Trigo no Sul do Brasil: problemas de qualidade e clima pressionam mercado e podem elevar importações
Colheita avança com preocupação sobre a qualidade dos grãos no Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina; oferta limitada de trigo tipo 1 e concorrência argentina dificultam negociações e sustentam a busca dos moinhos por produto importado.
Publicado em: 14/10/2026 às 11:53hs
O mercado brasileiro de trigo enfrenta um cenário de atenção na safra 2026/27, marcado por problemas de qualidade dos grãos, condições climáticas desfavoráveis e forte concorrência do produto argentino. Com o avanço da colheita na Região Sul, a disponibilidade de cereal dentro dos padrões exigidos pela indústria se tornou um dos principais fatores de preocupação para produtores, moinhos e demais agentes do setor.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a oferta restrita de trigo com qualidade adequada pode ampliar a necessidade de importações brasileiras nos próximos meses, mesmo após a redução das compras externas registrada nos últimos 12 meses.
O quadro é agravado por dificuldades na obtenção de trigo tipo 1, especialmente no Paraná, e por preocupações relacionadas às condições climáticas no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, a competitividade do trigo argentino limita o espaço para valorização do cereal nacional e influencia as decisões de compra da indústria moageira.
Trigo tipo 1 tem oferta restrita e preocupa a indústria
A disponibilidade de trigo com qualidade compatível com as exigências industriais é um dos principais desafios desta temporada. No Paraná, lotes colhidos recentemente apresentam problemas relacionados ao peso hectolítrico (PH) e ao índice de queda, indicadores importantes para avaliar as características do cereal e sua adequação ao processamento industrial.
Em algumas áreas paranaenses, os danos foram tão significativos que lavouras com grãos germinados chegaram a ser abandonadas. A situação reduz a disponibilidade de lotes de melhor qualidade e dificulta o cumprimento de contratos comerciais.
De acordo com informações de colaboradores consultados pelo Cepea, a escassez de trigo tipo 1 já provoca alterações nos acordos entre vendedores e compradores, além do adiamento de entregas.
Para os próximos meses, a limitação da oferta poderá levar os moinhos a ampliar a procura por trigo importado, principalmente quando o produto estrangeiro apresentar características técnicas e preços mais competitivos.
Rio Grande do Sul registra avanço inicial da colheita e preocupação com DON
No Rio Grande do Sul, a colheita alcançou 4% da área cultivada, com avanço pontual na região das Missões. Apesar do início dos trabalhos, a qualidade dos grãos permanece no centro das atenções do mercado.
Amostras analisadas têm apresentado níveis elevados de desoxinivalenol (DON), uma micotoxina associada à contaminação de cereais por determinados fungos. Foram registrados níveis entre 2.500 e 4.000, conforme os dados divulgados pela TF Agroeconômica.
A presença da substância exige atenção quanto à segurança e à destinação dos lotes, conforme os parâmetros aplicáveis a cada uso. Os resultados também reforçam a preocupação dos agentes com a qualidade do trigo disponível nesta safra.
As condições climáticas adversas durante o ciclo da cultura acrescentam incertezas sobre a produtividade e o padrão final do cereal. Com a colheita ainda em fase inicial, o comportamento das lavouras nas próximas semanas será determinante para avaliar a dimensão dos impactos sobre a oferta gaúcha.
Preços do trigo no Rio Grande do Sul
As indicações de mercado mostram diferenças entre o cereal da safra anterior e o trigo recém-colhido.
- Trigo da safra anterior: ofertas de R$ 1.600 por tonelada, enquanto compradores indicam R$ 1.550.
- Trigo da nova safra: negócios pontuais a R$ 1.400 por tonelada.
- Panambi: a saca permanece indicada a R$ 75.
- Trigo para alimentação animal: indicação de R$ 1.100 por tonelada no porto.
Os valores refletem condições distintas de qualidade, disponibilidade e negociação, não representando necessariamente preços uniformes para todo o estado.
Trigo argentino limita valorização do cereal brasileiro
A competitividade do trigo argentino é outro fator determinante para a formação dos preços no mercado nacional. Com alternativas de compra no exterior, os moinhos avaliam a relação entre custo, qualidade e disponibilidade antes de ampliar as aquisições do cereal brasileiro.
As indicações para o trigo argentino estão em US$ 305 por tonelada em Rio Grande e US$ 310 por tonelada em Canoas, conforme os dados da TF Agroeconômica.
Esses valores aumentam a pressão competitiva sobre o produto gaúcho e podem restringir a capacidade de os vendedores brasileiros obterem preços mais elevados, especialmente quando os lotes nacionais apresentam limitações de qualidade.
O movimento evidencia um dos principais desafios da safra: mesmo quando há produto disponível, nem todo o volume colhido atende às especificações exigidas pela indústria. Nesse contexto, o trigo importado pode ganhar espaço para complementar a oferta e atender às necessidades dos moinhos.
Santa Catarina pode ter redução na produção de trigo em 2026/27
Em Santa Catarina, a preocupação com a qualidade do cereal se soma à expectativa de redução da área cultivada e da produção na safra 2026/27.
De acordo com estimativas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), a área plantada com trigo no estado deve diminuir cerca de 35%. A produção está estimada em 243 mil toneladas, volume aproximadamente 37% inferior ao da temporada anterior.
A perspectiva de menor oferta regional pode aumentar a necessidade de abastecimento por meio de outras origens, sobretudo diante das exigências de qualidade da indústria moageira.
Os efeitos já aparecem nos custos de processamento. Moinhos catarinenses relatam reajuste de 11,5% nas tabelas de preços da farinha, em um ambiente de dificuldades para encontrar matéria-prima com as características necessárias.
A combinação entre redução da produção, limitações de qualidade e necessidade de buscar alternativas de abastecimento mantém o mercado catarinense sob pressão.
Importações de trigo podem ganhar força nos próximos meses
Apesar da redução das importações brasileiras nos últimos 12 meses, o comportamento das compras externas dependerá da disponibilidade efetiva de trigo que atenda às exigências da indústria nacional.
Segundo o Cepea, a oferta insuficiente de cereal com qualidade adequada pode elevar a necessidade de importações ao longo dos próximos meses. A avaliação ganha relevância diante dos problemas identificados na colheita do Sul e das dificuldades enfrentadas pelos moinhos para adquirir trigo tipo 1.
O movimento, entretanto, não depende apenas do volume produzido. A qualidade dos lotes, os preços relativos entre o cereal nacional e o importado, os custos logísticos e as condições comerciais também influenciam as decisões de compra.
No Paraná, a restrição de trigo de melhor padrão já interfere nos contratos. No Rio Grande do Sul, a qualidade e a evolução da colheita permanecem sob observação. Em Santa Catarina, a perspectiva de redução da produção reforça a preocupação com o abastecimento.
Qualidade será decisiva para o mercado brasileiro de trigo
O desempenho do mercado de trigo na safra 2026/27 será condicionado não apenas ao avanço da colheita, mas também à proporção do cereal que poderá ser destinada à moagem industrial dentro dos padrões exigidos.
A oferta limitada de trigo tipo 1, os problemas de qualidade identificados em diferentes regiões e a concorrência argentina formam um cenário desafiador para a comercialização nacional.
Para os produtores, a diferenciação dos lotes por qualidade tende a continuar relevante nas negociações. Para os moinhos, a prioridade será garantir matéria-prima adequada, equilibrando preços, especificações técnicas e regularidade de abastecimento.
Caso as dificuldades persistam durante o avanço da colheita, as importações poderão assumir papel ainda mais importante para complementar a oferta brasileira. O comportamento do clima, os resultados das próximas etapas da colheita e a competitividade do trigo estrangeiro serão fatores fundamentais para definir os rumos do mercado nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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