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Produção de açúcar no Centro-Sul cai para 38,9 milhões de toneladas e déficit global aumenta

Chuvas reduzem moagem e qualidade da cana, enquanto tensões geopolíticas, petróleo acima de US$ 100 e medidas adotadas pela Índia sustentam as cotações internacionais


Publicado em: 17/09/2026 às 20:00hs

Produção de açúcar no Centro-Sul cai para 38,9 milhões de toneladas e déficit global aumenta

A produção de açúcar no Centro-Sul do Brasil foi revisada para 38,9 milhões de toneladas na safra 2026/27, redução de 400 mil toneladas em relação à estimativa anterior. O corte reflete a menor moagem de cana e a queda na concentração de açúcares recuperáveis, conhecida pela sigla ATR.

A nova projeção integra o Agro Mensal, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Com a revisão brasileira e os cortes esperados em outras regiões produtoras, o déficit mundial de açúcar foi ampliado para 2,1 milhões de toneladas no ciclo 2026/27.

O ambiente de menor oferta, combinado às tensões geopolíticas e à valorização do petróleo, impulsionou os preços do açúcar em Nova York. A continuidade do movimento de alta, entretanto, dependerá de uma recuperação mais consistente da demanda física.

Açúcar alcança média de 17,7 centavos de dólar em Nova York

O contrato nº 11 do açúcar bruto, com vencimento em outubro, atingiu média de 17,7 centavos de dólar por libra-peso nos 30 dias encerrados em 11 de setembro.

A valorização, iniciada em agosto, alcançou todos os vencimentos da curva futura. O movimento refletiu tanto os fundamentos específicos do mercado de açúcar quanto fatores macroeconômicos e geopolíticos.

A escalada do conflito no Oriente Médio levou o petróleo Brent a superar US$ 100 por barril. Como o petróleo mais caro pode aumentar a competitividade dos biocombustíveis e influenciar a destinação da cana para etanol, o mercado de açúcar também reagiu.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, os efeitos do El Niño e as preocupações com a dívida soberana dos Estados Unidos reforçaram a percepção de risco inflacionário global, favorecendo a valorização das commodities agrícolas, energéticas e demais produtos classificados como soft commodities.

Índia adota medidas para conter preços internos

A Índia ganhou destaque no mercado após o governo adotar medidas para controlar a inflação doméstica do açúcar.

Em 20 de agosto, o país autorizou a importação de 1 milhão de toneladas de açúcar bruto com isenção tarifária. Inicialmente, a autorização seria válida até 31 de outubro de 2026, mas o prazo foi posteriormente estendido para até dois meses após o registro da importação.

O governo indiano também permitiu que as refinarias redirecionassem para o mercado interno parte do açúcar originalmente destinado à exportação. A medida pode envolver aproximadamente 250 mil toneladas.

Além disso, houve redução do volume máximo de estoques permitido aos comerciantes até 30 de novembro.

As intervenções reduziram os preços domésticos, mas também diminuíram a atratividade das vendas para a Índia. Embora o país tenha autorizado a entrada de 1 milhão de toneladas, as tradings estimam que as importações efetivas poderão ficar entre 300 mil e 600 mil toneladas.

Produção brasileira fica 2,7 milhões de toneladas menor

No Brasil, a produção acumulada de açúcar entre abril e 16 de agosto ficou 2,7 milhões de toneladas abaixo do volume registrado no mesmo período de 2025.

As chuvas no Centro-Sul interromperam operações e reduziram o ritmo de processamento das usinas. A previsão de um mês de outubro também mais úmido adicionou suporte às cotações internacionais.

Com o novo cenário, o Itaú BBA reduziu a estimativa de moagem de cana no Centro-Sul de 644,8 milhões para 639,7 milhões de toneladas, recuo de 0,8%.

Ainda existe a possibilidade de o processamento se aproximar da previsão anterior caso as usinas prolonguem as operações até dezembro. Essa recuperação, porém, dependerá das condições climáticas e da capacidade operacional das unidades produtoras.

Queda do ATR limita produção de açúcar

Além do menor volume de cana processada, a qualidade da matéria-prima aparece como o principal obstáculo para a produção de açúcar na safra 2026/27.

A projeção de ATR foi reduzida de 138,3 para 136,4 quilos por tonelada de cana, queda de 1,4%. Com isso, o volume total de açúcares recuperáveis passou de uma estimativa anterior de 89,2 milhões para 87,3 milhões de toneladas, retração de 2,1%.

Segundo o relatório, a redução está associada ao clima chuvoso e ao elevado nível de impurezas da cana. O grande volume recebido pelas unidades industriais e a prioridade dada à velocidade da moagem também afetaram a qualidade da matéria-prima processada.

O menor ATR e a redução da moagem superam o efeito positivo do aumento do mix açucareiro, revisado de 46,2% para 46,8%.

Produção de açúcar recua mesmo com mix mais açucareiro

A maior destinação de cana para a fabricação de açúcar não será suficiente para compensar a perda de qualidade e a menor moagem.

A produção no Centro-Sul foi reduzida de 39,3 milhões para 38,9 milhões de toneladas, queda de 1%. A revisão representa 400 mil toneladas a menos em relação à projeção divulgada em julho.

A estimativa para a produção total de etanol também caiu, passando de 38,5 bilhões para 37,7 bilhões de litros. No caso do etanol de cana, a projeção foi reduzida de 28,2 bilhões para 27,3 bilhões de litros.

Os números reforçam o impacto das chuvas sobre o rendimento da matéria-prima e sobre a operação das usinas.

Déficit global de açúcar sobe para 2,1 milhões de toneladas

A revisão da safra brasileira, somada às expectativas de menor produção na América Central, nos Estados Unidos e na Austrália, ampliou o déficit mundial projetado para 2026/27.

O Itaú BBA passou a estimar uma diferença negativa de 2,1 milhões de toneladas entre produção e consumo. Na projeção anterior, o déficit era de 1,4 milhão de toneladas.

O ajuste reforça um cenário de oferta internacional mais restrita. Como o Centro-Sul brasileiro ocupa posição central nas exportações mundiais, qualquer redução de produção no país tende a provocar impactos relevantes na disponibilidade global.

Fundos aumentam posições compradas em açúcar

A mudança de percepção no mercado também foi observada no comportamento dos fundos de investimento.

Os agentes financeiros reverteram uma posição líquida vendida e passaram a ampliar as apostas na valorização do açúcar. Em 1º de setembro, a posição líquida comprada alcançou 238.684 contratos, maior nível desde janeiro de 2023.

O movimento ajudou a acelerar a alta das cotações, mas também pode aumentar a volatilidade. Uma eventual mudança nas expectativas macroeconômicas ou nos fundamentos de oferta e demanda poderá provocar liquidação de posições.

Demanda física será decisiva para novas altas

Apesar dos fatores de sustentação, o consumo mundial de açúcar permanece moderado. Por isso, uma valorização consistente acima dos níveis atuais dependerá da retomada da demanda física.

O déficit global, a menor produção brasileira, os riscos climáticos e as incertezas geopolíticas criam um ambiente favorável à manutenção das cotações. No entanto, compradores ainda cautelosos podem limitar avanços mais intensos.

Para o Itaú BBA, o mercado deverá acompanhar o ritmo da moagem no Centro-Sul, a qualidade da cana, as chuvas previstas para outubro, as compras efetivas da Índia e o comportamento dos fundos nas bolsas internacionais.

Fonte: Portal do Agronegócio

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