regional caso o processo de estabilização econômica seja consolidado.
O relatório destaca que o momento atual favorece o mapeamento de ativos, a construção de parcerias estratégicas e a preparação para futuras operações, permitindo que investidores estejam posicionados para aproveitar uma eventual reprecificação do mercado argentino.
Ao mesmo tempo, a consultoria reforça que decisões de investimento devem ser acompanhadas por rigorosa análise de risco, planejamento financeiro e monitoramento contínuo do ambiente político e macroeconômico, fatores que continuarão determinando o ritmo da recuperação econômica do país nos próximos anos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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