Produtividade da soja pode recuar na safra 2026/27 com avanço do risco climático
Conab prevê produção de 181,64 milhões de toneladas, enquanto cenário de El Niño muito forte aumenta a preocupação com déficit hídrico e perdas de potencial produtivo antes mesmo dos primeiros sintomas visíveis nas lavouras.
Publicado em: 22/09/2026 às 16:30hs
A produtividade da soja brasileira pode recuar na safra 2026/2027 diante do aumento dos riscos climáticos e de uma base de comparação elevada em relação ao ciclo anterior. A avaliação acompanha a projeção mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima produção de 181,64 milhões de toneladas de soja no novo ciclo, em uma área de aproximadamente 49,3 milhões de hectares.
O cenário climático ganha ainda mais relevância diante da previsão de El Niño muito forte, com probabilidade superior a 90% entre setembro e novembro. De acordo com o boletim climático mais recente elaborado por órgãos federais, incluindo Inpe e Inmet, a tendência é de permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.
Para especialistas do setor, o desafio não está apenas na ocorrência da estiagem, mas principalmente no momento em que o estresse hídrico atinge a planta e na duração da restrição de água.
Estresse hídrico pode reduzir produtividade antes dos sintomas
Segundo Reinaldo Bonnecarrere, vice-presidente da Elicit Plant para Brasil e América Latina, o comprometimento do potencial produtivo da soja pode começar antes que o produtor consiga identificar alterações visíveis nas plantas.
“Quando vemos a folha murchando ou mudando de aspecto, muitas vezes ela já passou por uma série de alterações fisiológicas”, afirma.
A observação é especialmente relevante durante períodos críticos do desenvolvimento da soja. A planta pode começar a modificar seu funcionamento para diminuir a perda de água antes de apresentar sinais evidentes de estresse.
Entre os primeiros mecanismos está o fechamento dos estômatos, estruturas responsáveis pelas trocas gasosas e pela transpiração. Embora essa resposta ajude a planta a economizar água, também pode reduzir a entrada de gás carbônico e afetar a fotossíntese.
Estudos conduzidos pela Embrapa Soja indicam que o déficit hídrico pode provocar queda de flores, abortamento de vagens e redução do peso dos grãos. Os efeitos tendem a ser mais significativos durante a fase reprodutiva, especialmente entre a floração e o enchimento dos grãos.
El Niño aumenta atenção sobre o clima na safra 2026/27
A distribuição das chuvas será um dos principais fatores para determinar o desempenho das lavouras brasileiras na safra 2026/27.
A projeção climática para o trimestre de setembro a novembro aponta possibilidade de chuvas acima da média em partes da Região Sul e abaixo da média no centro-norte do Brasil.
Nesse contexto, a ocorrência de períodos de estiagem pode provocar impactos diferentes de acordo com a região, o tipo de solo, a capacidade de retenção de água e a fase de desenvolvimento da cultura.
“Não se trata apenas de ter ou não chuva. É preciso saber quanto tempo dura o intervalo sem precipitação e em que fase a planta está naquele momento”, explica Bonnecarrere.
A preocupação aumenta porque a soja apresenta diferentes níveis de sensibilidade ao déficit hídrico ao longo do ciclo. Uma mesma quantidade de chuva pode ter efeitos distintos dependendo de quando ocorre e de como está distribuída.
Potencial produtivo pode ser perdido antes da lavoura “mostrar” o problema
Para Bonnecarrere, um dos principais desafios do manejo climático é reconhecer que uma lavoura visualmente saudável não necessariamente está livre de estresse.
“A planta não precisa estar murcha para estar sob estresse. Em determinadas fases, o potencial de rendimento pode estar sendo comprometido enquanto visualmente a lavoura ainda parece normal”, afirma.
A antecipação do manejo, portanto, passa a ser uma estratégia para reduzir os impactos de períodos de restrição hídrica.
Entre os fatores que podem contribuir para aumentar a resiliência das lavouras estão:
- escolha da genética;
- definição adequada da época de semeadura;
- estrutura e cobertura do solo;
- aumento da matéria orgânica;
- desenvolvimento do sistema radicular;
- disponibilidade e armazenamento de água;
- monitoramento das condições climáticas;
- planejamento do manejo de acordo com o estágio da cultura.
Tecnologia busca preparar a planta para períodos de estresse
Dentro dessa estratégia, a Elicit Plant trabalha com a plataforma EliTerra®, baseada em fitosteróis de origem vegetal e desenvolvida para atuar na preparação fisiológica das plantas antes e durante situações de estresse.
A tecnologia utiliza o conceito de priming, que busca estimular mecanismos naturais de resposta da planta para aumentar sua capacidade de enfrentar condições adversas.
A empresa ressalta, porém, que a tecnologia não substitui outras práticas agrícolas.
“Não substitui genética, solo, irrigação ou manejo. É mais uma camada dentro de uma estratégia de redução do risco produtivo”, afirma Bonnecarrere.
Soja e milho segunda safra ampliam impacto do risco climático
O efeito do clima sobre a soja pode ultrapassar os limites da própria cultura e atingir o planejamento do milho segunda safra.
Em sistemas de produção sucessivos, atrasos na implantação ou na colheita da soja podem reduzir a janela disponível para o plantio do cereal. A consequência pode ser uma exposição maior do milho a condições climáticas menos favoráveis durante seu ciclo.
A Conab estima que a produção brasileira de milho possa alcançar 148 milhões de toneladas na safra 2026/27, com expansão da área cultivada nas três safras.
Por isso, o planejamento climático precisa considerar o sistema produtivo como um todo.
“O produtor precisa traduzir esse risco em sacas por hectare. Quanto custa perder três, cinco ou dez sacas em uma área por causa de um período de estresse?”, questiona Bonnecarrere.
Segundo ele, a análise deve considerar simultaneamente produtividade potencial, preços, custos operacionais e exposição ao risco climático.
Ensaios apontam ganhos de produtividade, segundo a empresa
Dados divulgados pela Elicit Plant apontam resultados positivos em ensaios realizados com a tecnologia.
Na soja, o EliZon apresentou incremento médio informado pela empresa de 7,5% na produtividade, equivalente a aproximadamente 4,6 sacas por hectare.
No milho, avaliações realizadas ao longo de quatro safras registraram aumento médio de 9,4%, correspondente a cerca de 10,1 sacas por hectare, segundo os dados divulgados pela companhia.
Em áreas específicas de milho submetidas a múltiplas condições adversas, a empresa relata incrementos entre 15 e 17 sacas por hectare.
A companhia ressalta que os resultados podem variar de acordo com ambiente, genética, manejo, intensidade e momento do estresse climático. Portanto, os números apresentados correspondem aos resultados dos ensaios e não representam uma expectativa uniforme para todas as áreas produtoras.
Manejo antecipado ganha importância na safra 2026/27
O cenário projetado para a safra 2026/27 reforça a importância do acompanhamento climático e do planejamento antecipado das lavouras de soja.
Mesmo com expectativa de crescimento da produção brasileira, a possibilidade de redução do rendimento médio coloca o risco climático entre os principais fatores que podem determinar o resultado econômico do ciclo.
Para Bonnecarrere, o ponto central está em preservar o potencial produtivo antes que os efeitos do estresse se tornem irreversíveis.
“Chuva depois do estresse pode recuperar a planta, mas não necessariamente recupera o potencial produtivo que ela perdeu”, afirma.
Com a influência do El Niño sobre o regime de chuvas e a necessidade de conciliar soja e milho segunda safra, produtores terão de acompanhar não apenas o volume de precipitação, mas também a distribuição das chuvas, a duração dos períodos secos e o estágio de desenvolvimento das culturas.
Safra 2026/27: principais pontos de atenção
- Soja: produção estimada em 181,64 milhões de toneladas e área de 49,3 milhões de hectares.
- Clima: El Niño muito forte é apontado como um dos principais fatores de risco para o novo ciclo.
- Chuvas: previsão de volumes acima da média em partes do Sul e abaixo da média no centro-norte entre setembro e novembro.
- Estresse hídrico: pode afetar processos fisiológicos antes do aparecimento de sintomas visuais.
- Fase crítica: floração e enchimento de grãos estão entre os períodos de maior sensibilidade da soja à falta de água.
- Milho segunda safra: atrasos na soja podem reduzir a janela de plantio e aumentar a exposição climática do cereal.
- Manejo: genética, solo, cobertura, raízes, água e monitoramento climático permanecem como elementos centrais da estratégia de redução de riscos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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