Custo da soja sobe para R$ 8,17 mil por hectare e rentabilidade deve cair 35% em Mato Grosso
Projeções do Imea e do Senar MT apontam margens mais apertadas para soja e milho na safra 2026/27; algodão, gergelim e feijão surgem como alternativas de diversificação
Publicado em: 11/09/2026 às 10:40hs
O aumento dos custos de produção, a expectativa de menor produtividade e a volatilidade das commodities devem pressionar a rentabilidade agrícola de Mato Grosso na safra 2026/27. Para a soja, o custo total está projetado em R$ 8.171,41 por hectare, alta de 16,69%, enquanto o indicador operacional de rentabilidade deve recuar 35,05% frente ao ciclo anterior.
Os números fazem parte do Projeto Custo de Produção Agropecuário de Mato Grosso (CPA MT), desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar MT) e pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Os resultados foram apresentados na quarta-feira (9) a produtores rurais de Brasnorte.
O estudo reúne informações sobre despesas de implantação, custos operacionais, receitas e margens projetadas para diferentes culturas e sistemas produtivos. Os dados servem como referência para que os produtores comparem o desempenho das propriedades e ajustem o planejamento da próxima temporada.
Área de soja cresce, mas produtividade deve recuar
A área cultivada com soja em Mato Grosso deverá alcançar 13,04 milhões de hectares na safra 2026/27, expansão de apenas 0,25%. Apesar do avanço territorial, o Imea projeta queda de 5,43% na produtividade, estimada em 62,44 sacas por hectare.
Com o menor rendimento, a produção mato-grossense de soja deverá recuar 5,19%, para 48,88 milhões de toneladas.
O desempenho esperado contrasta com a elevação das despesas. O custeio da lavoura chegou a R$ 4.323,22 por hectare, aumento de 3,39%. O Custo Operacional Efetivo (COE), que reúne os desembolsos diretamente relacionados à atividade, está calculado em R$ 6.012,39 por hectare.
Já o Custo Total, que inclui depreciação e custo de oportunidade do capital empregado, deve alcançar R$ 8.171,41 por hectare, avanço de 16,69%.
Receita da soja não cobre o Custo Total
De acordo com as projeções do CPA MT, a receita bruta esperada para a soja não será suficiente para cobrir o Custo Total da produção. Isso significa que, embora a atividade ainda possa gerar resultado operacional positivo, o retorno projetado não remunera integralmente todos os recursos utilizados pelo agricultor.
O Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Lajida) da soja está estimado em R$ 1.069,47 por hectare. O valor representa redução de 35,05% em comparação com a safra anterior e de 53,50% diante da média das últimas cinco temporadas.
Para a analista de custos de produção do Imea, Milena Habeck, o produtor precisa acompanhar especialmente os preços e a produtividade para avaliar a rentabilidade efetiva ao longo do ciclo.
Segundo ela, as margens permanecem positivas quando se considera o Custo Operacional Efetivo, embora em níveis mais apertados. Quando todos os componentes do Custo Total são incorporados, entretanto, a receita projetada deixa de remunerar completamente a atividade.
Comercialização antecipada da soja avança em Mato Grosso
Mesmo diante da perspectiva de redução das margens, a comercialização antecipada da soja segue avançada no estado. Até agosto de 2026, os produtores mato-grossenses haviam negociado 39,12% da produção estimada para 2026/27.
O ritmo supera o observado no mesmo período da temporada anterior e mostra que parte dos agricultores busca reduzir a exposição às oscilações de preços e garantir receitas antes da colheita.
A venda antecipada, contudo, exige planejamento criterioso. Além de assegurar preços que cubram os custos, o produtor precisa considerar os riscos relacionados à produtividade, ao clima e ao cumprimento dos volumes contratados.
Rentabilidade do milho pode despencar 88%
O cenário também é desafiador para o milho de segunda safra. Depois de Mato Grosso encerrar o ciclo 2025/26 com produção recorde de 58,04 milhões de toneladas e produtividade média de 130,11 sacas por hectare, os indicadores apontam retração para a nova temporada.
Na safra 2026/27, a área plantada deverá crescer 0,59%, alcançando 7,48 milhões de hectares. A produtividade, porém, está projetada em 119,64 sacas por hectare, queda de 8,05%.
Com isso, a produção estadual de milho poderá recuar para 53,68 milhões de toneladas.
O custeio do milho de alta tecnologia deverá atingir R$ 3.778,76 por hectare, aumento de 13,83%, pressionado especialmente pelos fertilizantes. O Custo Total está estimado em R$ 7.376,08 por hectare.
A receita bruta projetada, de R$ 5.388,93 por hectare, não cobre o Custo Operacional Efetivo e fica R$ 1.987,15 abaixo do Custo Total. O Lajida deve cair 88,16% em relação à temporada anterior, para apenas R$ 122,26 por hectare.
Etanol amplia consumo interno de milho
Apesar das margens reduzidas, o milho encontra suporte na expansão da demanda dentro de Mato Grosso. O consumo estadual está projetado em 27,04 milhões de toneladas na safra 2026/27, crescimento de 16,23%.
O avanço deverá ser impulsionado principalmente pelas indústrias de etanol de milho, que vêm transformando a dinâmica de comercialização do cereal no estado.
A maior demanda local reduz a dependência dos canais tradicionais de exportação e cria alternativas para o escoamento da produção. Ainda assim, o aumento do consumo não elimina os riscos relacionados aos custos dos fertilizantes, à produtividade e às oscilações das cotações.
Soja com algodão apresenta maior rentabilidade projetada
Diante do enfraquecimento das margens do milho, o CPA MT avaliou diferentes combinações de culturas como alternativas para o produtor.
O sistema soja seguido de algodão apresenta Lajida projetado de R$ 4.273,64 por hectare, resultado 258,61% superior aos R$ 1.191,73 estimados para a sucessão soja e milho.
Apesar da rentabilidade potencialmente maior, o algodão exige investimento inicial elevado, estrutura operacional específica e maior capacidade para administrar riscos produtivos e comerciais. Por isso, a substituição não é indicada para todas as propriedades.
Outra opção avaliada é o sistema soja seguido de gergelim, cujo Lajida está projetado em R$ 1.718,48 por hectare. O resultado também supera a margem esperada para a combinação entre soja e milho.
Feijão se destaca, enquanto cana registra margem negativa
Entre as culturas analisadas, o feijão de terceira safra apresenta uma das perspectivas mais favoráveis. O Lajida está estimado em R$ 2.832,97 por hectare, crescimento de 216,60%.
O avanço é atribuído principalmente à valorização do preço médio de venda, projetado em R$ 297,48 por saca. O resultado, entretanto, dependerá da manutenção das cotações e das condições produtivas ao longo do ciclo.
Na direção oposta, a cana-de-açúcar enfrenta deterioração da rentabilidade. O preço projetado da tonelada recuou 22,96%, para R$ 123,38, pressionando o resultado econômico da atividade.
O Lajida estimado para a cana é negativo em R$ 698,08 por hectare, indicando a necessidade de revisão dos custos, dos contratos e da eficiência produtiva.
Estudo ajuda produtor a planejar a safra 2026/27
Para o diretor de Relações Institucionais da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Ronaldo Vinha, os indicadores do CPA MT auxiliam o produtor a compreender o cenário econômico e tomar decisões com mais segurança.
O presidente do Sindicato Rural de Brasnorte, Sandro Manosso, também destacou a importância de comparar os números estaduais com os resultados de cada propriedade. Custos acima da média ou produtividade abaixo das referências podem indicar a necessidade de revisar o manejo, as compras de insumos e a estratégia comercial.
O estudo mostra que a safra 2026/27 exigirá controle rigoroso dos desembolsos e gestão ativa dos riscos. Preços das commodities, clima, produtividade e custo dos fertilizantes serão determinantes para a rentabilidade da soja e do milho em Mato Grosso.
Nesse ambiente, alternativas como diversificação de culturas, comercialização antecipada, proteção de preços e revisão dos sistemas produtivos ganham importância. A escolha deve considerar não apenas a receita potencial, mas também o investimento necessário, a estrutura disponível e a capacidade financeira de cada produtor.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias