El Niño ameaça plantio da soja e exige ajustes no manejo da safra de verão 2026/27
Previsão de calor intenso, chuvas irregulares no Centro-Oeste e excesso de umidade no Sul reforça a importância do planejamento da semeadura, tratamento de sementes e monitoramento das lavouras
Publicado em: 04/09/2026 às 14:00hs
A possibilidade de um El Niño de forte intensidade durante a safra de verão 2026/27 coloca os produtores de soja em alerta. As projeções indicam risco de chuvas irregulares, temperaturas acima da média e maior ocorrência de eventos extremos justamente no período de implantação e desenvolvimento das lavouras.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), com base em previsões da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), atualizou as perspectivas para o fenômeno. Segundo as projeções, existe probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro de 2026 e janeiro de 2027.
A NOAA também aponta 69% de possibilidade de o episódio alcançar intensidade recorde na série iniciada em 1950. Nesse cenário, as águas do Oceano Pacífico Equatorial poderiam registrar anomalias de temperatura iguais ou superiores a 2,5°C.
El Niño pode provocar chuva excessiva no Sul e seca no Centro-Oeste
Os efeitos do fenômeno não devem ocorrer de maneira uniforme nas diferentes regiões agrícolas do Brasil. Enquanto o Sul poderá enfrentar volumes de chuva acima da média, o Centro-Oeste tende a registrar precipitações abaixo do padrão histórico.
Norte e Nordeste também podem ser afetados pela redução das chuvas, com maior risco para áreas produtoras do Maranhão, Piauí e Pará. A previsão de temperaturas elevadas no segundo semestre aumenta ainda a possibilidade de ondas de calor severas.
Esse conjunto de fatores poderá interferir na definição da janela de semeadura, na germinação das sementes, no estabelecimento das plantas e no comportamento de pragas e doenças.
Para o engenheiro agrônomo e gerente de Marketing da BASF Soluções para a Agricultura, Alexandre Garcia Santaella, o produtor precisará adaptar o planejamento às condições específicas de cada região.
“O cenário exige atenção e foco em inteligência agronômica. O principal desafio é compreender que essa quebra de normalidade no clima demanda ajustes no manejo por parte do produtor para garantir a rentabilidade”, alerta.
Escolha das cultivares deve considerar clima e janela de plantio
A seleção das cultivares será uma das decisões mais importantes antes da semeadura da soja. Genética, duração do ciclo e características agronômicas precisam estar alinhadas ao ambiente produtivo e ao período escolhido para o plantio.
No Centro-Oeste e no Cerrado, a previsão de chuvas abaixo da média exige cautela. Precipitações isoladas podem elevar temporariamente a umidade do solo e criar uma falsa percepção de segurança, levando à antecipação da semeadura antes da consolidação do período chuvoso.
Plantar nessas condições aumenta o risco de falta de água durante a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas. A recomendação é acompanhar as previsões meteorológicas e verificar se existe umidade suficiente no perfil do solo.
No Sul, onde o El Niño costuma favorecer maior frequência e volume de chuvas, o desafio será aproveitar os períodos mais adequados para a entrada das máquinas. O excesso de umidade pode reduzir as janelas operacionais e prejudicar a qualidade do plantio.
Tratamento de sementes protege o início da lavoura
A utilização de sementes de alta qualidade e vigor ganha ainda mais importância diante das adversidades climáticas previstas para a safra de soja.
O tratamento de sementes contribui para proteger o potencial produtivo durante as primeiras fases do ciclo, reduzindo os riscos relacionados à germinação, ao estabelecimento das plântulas e ao ataque de pragas e patógenos.
Em áreas sujeitas a estiagens iniciais, o bom desenvolvimento do sistema radicular pode ajudar as plantas a explorar melhor a água disponível no solo. Em regiões com excesso de umidade, a proteção inicial auxilia no manejo de doenças capazes de comprometer a emergência e a formação do estande.
Calor pode acelerar desenvolvimento de pragas da soja
As temperaturas elevadas podem alterar a dinâmica das pragas durante a safra de verão. Entre os organismos que exigem atenção está a mosca-branca, cujo ciclo biológico pode ser acelerado pelo calor.
Nas áreas mais quentes e secas, o produtor também precisa manter o monitoramento fitossanitário. A redução da umidade não elimina o risco de doenças, e problemas como a cercosporiose podem ganhar relevância desde os estágios iniciais da soja.
No Sul, a combinação entre temperaturas favoráveis e chuvas frequentes pode ampliar a pressão de doenças fúngicas. A ferrugem-asiática permanece entre as principais ameaças, especialmente quando a umidade prolongada favorece a infecção e dificulta a realização das aplicações no momento adequado.
Monitoramento deve acompanhar todo o ciclo da soja
A vistoria frequente dos talhões será indispensável para identificar alterações rapidamente e adaptar o manejo às condições encontradas no campo.
No Centro-Oeste, períodos de calor combinados com menor disponibilidade hídrica podem aumentar o estresse fisiológico das plantas, limitar o crescimento das raízes e comprometer etapas decisivas, como florescimento e enchimento de grãos.
No Sul, o excesso de chuva poderá elevar a umidade das lavouras e criar condições para doenças, erosão, compactação e apodrecimento de raízes, vagens e grãos.
O acompanhamento técnico permite avaliar as particularidades de cada área e definir o momento mais adequado para as intervenções. Com um El Niño potencialmente intenso, decisões baseadas apenas no calendário podem não ser suficientes para proteger a produtividade.
Atraso na soja pode comprometer milho e algodão na segunda safra
Os impactos do clima sobre a soja não ficam restritos à safra de verão. A cultura ocupa posição central no calendário agrícola brasileiro e determina, em grande parte, a janela disponível para o cultivo de milho, algodão, feijão e trigo na sequência.
Eventuais atrasos na semeadura ou na colheita da soja poderão reduzir o período disponível para a segunda safra. Isso eleva a exposição das culturas posteriores a estiagens, baixas temperaturas ou chuvas durante a colheita, dependendo da região.
Por esse motivo, o planejamento deve considerar todo o sistema produtivo, e não apenas uma cultura isoladamente. Escolhas realizadas no início do ciclo podem influenciar os custos, o risco climático e o potencial produtivo das safras seguintes.
Tecnologia e assistência técnica ganham espaço diante do El Niño
A diretora de Marketing da BASF Soluções para Agricultura, Graciela Mognol, recomenda que os produtores procurem assistência técnica especializada para avaliar os possíveis efeitos do fenômeno sobre a soja e os demais cultivos da propriedade.
Segundo ela, a intensificação dos eventos climáticos e a evolução da resistência de pragas e doenças aumentam a importância da inovação no campo.
“As mudanças do clima estão impactando a agricultura, com tendência de termos fenômenos climáticos cada vez mais intensos. Além disso, sabemos que pragas e doenças criam resistências às tecnologias com o passar do tempo”, afirma.
Nesse contexto, novas moléculas de defensivos, biotecnologias aplicadas às sementes, ferramentas digitais, previsões meteorológicas e sistemas de monitoramento tornam-se aliados para reduzir incertezas e melhorar a tomada de decisão.
Diante das projeções para o El Niño, planejamento, informação e manejo preventivo serão determinantes para reduzir riscos, preservar o potencial produtivo da soja e evitar que problemas na safra de verão comprometam todo o calendário agrícola de 2026/27.
Fonte: Portal do Agronegócio
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