Demanda por fertilizantes no Brasil pode cair 8% em 2026, com crédito apertado e preços elevados
RaboResearch reduz projeção de entregas para 45,1 milhões de toneladas; importações de ureia e MAP recuam, enquanto conflitos no Oriente Médio ampliam riscos para o abastecimento
Publicado em: 02/09/2026 às 20:00hs
O mercado brasileiro de fertilizantes deve encerrar 2026 com forte redução nas entregas, pressionado pelo endividamento dos produtores rurais, pela menor capacidade de compra e pela valorização dos principais nutrientes no mercado internacional.
A projeção da RaboResearch aponta que as entregas de fertilizantes no Brasil podem alcançar 45,1 milhões de toneladas neste ano. Caso a estimativa se confirme, o volume ficará aproximadamente 8,1% abaixo do recorde de 49,1 milhões de toneladas registrado em 2025.
O cenário combina restrições financeiras dentro das propriedades rurais, preços elevados dos insumos e riscos relacionados ao abastecimento global. As tensões no Oriente Médio e as incertezas sobre a movimentação de cargas pelo Estreito de Ormuz permanecem como importantes fatores de volatilidade, principalmente para os fertilizantes nitrogenados e fosfatados.
RaboResearch reduz projeção para o mercado brasileiro
A estimativa para as entregas de fertilizantes no Brasil foi revisada para baixo duas vezes ao longo de 2026. Em abril, a previsão havia sido reduzida para 47 milhões de toneladas. Em julho, passou para os atuais 45,1 milhões de toneladas.
O relatório alerta que uma nova redução ainda não está descartada, especialmente se as dificuldades logísticas e geopolíticas no Oriente Médio persistirem.
O resultado esperado para 2026 interrompe o forte desempenho observado no ano passado. Em 2025, mesmo diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelo agronegócio, as entregas brasileiras atingiram o recorde de 49,1 milhões de toneladas, crescimento de 8% em relação a 2024.
Agora, o ambiente é diferente. A inadimplência elevada e a necessidade de redução do endividamento estão levando os agricultores a priorizar o corte de custos e a reorganização do fluxo de caixa.
Segundo a RaboResearch, esse processo de ajuste financeiro ainda pode continuar por aproximadamente 18 meses, mantendo os investimentos em insumos sob pressão.
Importações de ureia caem 31% no primeiro semestre
A perda de poder de compra do produtor já aparece nos números das importações. No primeiro semestre de 2026, o Brasil importou 31% menos ureia do que no mesmo período do ano anterior.
Quando a comparação considera a quantidade efetiva de nitrogênio presente nos produtos adquiridos, a redução foi de aproximadamente 22%.
A queda nas compras preocupa porque atrasos na chegada da ureia podem representar um risco para a segunda safra de milho, cujo plantio começa em janeiro de 2027. O milho safrinha exige volume relevante de fertilizantes nitrogenados, especialmente em regiões de alta produtividade.
Apesar desse risco, a relação de troca da ureia apresentou recuperação após atingir o pior nível em abril. O índice de acessibilidade do produto passou para 0,19 em julho, o que pode estimular uma retomada das aquisições nos próximos meses.
A expectativa é de que os importadores brasileiros elevem gradualmente as compras até o fim do ano, reduzindo parte da diferença em relação aos volumes registrados em 2025.
MAP recua 24% e produtor pode utilizar reserva de fósforo do solo
A situação dos fertilizantes fosfatados é considerada mais complexa. As importações brasileiras de MAP caíram 24% no primeiro semestre de 2026 na comparação anual.
A redução foi parcialmente compensada pela maior entrada de superfosfato triplo, o TSP, cujas compras cresceram cerca de 40%. Quando os volumes são convertidos em quantidade de fósforo, expressa em P₂O₅, a retração ficou próxima de 8%.
Os preços internacionais dos fosfatados continuam elevados, diminuindo o estímulo para uma recuperação significativa das importações de MAP.
Nesse contexto, parte dos agricultores poderá recorrer às reservas de fósforo acumuladas no solo, estratégia semelhante à adotada em 2022. Essa alternativa permite reduzir temporariamente a adubação fosfatada, mas não pode ser mantida por períodos prolongados sem impactos sobre a fertilidade e a produtividade das lavouras.
Enxofre mais caro pressiona preço dos fosfatados
A oferta de enxofre tornou-se um dos principais pontos de pressão sobre o mercado internacional de fosfatados. As exportações globais do produto caíram quase 40% no primeiro semestre de 2026.
O Oriente Médio responde por aproximadamente 43% das exportações mundiais de enxofre. Após as restrições à movimentação pelo Estreito de Ormuz, os embarques da região foram reduzidos pela metade.
Com menos produto disponível, o preço médio do enxofre chegou a US$ 733 por tonelada em 2026, valor 2,7 vezes superior à média registrada em 2025.
Como o enxofre é utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados, a valorização aumentou os custos industriais e limitou a produção. A alta da amônia, também afetada pelo conflito no Oriente Médio, adicionou mais pressão sobre as despesas das indústrias.
A RaboResearch projeta que o consumo mundial de fosfatados recue 7% em 2026 e mais 5% em 2027. Caso a previsão seja confirmada, o mercado completará três anos consecutivos de queda na demanda.
Potássio apresenta cenário mais confortável
Entre os principais nutrientes utilizados pela agricultura, o potássio apresenta a situação mais equilibrada. As importações brasileiras cresceram 6% no primeiro semestre de 2026, favorecidas pela maior estabilidade das cotações internacionais.
No mercado global, as compras de potássio somaram 29,3 milhões de toneladas entre janeiro e maio, alta de 7% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior volume dos últimos anos.
Além do recorde brasileiro, a China ampliou as importações em 40%. Mesmo com o crescimento das compras, a demanda internacional continua moderada, o que pode favorecer uma redução gradual dos preços nos próximos meses.
A análise indica que o consumo mundial de potássio deve permanecer relativamente estável em 2026.
Conflito no Oriente Médio mantém ureia volátil
No mercado de nitrogenados, o conflito no Oriente Médio e as incertezas sobre a normalização dos fluxos comerciais pelo Estreito de Ormuz continuam direcionando os preços.
Entre janeiro e julho de 2026, o valor das importações globais de fertilizantes ficou 20% abaixo do observado no mesmo período de 2025. A redução evidencia tanto os problemas de oferta quanto a perda de capacidade de compra dos agricultores.
A retomada das exportações chinesas proporciona algum alívio, mas ainda não é suficiente para eliminar os riscos de abastecimento. A demanda da Índia e do Brasil também será decisiva para a formação dos preços até o fim do ano.
A projeção da RaboResearch indica queda de aproximadamente 5% no consumo mundial de ureia em 2026. Embora os preços estejam abaixo dos níveis extremos observados em 2022, as margens mais estreitas das atividades agrícolas continuam limitando as compras.
Fertilizantes seguem caros em relação às commodities
Os preços dos fertilizantes recuaram após os picos registrados nos primeiros meses do conflito no Oriente Médio. Entretanto, as cotações das commodities agrícolas e as margens dos produtores não avançaram na mesma proporção.
Por isso, a relação de troca continua desfavorável nas principais regiões produtoras. No Brasil, o índice de acessibilidade dos fertilizantes caiu de 0,05 em janeiro para -0,14 em abril.
Entre os nutrientes, os fosfatados apresentam a pior condição global, com índice de -0,59. Os nitrogenados aparecem em -0,17, enquanto o potássio está mais próximo da neutralidade, em -0,08.
A expectativa é de melhora gradual na capacidade de compra ao longo dos próximos 12 meses. Ainda assim, o índice deve permanecer em terreno negativo, sobretudo porque as restrições de oferta e a volatilidade internacional não devem desaparecer rapidamente.
El Niño amplia incertezas para o mercado agrícola
Além dos custos e das tensões geopolíticas, o clima será determinante para a demanda por fertilizantes nos próximos meses. A possível atuação do El Niño aumenta os riscos para a produção agrícola em diferentes regiões.
Os estoques mundiais de soja, milho, trigo e arroz permanecem historicamente elevados, apesar da perspectiva de redução em 2026. Esse volume funciona como proteção contra eventuais perdas de produção e limita altas mais duradouras nas cotações.
Por outro lado, problemas climáticos, aumento dos custos agrícolas e dificuldades nas exportações pelo Mar Negro podem sustentar as commodities próximas da parte superior das faixas recentes de negociação durante os próximos seis a 12 meses.
Para o produtor brasileiro, o desafio será equilibrar a necessidade de preservar a produtividade das lavouras com a redução dos investimentos. Cortes excessivos na adubação podem aliviar o caixa no curto prazo, mas aumentam os riscos de perda de rendimento e de esgotamento da fertilidade do solo nas safras seguintes.
Fonte: Portal do Agronegócio
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