Fertilizantes: dependência externa volta a preocupar o agro brasileiro e pressiona custos de produção
Conflitos geopolíticos, oferta internacional mais restrita, logística, juros e custos internos aumentam a vulnerabilidade do Brasil; setor defende produção nacional, bioinsumos e tecnologia para elevar a produtividade
Publicado em: 17/08/2026 às 10:30hs
A dependência brasileira de fertilizantes importados voltou ao centro das preocupações do agronegócio. As recentes tensões geopolíticas internacionais reacenderam os alertas sobre a segurança de abastecimento e o impacto dos preços dos nitrogenados e fosfatados sobre os custos de produção.
O tema foi discutido durante o Fórum Mais Milho, promovido pela Abramilho, que reuniu representantes do setor produtivo, governo e indústria para avaliar os principais desafios da agricultura brasileira.
O diagnóstico é de que reduzir a vulnerabilidade do país exige uma estratégia ampla, combinando produção nacional de fertilizantes, diversificação de fornecedores, melhoria da infraestrutura, redução de custos, expansão dos bioinsumos e adoção de tecnologias capazes de aumentar a produtividade.
Dependência externa continua sendo ponto de vulnerabilidade
Segundo Maciel Silva, diretor-técnico adjunto da CNA, a crise provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia demonstrou a dimensão da dependência brasileira de insumos importados.
Naquele período, a participação dos fertilizantes importados chegou a representar cerca de 92% do consumo brasileiro, evidenciando a exposição do país às oscilações do mercado internacional.
Agora, as tensões na região do Golfo voltaram a gerar preocupação, especialmente no mercado de nitrogenados.
A região tem importância estratégica para o fornecimento de gás natural, matéria-prima fundamental para a fabricação de fertilizantes nitrogenados. A redução ou interrupção de fluxos pode provocar aumento de custos e alterar rapidamente a disponibilidade internacional.
Ureia volta a registrar pressão no mercado internacional
A preocupação com os nitrogenados ganhou força diante da valorização da ureia.
De acordo com Silva, os preços chegaram a níveis próximos dos observados em 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou forte ruptura no mercado internacional de fertilizantes.
O impacto, porém, não se limita à ureia.
Os fertilizantes fosfatados também enfrentam pressão devido à disponibilidade de enxofre, matéria-prima importante para a produção de ácido sulfúrico.
Segundo a avaliação apresentada no fórum, aproximadamente metade do enxofre produzido mundialmente é destinada à fabricação de ácido sulfúrico, enquanto cerca de 80% do ácido sulfúrico é utilizado na produção de fertilizantes fosfatados.
A menor disponibilidade, portanto, pode elevar os custos ao longo de toda a cadeia.
Brasil não deve enfrentar falta de fertilizantes no curto prazo
Apesar das preocupações com preços e oferta, a expectativa apresentada pelo setor é de que não haja falta generalizada de fertilizantes no mercado brasileiro no curto prazo.
A dinâmica de importação ajuda a explicar o cenário.
Cerca de 60% da internalização dos fertilizantes nitrogenados ocorre a partir de agosto, enquanto os fosfatados apresentam uma distribuição mais equilibrada durante o ano.
Para 2026, entretanto, Silva estima uma redução significativa nas importações de fosfatados, que poderiam representar apenas 20% a 25% do volume registrado em 2025.
Mercado global de fertilizantes muda fornecedores
A composição dos fornecedores internacionais também vem passando por mudanças.
A China, que historicamente não figurava entre os principais fornecedores do Brasil, ampliou significativamente sua participação em 2025, especialmente em nitrogenados e fosfatados de menor concentração.
Em 2026, porém, os embarques chineses voltaram a perder espaço.
A Rússia também sinalizou retenção de exportações para priorizar o abastecimento do próprio mercado, enquanto países como Turcomenistão e Nigéria ganharam importância no mapa global de fornecedores.
Para o Brasil, a diversificação é considerada estratégica para reduzir os riscos provocados por eventuais interrupções de oferta em grandes países produtores.
Produção nacional precisa ser competitiva
A ampliação da fabricação de fertilizantes no Brasil aparece como uma das alternativas para reduzir a dependência externa. No entanto, o aumento da produção doméstica não resolve o problema sozinho.
Para Lucas Beber, presidente da Aprosoja Brasil, é necessário avaliar a competitividade da indústria nacional antes de simplesmente substituir importações.
Entre os fatores que pressionam os custos estão energia, legislação trabalhista, infraestrutura e carga operacional.
A questão central, segundo essa avaliação, é garantir que o fertilizante produzido internamente consiga chegar ao produtor com preços competitivos em relação ao produto importado.
Logística brasileira ainda pesa sobre os custos
A infraestrutura também é apontada como um dos principais gargalos do agronegócio.
Beber destacou a redução da malha ferroviária brasileira como exemplo da perda de competitividade logística. Segundo ele, o país chegou a contar com aproximadamente 36 mil quilômetros de ferrovias na década de 1960, enquanto atualmente opera com menos de 10 mil quilômetros.
A consequência é o aumento dos custos de transporte e da dependência do modal rodoviário.
No caso dos fertilizantes, o problema é ainda mais relevante porque grande parte do produto chega ao país por portos e precisa ser transportada até as regiões produtoras.
Uma logística mais eficiente poderia reduzir custos tanto na chegada dos insumos quanto no escoamento da produção agrícola.
Bioinsumos ganham espaço como alternativa
Enquanto busca diminuir a dependência de fertilizantes importados, o Brasil também amplia o uso de bioinsumos e tecnologias biológicas na agricultura.
Beber destacou a evolução da fixação biológica de nitrogênio como exemplo de tecnologia capaz de reduzir a necessidade de fertilizantes nitrogenados.
Segundo ele, os avanços já permitiram uma redução próxima de um terço no uso desses produtos em determinadas situações, ao mesmo tempo em que os bioinsumos vêm ganhando espaço nas propriedades brasileiras.
O Brasil também se destaca internacionalmente pelo uso de soluções biológicas na agricultura.
A expansão dos bioinsumos pode contribuir para reduzir custos, diversificar as fontes de nutrientes e diminuir a dependência de produtos químicos, desde que as tecnologias sejam utilizadas de acordo com as necessidades de cada sistema produtivo.
Ambiente regulatório é decisivo para novas tecnologias
A ampliação do uso de bioinsumos e de outras tecnologias também depende de um ambiente regulatório capaz de estimular inovação e concorrência.
Mudanças que aumentem a burocracia ou dificultem a entrada de novas empresas podem elevar custos e retardar o acesso do produtor a novas ferramentas.
Para o setor produtivo, a velocidade de aprovação de tecnologias é especialmente importante diante da evolução de pragas, doenças e outros desafios agronômicos.
A avaliação é de que o Brasil precisa manter um ambiente favorável à inovação sem comprometer os critérios de segurança e eficiência.
Tecnologia pode ajudar produtor a diluir custos
Outro caminho apontado durante o Fórum Mais Milho é o aumento da produtividade.
Para Guilherme Hungeria, gerente de marketing de cultivos da Bayer, a tecnologia é fundamental para ampliar o potencial produtivo e melhorar a rentabilidade em um cenário de margens mais apertadas.
Entre as ferramentas estão genética, biotecnologia, defensivos, manejo e soluções digitais.
Um exemplo citado durante o evento foi uma área comercial de milho no oeste da Bahia que atingiu 328 sacas por hectare em sistema de sequeiro.
O resultado ilustra o potencial de elevação dos tetos produtivos quando diferentes tecnologias são utilizadas de forma integrada.
A evolução da produtividade brasileira de milho ao longo das últimas décadas também evidencia esse processo. O rendimento médio, que décadas atrás estava abaixo de 40 sacas por hectare, avançou significativamente com a combinação entre genética, manejo e tecnologia.
Crédito e juros continuam no radar do produtor
Além dos preços dos fertilizantes, o custo do dinheiro também influencia diretamente a capacidade de investimento do produtor rural.
Wilson Vaz de Araújo, secretário adjunto de Política Agrícola do Mapa, destacou que a redução das taxas de juros do Plano Safra ocorreu em um ambiente de forte restrição fiscal.
Segundo ele, a menor taxa do programa para a agricultura empresarial está em 8% ao ano para investimentos em armazéns de até 12 mil toneladas, enquanto a taxa máxima chega a 12,5% para custeio de grandes produtores.
Para alcançar essas condições, o governo destinou recursos e abriu mão de aproximadamente R$ 6 bilhões em outros programas de investimento.
O secretário também chamou atenção para outro problema: a existência de linhas de crédito não significa necessariamente que elas estejam chegando ao produtor.
A falta de informação sobre as opções disponíveis pode limitar o acesso aos recursos.
Endividamento rural limita acesso ao crédito
O endividamento dos produtores também interfere na capacidade de contratação de novos financiamentos.
Segundo Vaz de Araújo, a questão do endividamento rural precisou ser considerada durante a estruturação do Plano Safra.
Em julho, aproximadamente R$ 28 bilhões a R$ 30 bilhões em crédito rural já haviam sido contratados, com cerca de 60% desse volume por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs).
Entre as alternativas discutidas para ampliar o acesso ao financiamento está o fortalecimento de fundos garantidores, que podem reduzir riscos para as instituições financeiras e facilitar a concessão de crédito.
Produtividade será decisiva para competitividade
O debate mostra que a dependência de fertilizantes importados é apenas uma parte de um problema maior de competitividade do agronegócio brasileiro.
A redução da vulnerabilidade passa por produção nacional competitiva, diversificação de fornecedores, energia mais barata, infraestrutura eficiente, logística, crédito, ambiente regulatório adequado e inovação tecnológica.
Ao mesmo tempo, aumentar a produtividade permite que o produtor dilua parte dos custos fixos e variáveis por unidade produzida.
Nesse cenário, tecnologia e eficiência deixam de ser apenas ferramentas para elevar a produção e passam a representar mecanismos estratégicos para proteger as margens do produtor diante das oscilações dos preços dos insumos.
Agro brasileiro busca reduzir vulnerabilidade externa
O novo cenário internacional reforça uma preocupação que o agronegócio brasileiro já conhece: a forte dependência de fertilizantes importados deixa a produção nacional exposta a guerras, conflitos geopolíticos, mudanças nas políticas comerciais e interrupções na cadeia global de abastecimento.
A resposta, segundo as avaliações apresentadas no Fórum Mais Milho, não está em uma única medida.
O desafio é construir uma estratégia de longo prazo capaz de combinar produção doméstica competitiva, bioinsumos, novas tecnologias, infraestrutura, crédito e aumento da produtividade.
Para o agronegócio, a capacidade de produzir mais com menor dependência de insumos externos será cada vez mais importante para preservar a competitividade brasileira em um mercado global sujeito a novas ondas de instabilidade.
Fonte: Portal do Agronegócio
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