Restauração de áreas degradadas avança lentamente no mundo, enquanto Brasil lidera esforços na América Latina
Apenas 10,4% da meta global saiu do papel; com 28% do território degradado, Brasil pretende recuperar mais de 163 mil km² até 2030 e transformar restauração ambiental em atividade econômica
Publicado em: 08/09/2026 às 09:00hs
A restauração de áreas degradadas avança em ritmo insuficiente para atender aos compromissos internacionais. Apenas 10,4% das áreas prometidas pelos países estão efetivamente contempladas por ações de restauração, reabilitação ou melhoria da gestão, o equivalente a 124,3 milhões de hectares.
Os dados constam no relatório “Global Land Restoration Achievement Database: 2026 Report”, apresentado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP 17).
O resultado revela uma diferença expressiva entre as iniciativas implementadas e a meta global de recuperar mais de 1 bilhão de hectares. Diante desse cenário, organizações empresariais e ambientais defendem que a restauração de ecossistemas seja ampliada e consolidada como uma atividade capaz de movimentar investimentos, gerar renda e fortalecer a segurança climática e alimentar.
Degradação do solo afeta mais de 3 bilhões de pessoas
O relatório aponta que aproximadamente 40% da superfície terrestre mundial já apresenta algum grau de degradação. O problema afeta diretamente mais de 3 bilhões de pessoas, com consequências para a disponibilidade de água, a produção de alimentos, a biodiversidade e a capacidade dos ecossistemas de enfrentar eventos climáticos extremos.
Embora o cenário global ainda seja preocupante, a América Latina registra avanços importantes. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que a região possui mais de 20 milhões de hectares submetidos a processos de recuperação.
As iniciativas latino-americanas abrangem áreas florestais, agrícolas e ecossistemas costeiros. Brasil, México e Colômbia aparecem entre os países de maior destaque nesse movimento.
Brasil tem 28% do território sob algum nível de degradação
No Brasil, cerca de 28% do território nacional apresenta algum grau de degradação. A área corresponde a aproximadamente 2,3 milhões de quilômetros quadrados, dimensão que evidencia a necessidade de ampliar os investimentos em conservação do solo e recuperação da vegetação.
Outro ponto de atenção é o avanço da desertificação e da semiaridez. Aproximadamente 39 milhões de brasileiros vivem em mais de 1.600 municípios localizados em áreas suscetíveis à desertificação.
O clima semiárido avança principalmente sobre a Caatinga e o Cerrado, com expansão estimada em cerca de 75 mil quilômetros quadrados por década. Além dos impactos ambientais, esse processo compromete atividades agropecuárias, abastecimento de água e condições econômicas das comunidades rurais.
Meta brasileira prevê recuperar mais de 163 mil km² até 2030
Durante a COP 17, o governo brasileiro apresentou sua Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra para 2030, conhecida pela sigla LDN.
O compromisso estabelece a recuperação ou restauração de mais de 163 mil quilômetros quadrados de áreas degradadas até o final da década. As ações previstas incluem:
- recomposição da vegetação nativa;
- implantação de sistemas agroflorestais;
- proteção de unidades de conservação;
- fortalecimento dos Territórios Indígenas;
- recuperação de áreas de preservação permanente;
- conservação de bacias hidrográficas.
Além da restauração direta, outros 3,51 milhões de quilômetros quadrados estão incluídos em iniciativas de prevenção, conservação e manejo sustentável. No total, as 17 submetas apresentadas pelo Brasil alcançam 3,67 milhões de quilômetros quadrados.
Restauração conecta clima, biodiversidade e produção agropecuária
A recuperação de áreas degradadas ocupa uma posição estratégica nas três principais agendas ambientais das Nações Unidas: biodiversidade, mudanças climáticas e combate à desertificação.
Solos conservados armazenam carbono, protegem a biodiversidade, reduzem processos erosivos e contribuem para a estabilidade das bacias hidrográficas. No agronegócio, também aumentam a resiliência das lavouras e pastagens diante de secas, enchentes e ondas de calor.
Para Tainah Godoy, coordenadora de Relações Institucionais da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o desafio está em transformar iniciativas bem-sucedidas em ações de grande escala.
Segundo ela, o Brasil dispõe de conhecimento técnico, organizações e experiências capazes de colocar o país em posição de liderança mundial. A restauração, avalia, pode integrar respostas para a desertificação, a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas, desde que os projetos ganhem escala territorial e econômica.
Monitoramento é essencial para atrair investimentos
Um dos principais desafios brasileiros é identificar com precisão quanto está sendo restaurado, onde as ações acontecem e quais resultados estão sendo alcançados.
O Observatório da Restauração, plataforma vinculada à Coalizão Brasil, atua na coleta, qualificação e divulgação de informações sobre projetos desenvolvidos no país. Atualmente, a iniciativa reúne dados reportados de mais de 200 mil hectares em processo de restauração.
O trabalho é realizado em parceria com coletivos presentes nos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.
Na avaliação de Tainah Godoy, a organização dos dados permite que a restauração deixe de ser formada apenas por projetos isolados e se transforme em uma agenda capaz de orientar políticas públicas, melhorar a segurança dos investimentos e estimular uma nova economia baseada na recuperação dos ecossistemas.
Cerrado recebe reconhecimento internacional da ONU
Entre as redes parceiras do Observatório está a Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum). A iniciativa “Araticum — Restauração do Cerrado Brasileiro” foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas, durante a COP 17, como uma das Referências da Restauração Mundial.
A rede articula mais de 180 organizações dos setores público e privado. Até o momento, já foram mapeados 27 mil hectares em restauração ativa, além da estruturação de uma cadeia de sementes nativas que reúne mais de 150 espécies do Cerrado.
A meta da Araticum é alcançar 2 milhões de hectares em processo de restauração até 2030.
Para Carol Sacramento, secretária executiva da organização, a COP 17 também ampliou o protagonismo das comunidades tradicionais, que estão entre as populações mais afetadas pela degradação ambiental e pelas mudanças climáticas.
Ela destaca que a próxima etapa será fortalecer a articulação entre governo, sociedade civil, comunidades e iniciativa privada para transformar a meta brasileira de Neutralidade da Degradação da Terra em resultados concretos.
Comunidades locais são decisivas para recuperar a Caatinga
Na Caatinga, a execução dos compromissos nacionais dependerá da participação direta das populações locais. Essa é a avaliação de Pedro Sena, conselheiro executivo da Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa).
Segundo ele, a meta nacional funciona como referência para integrar iniciativas locais e regionais, combinando restauração ambiental, agroecologia, conservação do solo e manejo integrado do fogo.
O representante da ReCaa também defende o monitoramento permanente dos compromissos. Acompanhamentos anuais serão fundamentais para medir a evolução das ações e verificar se o Brasil está avançando na conservação do solo e na recuperação das áreas degradadas.
Restauração pode abrir nova frente econômica no Brasil
A ampliação da restauração ambiental representa não apenas uma resposta aos problemas climáticos, mas também uma oportunidade econômica. O crescimento dessa agenda pode estimular cadeias de sementes e mudas nativas, assistência técnica, sistemas agroflorestais, serviços ambientais e geração de renda nas comunidades rurais.
Para alcançar esse potencial, entretanto, o Brasil precisará combinar planejamento territorial, informações transparentes, financiamento de longo prazo, participação social e segurança para investidores.
Com metas abrangentes e experiências reconhecidas internacionalmente, o país tem condições de assumir papel central na restauração de ecossistemas. O desafio será acelerar a execução dos compromissos e transformar milhões de hectares prometidos em áreas efetivamente recuperadas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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