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Laticínios

Qualidade do leite ganha peso, mas volume ainda sustenta rentabilidade da indústria

Pagamento por sólidos, controle sanitário e rastreabilidade dos dados avançam na cadeia leiteira, enquanto escala permanece essencial para reduzir a ociosidade dos laticínios


Publicado em: 11/09/2026 às 09:30hs

Qualidade do leite ganha peso, mas volume ainda sustenta rentabilidade da indústria
Foto: EMBRAPA

A cadeia produtiva do leite atravessa uma mudança de paradigma no Brasil. Durante décadas, a matéria-prima foi valorizada principalmente pelo volume captado e comercializado. Agora, indicadores de qualidade, composição e rendimento industrial ganham espaço nas negociações entre produtores, cooperativas e laticínios.

A transformação, porém, não significa que a quantidade tenha perdido importância. Em artigo sobre o tema, a pesquisadora da área de Pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Natália Grigol, destaca que volume e qualidade desempenham funções complementares na organização e na rentabilidade da cadeia leiteira.

Enquanto a qualidade influencia o valor recebido por litro e o aproveitamento industrial, o volume ajuda a ocupar as fábricas, diluir custos fixos e sustentar a escala mínima das operações.

Sólidos determinam rendimento industrial do leite

Embora tradicionalmente comercializado por litro, o leite é uma emulsão formada por diferentes componentes. Entre eles, gordura e proteína possuem papel decisivo no rendimento da indústria e na fabricação de queijos, manteiga, leite em pó e outros derivados.

Dois volumes iguais de leite podem, portanto, apresentar valores industriais diferentes. Quanto maior a concentração de sólidos, maior tende a ser o aproveitamento da matéria-prima no processamento.

Essa lógica está levando empresas e produtores a observarem não apenas quantos litros são produzidos, mas também quanto cada litro efetivamente entrega em termos de gordura, proteína e rendimento.

Pagamento por qualidade avança na cadeia leiteira

A evolução das normas brasileiras contribuiu para consolidar esse movimento. Desde a Instrução Normativa 51, publicada em 2002, até as INs 76 e 77, de 2018, a regulamentação passou a estabelecer critérios mais rigorosos para avaliar o leite cru.

Parâmetros como Contagem Bacteriana Total (CBT), Contagem de Células Somáticas (CCS), sólidos totais e lactose anidra passaram a integrar a avaliação da matéria-prima.

Com essa evolução, o pagamento por qualidade ganhou força na relação comercial entre produtores e indústrias. O modelo permite oferecer bonificações ao leite que atende determinados padrões sanitários e de composição, ao mesmo tempo que pode aplicar descontos quando os resultados ficam abaixo das exigências estabelecidas.

Além de favorecer a indústria, o sistema estimula investimentos nas propriedades em higiene da ordenha, refrigeração, sanidade do rebanho, nutrição e melhoramento genético.

Laticínios priorizam qualidade na compra do leite

Uma pesquisa de campo realizada com representantes de 33 laticínios e cooperativas, responsáveis por aproximadamente 25% do leite industrializado no Brasil, mostra a relevância crescente desses critérios.

Entre os entrevistados, 75,8% concordaram, em algum grau, que a qualidade é mais importante do que a escala diária de produção no processo de aquisição do leite cru.

O resultado indica que os compradores passaram a avaliar com maior atenção a regularidade, a composição e as condições sanitárias da matéria-prima. Produtores capazes de entregar leite dentro dos padrões exigidos podem conquistar bonificações, prioridade na captação e maior poder de negociação.

Volume continua estratégico para ocupar os laticínios

Apesar do avanço da qualidade, a escala permanece fundamental para a viabilidade econômica das indústrias. Levantamentos setoriais indicam que os maiores laticínios brasileiros operaram, na última década, com utilização média de 65,5% da capacidade instalada.

Isso significa que aproximadamente 34,5% da estrutura permaneceu ociosa. Ao mesmo tempo, o potencial produtivo doméstico avançou apenas 1,4% no período, aumentando a disputa entre empresas pela captação de matéria-prima.

Nesse ambiente, garantir volume é necessário para manter as unidades em funcionamento e distribuir os custos fixos por uma quantidade maior de produtos. Em síntese, a qualidade valoriza o litro, mas o volume ajuda a pagar a estrutura industrial.

A importância de cada variável também depende do portfólio da empresa. Laticínios concentrados em derivados com maior demanda por gordura e proteína podem valorizar mais os sólidos, enquanto operações voltadas a produtos de grande escala dependem fortemente de regularidade e volume.

Mercado pode avançar do preço por litro para o valor dos sólidos

Em importantes mercados internacionais, a remuneração e as comparações de eficiência já consideram o valor dos sólidos presentes no leite, e não somente o preço por litro.

Indicadores baseados em leite corrigido para sólidos permitem comparar sistemas produtivos com composições diferentes e avaliar com mais precisão quanto da matéria-prima pode ser transformado em derivados.

No Brasil, a adoção mais ampla dessa lógica representaria uma continuidade do pagamento por qualidade. A mudança exigiria, entretanto, padronização, transparência e dados confiáveis sobre gordura, proteína e demais componentes.

Indicador do leite do Cepea entra em nova etapa

A discussão sobre qualidade também alcançou as informações utilizadas na formação do Indicador do Leite ao Produtor do Cepea. Segundo Natália Grigol, a questão central deixa de ser apenas o tamanho da amostra e passa a envolver a integridade, a rastreabilidade e a possibilidade de comprovação dos dados enviados.

No primeiro semestre de 2026, a base utilizada pelo centro representou quatro de cada cinco litros captados no Rio Grande do Sul e três de cada cinco litros em Minas Gerais, considerando a comparação com os números oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Após alcançar elevada representatividade nesses estados, o debate avançou para a necessidade de qualificar as informações recebidas.

Auditoria e tecnologia devem ampliar confiabilidade dos dados

Durante a Reunião Anual da Pesquisa do Preço do Leite ao Produtor, realizada em agosto, em Piracicaba, foram discutidas novas medidas para fortalecer a robustez do indicador.

Entre as propostas estão a implantação de auditorias mensais posteriores ao envio das informações, com exigência de comprovação documental, e a adoção de uma Interface de Programação de Aplicações (API) como meio padrão para transmissão dos dados.

O sistema permitiria incorporar criptografia, rastreabilidade e maior controle desde a origem das informações. O objetivo não seria limitar a participação dos colaboradores, mas assegurar que os dados utilizados no cálculo sejam íntegros, verificáveis e tecnicamente consistentes.

Uma eventual redução da amostra, provocada por exigências mais rigorosas, também deverá ser analisada. Uma base numerosa não garante, isoladamente, a qualidade do resultado quando as informações não podem ser comprovadas.

Confiança no indicador depende de responsabilidade compartilhada

O indicador do Cepea é utilizado como referência em negociações, contratos e análises do mercado de leite. A confiabilidade dessa ferramenta depende tanto da metodologia aplicada pelo centro de pesquisa quanto da qualidade das informações encaminhadas por laticínios, cooperativas e demais colaboradores.

Cabe ao Cepea estabelecer critérios, realizar verificações e aperfeiçoar continuamente o cálculo. Ao mesmo tempo, as organizações participantes precisam fornecer dados verdadeiros, completos e rastreáveis.

Essa coordenação é necessária para que o indicador represente corretamente o comportamento do mercado e continue sendo utilizado como referência pelos agentes da cadeia.

Volume e qualidade devem avançar juntos

O dilema entre quantidade e qualidade não exige a escolha definitiva de uma das duas variáveis. A cadeia leiteira precisa de volume para abastecer o mercado e utilizar a capacidade industrial, mas também necessita de qualidade para elevar o rendimento, valorizar os derivados e melhorar a remuneração dos produtores.

O mesmo princípio vale para as informações que sustentam a formação dos preços. Amostras representativas são importantes, mas devem estar acompanhadas de integridade, transparência e rastreabilidade.

O próximo estágio de amadurecimento do setor passa, portanto, pela combinação dessas duas frentes: produzir mais leite, com maior concentração de sólidos e melhor qualidade sanitária, enquanto se constroem indicadores baseados em dados confiáveis e verificáveis.

Fonte: Portal do Agronegócio

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