Soja sobe em Chicago, mas queda do dólar limita preços e trava negócios no Brasil
Clima irregular nos Estados Unidos, resultados do Pro Farmer Crop Tour e valorização dos derivados impulsionam a oleaginosa; no mercado brasileiro, produtores seguram a oferta diante do recuo do câmbio
Publicado em: 19/08/2026 às 11:30hs
Os contratos futuros da soja avançaram na Bolsa de Chicago nesta quarta-feira (19), sustentados pelas incertezas climáticas nos Estados Unidos, pelos primeiros resultados do Pro Farmer Crop Tour e pela valorização do farelo, do óleo de soja e do petróleo. No Brasil, entretanto, a forte queda do dólar reduziu parte do impacto positivo da bolsa internacional e limitou a realização de novos negócios.
A combinação entre Chicago em alta e câmbio em baixa aumentou a distância entre as ofertas dos compradores e os valores pedidos pelos produtores. Mesmo após a valorização registrada no mercado físico na terça-feira (18), os vendedores permaneceram cautelosos, mantendo a soja armazenada à espera de condições mais favoráveis.
Soja avança em Chicago com atenção ao clima dos EUA
Por volta das 7h30, no horário de Chicago, os principais contratos da soja acumulavam ganhos entre 10,50 e 11,25 pontos. O vencimento novembro de 2026 era negociado próximo de US$ 12,28 por bushel, enquanto março alcançava aproximadamente US$ 12,48 por bushel.
Em outro momento da sessão, o contrato novembro avançava 0,78%, cotado a US$ 12,26 1/4 por bushel. O movimento representava a quarta sessão consecutiva de valorização da oleaginosa.
Os derivados também apresentavam desempenho positivo. O óleo de soja registrava ganhos superiores a 0,85 ponto, enquanto o farelo avançava mais de 0,5% nos principais vencimentos. A alta do petróleo acrescentou suporte ao complexo de óleos vegetais, devido à relação do óleo de soja com o mercado de biocombustíveis.
Pro Farmer identifica lavouras irregulares
O mercado internacional concentra as atenções nos resultados do Pro Farmer Crop Tour, levantamento de campo realizado nas principais regiões agrícolas dos Estados Unidos. As primeiras avaliações apontaram lavouras mais irregulares e, em determinadas áreas, potencial produtivo inferior ao observado no ciclo anterior e à média dos últimos três anos.
Em Dakota do Sul, os participantes identificaram sinais de estresse provocado pelo calor. Em Ohio, o excesso de umidade afetou parte das áreas avaliadas, com contagens de vagens abaixo das referências históricas em alguns locais.
Indiana e Nebraska também apresentaram forte variabilidade entre as lavouras. Além dos impactos de períodos quentes e secos, algumas regiões registraram campos inundados após chuvas intensas e tempestades.
As avaliações em Illinois e no oeste de Iowa ganham importância especial por envolverem duas das principais regiões produtoras de soja e milho dos Estados Unidos. Os resultados poderão influenciar as expectativas para a produtividade norte-americana na safra 2026/27.
Apesar das projeções elevadas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o mercado considera que o rendimento final ainda depende das condições climáticas durante as últimas etapas de desenvolvimento das plantas.
Chuvas mantêm incerteza sobre produtividade
As previsões indicam novas precipitações no Meio-Oeste norte-americano, mas o efeito sobre as lavouras não deverá ser uniforme. Enquanto algumas áreas necessitam de umidade para reduzir o estresse provocado pelo calor, outras já enfrentam excesso de água e danos decorrentes de tempestades.
A demanda chinesa pela soja dos Estados Unidos também oferece sustentação às cotações. Paralelamente, o enfraquecimento do dólar diante de outras moedas aumenta a competitividade dos produtos agrícolas norte-americanos no mercado internacional.
Dólar cai e reduz efeito da alta de Chicago no Brasil
No mercado brasileiro, o principal fator de pressão foi o câmbio. O dólar comercial recuava 1,11%, cotado a R$ 5,1636, depois de encerrar a sessão anterior com alta de 0,43%, a R$ 5,2217.
O Dollar Index, que compara a moeda norte-americana com uma cesta de divisas, apresentava queda de 0,64%, aos 99,011 pontos.
A valorização do real reduz a conversão dos preços internacionais e pode neutralizar parte dos ganhos observados em Chicago. Com isso, compradores tendem a adotar uma postura mais conservadora, enquanto produtores resistem em aceitar valores menores.
Esse cenário deverá manter a comercialização lenta, com operações pontuais e spreads elevados entre as ofertas de compra e as pedidas dos vendedores.
Produtores seguram soja mesmo com preços firmes
Na terça-feira, os compradores mantiveram ofertas firmes para tentar atrair novos lotes, mas os produtores continuaram retraídos. De acordo com a Safras & Mercado, a melhora dos preços não foi suficiente para gerar negociações expressivas.
A retenção da oferta ocorre em um período no qual a safra 2025/26 está praticamente encerrada em importantes regiões. Sem a pressão imediata da colheita, produtores com disponibilidade financeira e capacidade de armazenamento conseguem escolher melhor o momento de comercialização.
Segundo a TF Agroeconômica, o mercado físico apresentou valorização em diferentes estados, influenciado pela recuperação externa da commodity e pela alta do dólar observada na sessão anterior. As condições logísticas, contudo, continuam provocando diferenças relevantes entre as praças.
Preços da soja no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, o encerramento técnico da safra reduziu a necessidade de vendas imediatas. As referências indicadas pela TF Agroeconômica chegaram a:
- Ijuí: R$ 137,00 por saca;
- Cruz Alta: R$ 137,00;
- Passo Fundo: R$ 138,00;
- Santa Rosa: R$ 145,00;
- Porto de Rio Grande: R$ 152,00.
Levantamento da Safras & Mercado mostrou referências mais elevadas em algumas localidades. Em Passo Fundo, a soja passou de R$ 144,00 para R$ 145,00 por saca. Em Santa Rosa, avançou de R$ 145,00 para R$ 146,00, enquanto no porto de Rio Grande subiu de R$ 152,00 para R$ 153,00.
As diferenças refletem horários, condições comerciais, prazos de pagamento, compradores consultados e modalidades de entrega consideradas em cada levantamento.
Paraná acompanha valorização da oleaginosa
No Paraná, os preços avançaram, mas os negócios permaneceram moderados. O Indicador Cepea/Esalq Paraná subiu 1,07%, alcançando R$ 143,21 por saca. Em Paranaguá, o indicador avançou 0,81%, para R$ 151,36.
Em Cascavel, a referência da Safras & Mercado passou de R$ 141,00 para R$ 142,00 por saca. No porto de Paranaguá, a cotação permaneceu em R$ 153,00.
A firmeza dos vendedores e a volatilidade do dólar continuaram dificultando a convergência entre compradores e produtores.
Santa Catarina acompanha recuperação internacional
Em Santa Catarina, o mercado refletiu a recuperação dos preços externos. No porto de São Francisco do Sul, a indicação chegou a R$ 149,00 por saca.
No interior catarinense, Palma Sola registrou R$ 130,50, enquanto Rio do Sul apresentou referência de R$ 130,00. A diferença em relação aos portos evidencia o peso do transporte e das condições logísticas na formação dos preços.
Mato Grosso enfrenta pressão dos fretes
Em Mato Grosso, as cotações permaneceram firmes, mas o custo do frete continuou limitando a competitividade, principalmente no norte do estado.
O transporte entre Sinop (MT) e Chapecó (SC) era estimado em R$ 492,22 por tonelada, equivalente a aproximadamente R$ 29,53 por saca. Esse custo reduz o valor recebido pelo produtor e amplia as diferenças regionais.
As referências informadas pela TF Agroeconômica foram:
- Campo Verde: R$ 138,50 por saca;
- Lucas do Rio Verde: R$ 137,00;
- Nova Mutum: R$ 137,00;
- Primavera do Leste: R$ 138,00;
- Rondonópolis: R$ 139,00;
- Sorriso: R$ 136,50.
Na avaliação da Safras & Mercado, Rondonópolis registrou avanço de R$ 136,00 para R$ 138,00 por saca.
Mato Grosso do Sul registra comercialização lenta
Em Mato Grosso do Sul, os preços também encontraram sustentação, embora o ritmo de comercialização permanecesse abaixo do esperado.
As indicações chegaram a R$ 142,50 por saca em Dourados e Maracaju. Campo Grande, Chapadão do Sul e Sidrolândia apresentaram referências de R$ 141,00.
Em outro levantamento, Dourados registrou alta de R$ 136,00 para R$ 137,00 por saca. A diferença entre as cotações está relacionada às condições específicas de cada negociação, como localização, qualidade, prazo e destino do produto.
Mercado da soja deve continuar volátil
O comportamento da soja no Brasil dependerá, principalmente, da relação entre Chicago, dólar e prêmios de exportação. Caso os contratos internacionais mantenham a trajetória de alta, poderão oferecer suporte às cotações domésticas. Entretanto, uma valorização mais intensa do real tende a limitar ou até anular esse movimento.
No exterior, o clima norte-americano, os próximos números do Pro Farmer Crop Tour, as projeções do USDA, a demanda chinesa e o desempenho do petróleo continuarão no centro das atenções.
No mercado físico brasileiro, a tendência é de liquidez restrita enquanto produtores mantiverem pedidas elevadas e compradores evitarem acompanhar integralmente a valorização internacional. Assim, mesmo com preços firmes, a soja poderá registrar apenas negociações pontuais no curto prazo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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