Açúcar sobe em Nova York com risco de menor oferta no Brasil e na Índia, mas câmbio limita preços no mercado interno
Chuvas excessivas no Brasil, estoques reduzidos na Índia e quebra na produção francesa de beterraba sustentam as cotações internacionais do açúcar; no mercado paulista, valorização do cristal é limitada pela desvalorização do dólar frente ao real.
Publicado em: 14/10/2026 às 11:35hs
O mercado internacional do açúcar encerrou o pregão em alta na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), impulsionado pelas preocupações com a oferta global, especialmente diante dos impactos do excesso de chuvas sobre a colheita de cana-de-açúcar no Brasil e da redução dos estoques indianos. No mercado físico paulista, por outro lado, o açúcar cristal branco apresentou apenas uma leve valorização, sem conseguir incorporar integralmente o movimento positivo das cotações externas.
Segundo análises do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), do Rabobank e informações sobre a produção europeia, o cenário reúne fatores de sustentação para os preços no curto prazo, mas também indica possíveis pressões de baixa no mercado internacional a partir do segundo semestre de 2027.
Açúcar fecha em alta na Bolsa de Nova York
Os contratos futuros de açúcar bruto negociados na ICE Futures US encerraram o pregão eletrônico com valorização. O contrato com vencimento em março de 2027 fechou cotado a 21,11 centavos de dólar por libra-peso, avanço de 0,26 centavo, equivalente a 1,24% em relação ao fechamento anterior.
Já o contrato com vencimento em maio de 2027 terminou o dia a 20,23 centavos de dólar por libra-peso, com alta de 1,15%.
O movimento positivo reflete as preocupações com a disponibilidade de açúcar no mercado internacional, em meio a condições climáticas adversas e à possibilidade de redução da oferta de importantes países produtores.
Chuvas no Brasil podem deixar parte da cana sem colheita
O excesso de chuvas nas regiões produtoras brasileiras continua no centro das atenções do mercado. Como o Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, eventuais dificuldades na colheita da cana-de-açúcar podem afetar a quantidade de matéria-prima disponível para processamento e limitar a oferta global do produto.
De acordo com o Rabobank, as condições climáticas aumentam as estimativas de volume de cana que poderá permanecer no campo sem ser colhido em 2026. Esse cenário contribui para sustentar os preços internacionais, diante da possibilidade de restrição na disponibilidade de açúcar brasileiro.
A evolução das condições climáticas e o ritmo da moagem nas usinas serão determinantes para avaliar a dimensão dos impactos sobre a produção e as exportações do país.
Estoques reduzidos na Índia ampliam preocupação com a oferta global
Outro fator de sustentação para as cotações é a situação da Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar.
Conforme avaliação do Rabobank, os estoques indianos estão cada vez mais reduzidos, o que levanta a possibilidade de o país precisar recorrer a importações nesta safra para atender à demanda interna.
Uma eventual entrada da Índia no mercado internacional como compradora pode alterar o equilíbrio entre oferta e demanda, especialmente em um período no qual a disponibilidade brasileira também enfrenta riscos relacionados às chuvas.
A combinação de possíveis restrições de oferta nos dois principais países produtores ajuda a explicar a valorização dos contratos futuros em Nova York.
Produção francesa de beterraba cai ao menor nível da série histórica
As preocupações com a oferta de açúcar também se estendem à Europa. O Ministério da Agricultura da França reduziu sua estimativa de produção de beterraba açucareira para a safra 2026/27 para 25,3 milhões de toneladas.
O volume representa uma queda de 30% em relação à temporada anterior e corresponde ao menor nível desde o início dos registros do ministério, em 1980.
A revisão negativa foi atribuída à seca registrada durante o verão europeu, que prejudicou o desenvolvimento das lavouras e reduziu o potencial produtivo da cultura.
A menor produção francesa acrescenta outro elemento de atenção ao mercado internacional, que acompanha simultaneamente os riscos climáticos nas principais regiões produtoras.
Dólar em queda limita valorização do açúcar cristal no Brasil
Apesar da alta dos contratos internacionais, os preços do açúcar cristal branco no mercado spot paulista registraram apenas um avanço moderado, mantendo a tendência observada desde o fim de julho.
Segundo o Cepea, a desvalorização do dólar frente ao real teve efeitos distintos sobre o mercado açucareiro. Para os exportadores brasileiros, a queda da moeda norte-americana reduz a receita obtida em reais com as vendas externas, diminuindo o incentivo para direcionar maiores volumes ao mercado internacional.
Ao mesmo tempo, o menor estímulo às exportações brasileiras contribui para sustentar as cotações internacionais, uma vez que pode restringir a disponibilidade do produto no exterior.
No mercado doméstico, entretanto, o efeito foi limitado. Mesmo com a valorização do açúcar em Nova York, a alta não se traduziu em uma paridade de exportação mais atrativa para o produtor brasileiro.
Com isso, o câmbio impediu que a valorização externa oferecesse suporte mais expressivo aos preços do açúcar cristal no mercado paulista.
Perspectiva para 2027 indica possível pressão de baixa
Embora os riscos de redução da oferta sustentem as cotações no curto prazo, o Rabobank avalia que as condições climáticas no Brasil também podem produzir efeitos diferentes ao longo do tempo.
Segundo o banco, as chuvas deste ano podem favorecer o desenvolvimento da cana-de-açúcar para a safra seguinte, aumentando o potencial produtivo brasileiro e contribuindo para pressionar os preços internacionais no segundo semestre de 2027.
Essa perspectiva indica que o mercado deverá equilibrar dois movimentos: de um lado, os riscos imediatos de restrição da oferta, provocados por dificuldades de colheita e estoques reduzidos; de outro, a possibilidade de recuperação da produção brasileira na próxima temporada.
A evolução do clima, o volume efetivamente colhido no Brasil, a necessidade de importação da Índia e a recuperação da produção europeia estarão entre os principais fatores a acompanhar nos próximos meses.
O que esperar do mercado de açúcar?
Para o setor sucroenergético brasileiro, o cenário combina oportunidades e desafios. A valorização internacional pode favorecer as receitas das exportações, mas o câmbio menos favorável reduz a conversão dos preços externos em reais e limita a competitividade das vendas brasileiras.
No curto prazo, a possibilidade de menor oferta no Brasil e na Índia, somada à quebra na produção francesa de beterraba, mantém o mercado internacional atento aos riscos de abastecimento.
No horizonte de 2027, porém, uma possível melhora da produção brasileira poderá alterar esse equilíbrio e aumentar a pressão sobre as cotações.
O comportamento dos preços do açúcar dependerá, portanto, da interação entre clima, disponibilidade global, demanda por importações e taxa de câmbio, fatores que continuarão influenciando as decisões comerciais das usinas, exportadores e compradores do produto.
Fonte: Portal do Agronegócio
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