Agricultura regenerativa reduz custos, protege a produção e atrai bilhões em investimentos no Brasil
Soluções Baseadas na Natureza, como plantio direto, agroflorestas e recuperação de nascentes, ampliam a resiliência climática no campo e oferecem retorno projetado de até 21,4% aos fundos de investimento
Publicado em: 31/08/2026 às 13:30hs
Produtores rurais brasileiros estão recorrendo à conservação da natureza para melhorar a produtividade, reduzir custos e proteger as propriedades contra secas, chuvas intensas e outros eventos climáticos extremos. Sistemas agroflorestais, plantio direto, cobertura permanente do solo, recuperação de nascentes e corredores ecológicos estão entre as práticas que ganham espaço no campo.
Conhecidas como Soluções Baseadas na Natureza (SBN), essas iniciativas conciliam produção agrícola, conservação da biodiversidade, segurança hídrica e geração de renda. O avanço do modelo já chama a atenção do mercado financeiro e posiciona o Brasil como um dos principais destinos mundiais para investimentos ligados à restauração, agricultura regenerativa e bioeconomia.
Estudo elaborado pela Capital for Climate em parceria com a Deloitte Brasil mostra que fundos de private equity e venture capital voltados às SBN trabalham com meta média de retorno de 21,4% em um período aproximado de dez anos. Nos instrumentos de crédito privado e dívida, a projeção média é de 12%, com maturidade de seis anos.
Os percentuais representam metas dos investidores e não uma rentabilidade garantida. Ainda assim, demonstram que os projetos ambientais começam a ser reconhecidos não apenas pelos benefícios ecológicos, mas também pelo potencial econômico.
Investimentos em Soluções Baseadas na Natureza podem chegar a US$ 18,8 bilhões
O mercado brasileiro de Soluções Baseadas na Natureza apresenta forte perspectiva de expansão. Segundo o levantamento da Deloitte Brasil e da Capital for Climate, os compromissos dos investidores poderão alcançar US$ 10,4 bilhões entre 2025 e 2027.
Até 2030, a projeção sobe para US$ 18,8 bilhões. Mais de US$ 2,1 bilhões já foram desembolsados por organizações financeiras em projetos relacionados à conservação, restauração e produção sustentável no país.
A pesquisa ouviu 34 organizações investidoras e 32 desenvolvedores de projetos. Até 2028, a expectativa é de que esses agentes administrem aproximadamente 2,7 milhões de hectares destinados à restauração, regeneração ambiental ou produção sustentável.
Quando as áreas de conservação são incluídas, o potencial supera 9,6 milhões de hectares. Os investimentos estão concentrados principalmente na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica.
Agricultura sustentável gera benefícios ambientais e econômicos
A expansão das SBN ocorre em meio à necessidade de adaptação da agricultura às mudanças climáticas. Períodos prolongados de seca, chuvas concentradas, temperaturas elevadas e perdas de solo aumentam os riscos para as lavouras e dificultam o planejamento das safras.
Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), práticas agrícolas insustentáveis estão entre os fatores associados à perda de biodiversidade, às mudanças do clima e à poluição.
Em sentido contrário, as Soluções Baseadas na Natureza promovem a proteção, a recuperação ou o manejo sustentável dos ecossistemas para enfrentar problemas sociais e econômicos. A proposta é gerar benefícios simultâneos para o meio ambiente, a economia e a qualidade de vida das populações.
De acordo com Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, muitas dessas práticas já estão presentes no cotidiano dos produtores brasileiros.
Sistemas agroflorestais, cobertura permanente do solo, recuperação de nascentes e manejo ecológico ajudam a conter a erosão, conservar a água e aumentar a capacidade das propriedades de suportar eventos climáticos extremos.
Árvores ajudam a regular o clima e conservar a água
A presença de árvores nas propriedades rurais exerce papel estratégico na regulação do microclima e na manutenção dos recursos hídricos.
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), uma árvore com aproximadamente dez metros de altura pode liberar até 300 litros de água por dia na atmosfera por meio da transpiração.
Esse processo contribui para a umidade do ar, a formação de chuvas e o equilíbrio climático. As raízes também favorecem a infiltração de água no solo, reduzem o escoamento superficial e ajudam a proteger nascentes e cursos d’água.
A integração de árvores com cultivos agrícolas ainda cria abrigo para polinizadores, inimigos naturais de pragas e outras espécies importantes para o equilíbrio dos sistemas produtivos.
Plantio direto reduz em 50% os custos com mão de obra e insumos
Em São José dos Pinhais (PR), a agricultora familiar Luciane Zielinski Grupinzaki cultiva hortaliças em uma propriedade de seis hectares. Metade da área é utilizada na produção, enquanto a outra parte permanece preservada com mata nativa, árvores frutíferas e nascentes protegidas.
Na lavoura, a produtora adotou o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), baseado no não revolvimento do solo, na cobertura permanente e na rotação de culturas.
A palhada protege os nutrientes e impede que a chuva carregue a camada mais fértil do terreno. Segundo Luciane, o sistema praticamente eliminou a erosão, reduziu a incidência de pragas e doenças e proporcionou queda de aproximadamente 50% nos custos com mão de obra e insumos.
Os benefícios também aparecem durante os períodos de estiagem. A cobertura diminui a evaporação, conserva a umidade e reduz a necessidade de irrigação. Quando ocorrem chuvas intensas, o solo protegido apresenta maior capacidade de absorção e menor risco de erosão.
Proteção do solo também melhora a qualidade dos rios
A cobertura permanente das lavouras gera benefícios que ultrapassam os limites das propriedades. Em áreas de solo exposto, a chuva pode transportar terra, fertilizantes e matéria orgânica para rios e córregos.
Esse processo aumenta a turbidez da água, favorece o assoreamento e pode elevar os custos de tratamento para o abastecimento da população.
Práticas como plantio direto, terraceamento, rotação de culturas, recomposição da vegetação ciliar e recuperação de nascentes ajudam a reduzir a perda de solo e a preservar a qualidade dos recursos hídricos.
Agrofloresta fortalece segurança hídrica após período de seca
Também na Bacia do Rio Miringuava, o produtor Leonardo Sena adotou um sistema agroflorestal após enfrentar uma seca severa em 2019.
O modelo foi implantado acima da mata ciliar e combina árvores, lavouras e biodiversidade na mesma área. A estratégia permitiu ampliar a cobertura vegetal e recuperar o equilíbrio hídrico sem interromper a produção agrícola.
Segundo o produtor, as árvores funcionam como estruturas naturais capazes de bombear água, proteger a fauna e a flora e contribuir para a formação de um ambiente mais úmido.
Os benefícios alcançam propriedades vizinhas e outras áreas da bacia hidrográfica, já que a conservação da água depende do manejo integrado de todo o território.
Turismo rural transforma natureza em ferramenta de educação
A produtora Alexandra Leschnhak ampliou o alcance das Soluções Baseadas na Natureza ao integrar agricultura, turismo rural e educação ambiental no Rancho Caminho das Águas.
No local, estudantes participam de trilhas ecológicas, plantio de mudas, compostagem, produção de bioinsumos, manejo do solo e visitas a pomares com abelhas sem ferrão. As atividades também abordam fontes renováveis de energia, alimentação saudável e conservação dos rios.
A estrutura da propriedade foi planejada para transformar as práticas ambientais em instrumentos educativos. Além de preservar os recursos naturais, a iniciativa diversifica a renda e fortalece a sustentabilidade econômica do empreendimento.
Segundo Alexandra, o manejo sustentável reduz os custos da produção orgânica e permite demonstrar aos visitantes que muitas soluções para problemas humanos já podem ser encontradas nos processos naturais.
Agroecologia protege propriedade durante chuva extrema
No bairro rural de Estreito, em Cachoeiras de Macacu (RJ), o agricultor orgânico José Ataíde da Silva utiliza práticas agroecológicas há décadas no Sítio Balaio Orgânico.
A propriedade mantém o solo coberto com adubação verde, utiliza plantio direto, diversificação de culturas, corredores agroecológicos, recuperação de áreas de preservação permanente e bioinsumos produzidos na própria fazenda.
O manejo melhorou as condições químicas e biológicas do solo, ampliou a biodiversidade e permitiu o cultivo de produtos pouco comuns na região, como soja, edamame e pepino japonês.
A eficiência do sistema foi colocada à prova em outubro de 2023, quando uma chuva extrema acumulou 161 milímetros em apenas quatro horas. Enquanto áreas vizinhas registraram deslizamentos e alagamentos, a propriedade permaneceu preservada.
Para o produtor, a recuperação do solo tornou a produção mais previsível e menos vulnerável às oscilações climáticas.
Movimento Viva Água conecta campo, empresas e poder público
As propriedades citadas no Paraná e no Rio de Janeiro participam do Movimento Viva Água, iniciativa criada pela Fundação Grupo Boticário para promover segurança hídrica, conservação de bacias e adaptação climática.
Lançado em 2019, o movimento reúne produtores rurais, empresas, governos, universidades e organizações da sociedade civil em torno de estratégias de conservação e desenvolvimento econômico sustentável.
A iniciativa atua na Bacia do Rio Miringuava, no Paraná; na Região Hidrográfica da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro; nas bacias dos rios Joanes e Jacuípe, na Bahia; e no Sistema Cantareira, entre São Paulo e Minas Gerais.
O modelo demonstra que a conservação da natureza pode funcionar como parte da infraestrutura produtiva das propriedades. Ao proteger o solo, recuperar a vegetação e conservar a água, os agricultores reduzem riscos, fortalecem a produção e abrem novas oportunidades de renda e investimento no agronegócio.
Fonte: Portal do Agronegócio
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