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Fertilizantes orgânicos podem suprir até 30% da demanda e reduzir dependência externa do Brasil

Aproveitamento de resíduos agropecuários, industriais e urbanos pode recuperar milhões de toneladas de nutrientes, fortalecer os solos e ampliar a autonomia do agronegócio brasileiro


Publicado em: 08/09/2026 às 09:30hs

Fertilizantes orgânicos podem suprir até 30% da demanda e reduzir dependência externa do Brasil

O Brasil reúne condições para transformar resíduos agropecuários, industriais e urbanos em uma fonte estratégica de nutrientes para as lavouras. Esses materiais concentram aproximadamente 8,57 milhões de toneladas de nutrientes por ano, mas grande parte desse potencial ainda permanece fora do sistema produtivo.

Segundo Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), a recuperação desses nutrientes pode contribuir diretamente para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados e ampliar a segurança no abastecimento do agronegócio.

O aproveitamento em larga escala, entretanto, depende de avanços em logística, processamento, controle sanitário, padronização, regulamentação e distribuição regional.

Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras

A elevada dependência externa está entre os principais desafios da agricultura nacional. Atualmente, aproximadamente 85% do nitrogênio, do fósforo e do potássio — componentes do NPK — empregados nas lavouras brasileiras vêm do mercado internacional.

Em 2025, as entregas de fertilizantes no país alcançaram o recorde de 49,1 milhões de toneladas. Desse volume, cerca de 85% foram provenientes de importações.

Essa concentração torna os custos de produção mais vulneráveis à valorização do dólar, aos conflitos geopolíticos, às restrições comerciais e a possíveis interrupções nas cadeias internacionais de fornecimento.

O Plano Nacional de Fertilizantes estabelece como meta reduzir a participação dos produtos importados para uma faixa entre 45% e 50% da demanda brasileira até 2050. Para avançar nessa direção, o país precisará combinar diferentes soluções nacionais, como fertilizantes orgânicos e organominerais, coprodutos agroindustriais, agrominerais e bioinsumos.

Fertilizantes organominerais podem atender 25% da demanda por NPK

Entre as alternativas disponíveis, os fertilizantes organominerais apresentam capacidade estimada para suprir até 25% da demanda brasileira por NPK.

Os coprodutos e resíduos agrícolas também poderiam fornecer uma parcela equivalente das necessidades nacionais de fósforo. Já os agrominerais teriam potencial para responder por até 10% do potássio utilizado no país.

No segmento biológico, os bioinsumos poderiam atender aproximadamente 10% da demanda por nitrogênio e fósforo.

Essas soluções não devem eliminar o uso dos fertilizantes minerais convencionais. A integração entre diferentes fontes, porém, pode tornar a adubação mais eficiente, diversificar o fornecimento de nutrientes e reduzir a exposição dos produtores às oscilações do mercado internacional.

Resíduos podem fornecer até 30% dos nutrientes consumidos no país

A disponibilidade de matéria-prima é um dos principais diferenciais brasileiros. As atividades agropecuárias e as indústrias de processamento geram cerca de 3,85 bilhões de toneladas de resíduos por ano.

Esse material apresenta potencial para originar até 1,18 bilhão de toneladas anuais de fertilizantes orgânicos. Considerando os nutrientes passíveis de recuperação, a contribuição poderia corresponder a uma faixa entre 25% e 30% da demanda nacional.

O desafio não está, portanto, apenas na quantidade disponível. Para que esse volume chegue às propriedades rurais, será necessário transformar resíduos de diferentes origens em produtos seguros, estáveis, padronizados, economicamente viáveis e compatíveis com a aplicação mecanizada.

Mercado de biofertilizantes e produtos orgânicos avança no Brasil

O crescimento das vendas mostra que novas tecnologias de nutrição vegetal já conquistam espaço no planejamento dos agricultores.

Em 2025, o mercado brasileiro de biofertilizantes movimentou R$ 883 milhões, resultado 77% superior ao registrado no ano anterior. Os fertilizantes orgânicos faturaram R$ 1,081 bilhão, com crescimento de 58,5%.

O segmento de fertilizantes organominerais, por sua vez, movimentou R$ 2,810 bilhões, avanço de 9% na comparação com 2024.

A expansão reflete a procura por tecnologias que conciliem produtividade, eficiência agronômica e destinação adequada para materiais que poderiam se tornar passivos ambientais sem o tratamento correto.

Transporte de resíduos ainda compromete a viabilidade econômica

Apesar do elevado potencial, a logística permanece como um dos maiores obstáculos para o setor. Os resíduos encontram-se dispersos pelo território nacional e, em muitos casos, apresentam alto teor de umidade e baixa concentração de nutrientes por tonelada.

Essas características aumentam o volume transportado e podem elevar o frete a níveis que inviabilizam o uso em lavouras distantes das fontes geradoras.

Uma das alternativas é organizar cadeias regionais de aproveitamento, com unidades de processamento instaladas próximas às propriedades, agroindústrias, criações animais e centros urbanos onde os resíduos são produzidos.

A retirada de umidade e a concentração dos nutrientes podem reduzir o volume transportado. A granulação também favorece o armazenamento, a comercialização, a distribuição e a aplicação mecanizada dos fertilizantes.

Segurança sanitária e padronização são indispensáveis

A expansão do mercado depende de controles rigorosos sobre a composição e a qualidade dos produtos. Como a concentração de nutrientes varia de acordo com a origem do resíduo, cada material precisa passar por caracterização e tratamento específicos.

Também é necessário monitorar agentes patogênicos, metais pesados e outros possíveis contaminantes, garantindo que a aplicação agrícola não ofereça riscos aos solos, às plantas, aos animais ou à saúde humana.

O Brasil produz mais de 300 mil toneladas de lodo seco por ano. Com a ampliação dos serviços de saneamento, esse volume poderá dobrar até 2033.

O material pode ser aproveitado na agricultura, desde que receba tratamento adequado e cumpra integralmente os critérios sanitários e ambientais definidos pela legislação.

Matéria orgânica melhora fertilidade e retenção de água no solo

A reciclagem dos resíduos não se limita ao fornecimento de nutrientes. Esses materiais também podem devolver matéria orgânica e carbono aos solos agrícolas.

Estima-se que os resíduos disponíveis no país reúnam aproximadamente 89,1 milhões de toneladas de carbono orgânico, volume equivalente a cerca de 327 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

Nem todo esse carbono permanecerá armazenado, pois parte será estabilizada no solo e outra parcela retornará ao ciclo natural. Ainda assim, a incorporação de matéria orgânica pode gerar benefícios importantes para a produção.

Entre os principais ganhos estão a elevação da capacidade de troca de cátions, a maior retenção de água, a melhoria da estrutura física do solo e o estímulo à atividade biológica.

Em termos quantitativos, esse potencial pode colaborar com a recuperação dos cerca de 20 milhões de hectares de pastagens degradadas existentes no Brasil.

Investimentos e pesquisa podem acelerar produção regional

Transformar resíduos em fertilizantes competitivos exigirá atuação conjunta de empresas, produtores rurais, universidades, centros de pesquisa e poder público.

A instalação de unidades descentralizadas pode aproximar o processamento das fontes geradoras, reduzir custos logísticos e criar mercados regionais de nutrientes. Incentivos fiscais e linhas de financiamento também podem aumentar a viabilidade dos projetos.

A pesquisa aplicada será essencial para desenvolver processos mais eficientes, assegurar a qualidade dos produtos e adaptar as tecnologias às condições de clima, solo e cultivo encontradas nas diferentes regiões brasileiras.

O setor também precisará de informações confiáveis sobre disponibilidade de matéria-prima, demanda regional, custos de processamento, concentração de nutrientes e viabilidade de transporte. Esses dados serão determinantes para orientar novos investimentos.

Fertilizantes orgânicos podem fortalecer autonomia do agronegócio

O Brasil já dispõe de matéria-prima abundante, empresas especializadas e um mercado em expansão. O avanço da cadeia depende agora da criação de condições para que fertilizantes orgânicos, organominerais e bioinsumos cheguem às lavouras com regularidade, segurança, qualidade e preços competitivos.

A reciclagem de resíduos não substituirá completamente os fertilizantes minerais ou as importações. A estratégia, contudo, pode diversificar o abastecimento, melhorar a eficiência do manejo nutricional, reduzir passivos ambientais e diminuir a vulnerabilidade da agricultura brasileira às crises internacionais.

Ao converter resíduos em nutrientes, o país pode avançar simultaneamente em economia circular, recuperação dos solos e segurança produtiva, fortalecendo a autonomia do agronegócio no longo prazo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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