Milho: exportações recuam, guerra entre Rússia e Ucrânia sustenta Chicago e mercado brasileiro exige cautela nas vendas
Embarques brasileiros de milho ficaram abaixo de 2025 em julho, enquanto avanço da colheita, demanda cautelosa e cenário internacional mantêm os preços sob pressão e aumentam a importância de uma comercialização escalonada
Publicado em: 10/08/2026 às 11:20hs
O mercado de milho iniciou a semana sob influência de fatores domésticos e internacionais que mantêm os agentes em alerta. Enquanto as exportações brasileiras seguem abaixo do ritmo registrado em julho de 2025 e a colheita da segunda safra amplia gradualmente a oferta, as cotações internacionais ganharam sustentação com a escalada dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, movimento que também favoreceu os futuros negociados em Chicago.
No mercado brasileiro, a combinação entre oferta crescente, compradores cautelosos e produtores resistentes a preços considerados pouco atrativos limita a liquidez. Na B3, os contratos futuros operam próximos das referências recentes, sem uma tendência definida, enquanto Chicago registra alta nas principais posições.
Exportações de milho do Brasil ficam abaixo de 2025
Os embarques brasileiros de milho continuam abaixo dos registrados no mesmo período do ano passado. Dados da Secex indicam que o Brasil exportou 1,94 milhão de toneladas de milho em julho de 2026, volume equivalente a 79,8% do registrado em julho de 2025.
A média diária dos embarques também recuou 20,2% na comparação anual.
Segundo o Cepea, o desempenho mais fraco das exportações está relacionado, entre outros fatores, ao atraso da colheita nesta temporada e aos preços praticados nos portos, considerados pouco estimulantes para a comercialização.
Para agosto, a Anec estima embarques próximos de 4 milhões de toneladas, o que poderia representar uma aceleração do fluxo externo e contribuir para melhorar a sustentação dos preços no mercado brasileiro.
Produtores seguram milho e compradores adotam cautela
No mercado interno, a liquidez permanece limitada. De acordo com o Cepea, consumidores seguem cautelosos nas negociações e, embora parte deles esteja ativa na compra, existe resistência aos preços indicados pelos produtores.
Do outro lado, os vendedores também demonstram menor disposição para negociar nos níveis atuais.
Com a colheita atrasada, produtores têm limitado o volume de milho ofertado e priorizado o consumo dos estoques disponíveis. A estratégia está relacionada à expectativa de que o mercado externo ganhe força e ofereça melhores oportunidades de comercialização.
Esse comportamento mantém o mercado em um equilíbrio delicado: compradores esperam preços mais baixos, enquanto vendedores evitam ampliar as ofertas nos atuais níveis.
Guerra entre Rússia e Ucrânia impulsiona milho em Chicago
No exterior, a escalada dos conflitos entre Rússia e Ucrânia trouxe novo elemento de sustentação para as commodities agrícolas.
Os ataques contra portos, estruturas de exportação e embarcações na região aumentam as preocupações com a logística de grãos do Mar Negro. O trigo foi diretamente afetado pelo movimento, mas a alta também se refletiu sobre o milho negociado na Bolsa de Chicago (CBOT).
Na manhã desta segunda-feira (10), os contratos futuros de milho operavam em alta.
O vencimento setembro/26 era negociado a US$ 4,41 por bushel, com avanço de 2,75 pontos. O dezembro/26 estava em US$ 4,65, alta de 3 pontos. Já o março/27 subia 2,75 pontos, a US$ 4,80, enquanto o maio/27 avançava 2,75 pontos, para US$ 4,89 por bushel.
A deterioração do cenário geopolítico acrescenta prêmio de risco ao mercado, especialmente diante das incertezas envolvendo a movimentação de grãos e a infraestrutura de exportação da região.
B3 opera com preços mistos
No mercado brasileiro, os contratos futuros de milho na B3 também apresentam comportamento misto.
Por volta das 10 horas desta segunda-feira, o vencimento setembro/26 estava em R$ 68,96 por saca, com alta de 0,20%. O janeiro/27 era negociado a R$ 76,64, queda de 0,09%, enquanto o março/27 estava em R$ 78,07, avanço de 0,15%.
O desempenho reflete justamente o cenário de incertezas que domina o mercado: de um lado, a entrada de milho da segunda safra aumenta a disponibilidade; de outro, as exportações, o câmbio e o mercado internacional podem oferecer suporte às cotações.
Na semana anterior, a B3 também encerrou os negócios sem direção única, mas com saldo semanal negativo nos principais contratos.
O setembro/26 terminou a sexta-feira em R$ 68,82, acumulando queda semanal de R$ 0,38. O novembro/26 fechou a R$ 73,60, com perda de R$ 0,30 na semana, enquanto o janeiro/27 terminou em R$ 76,71, recuo semanal de R$ 0,58.
Preços do milho variam entre as principais regiões produtoras
A formação dos preços no mercado físico continua bastante regionalizada.
No Rio Grande do Sul, as indicações estavam entre R$ 58 e R$ 63 por saca, com média estadual de R$ 59,26.
Em Santa Catarina e no Paraná, a diferença entre as ofertas dos vendedores e os preços indicados pelos compradores limita a realização de negócios. Em algumas regiões, as ofertas se aproximam de R$ 60 por saca, enquanto a demanda permanece ao redor de R$ 55.
No Paraná, as referências também apresentam forte variação regional. Em Maringá, a indicação chega a R$ 67,19 por saca, enquanto no Oeste paranaense a referência citada é de R$ 53,14.
Em Mato Grosso do Sul, os preços permanecem na faixa de R$ 48 a R$ 50 por saca.
A indústria de bioenergia continua absorvendo parte da oferta no Estado, ajudando a limitar uma pressão mais acentuada sobre as cotações mesmo com o avanço da colheita.
Momento exige cautela na comercialização do milho
Diante desse cenário, a orientação para produtores é evitar decisões concentradas em um único momento.
Para quem possui milho disponível, uma estratégia de vendas escalonadas pode reduzir a exposição às oscilações do mercado. A proximidade de importantes níveis técnicos em Chicago e no mercado brasileiro mantém aberta a possibilidade de recuperação das cotações.
Entre os fatores que podem favorecer uma reação estão a manutenção de Chicago acima de US$ 4,35 por bushel, a continuidade dos riscos logísticos relacionados à Ucrânia, eventual fortalecimento das exportações norte-americanas e uma deterioração adicional do cenário europeu.
A estratégia, portanto, é aproveitar eventuais movimentos de alta para realizar vendas parciais, em vez de concentrar toda a comercialização em uma única oportunidade.
Próxima safra também exige proteção de preços
Para a próxima safra, a recomendação é evitar permanecer totalmente descoberto à espera de preços entre R$ 66 e R$ 67 por saca.
Caso o mercado ofereça níveis capazes de garantir margem satisfatória, parte da produção pode ser protegida antecipadamente. A estratégia permite reduzir o risco de uma eventual queda dos preços durante o período de maior oferta.
Para cooperativas, a indicação é evitar estoques excessivamente especulativos e comercializar parcelas do milho durante eventuais recuperações.
Também merece atenção o comportamento da demanda das indústrias de carnes, das exportações brasileiras, de Chicago, do câmbio e do basis, fatores que podem alterar rapidamente a relação entre oferta e demanda.
Para cerealistas, o cenário recomenda trabalhar com estoque tático, priorizando compras quando houver margem adequada em relação ao custo de reposição.
Já para as indústrias de ração e etanol, momentos de queda podem ser utilizados para ampliar gradualmente a cobertura, evitando, porém, deixar todas as compras para depois.
US$ 4,35 em Chicago é referência para o mercado
O nível de US$ 4,35 por bushel em Chicago aparece como uma referência importante para a leitura do mercado.
A sustentação das cotações acima desse patamar pode favorecer uma estabilização e abrir espaço para recuperação. Por outro lado, uma perda consistente desse nível aumenta o risco de novas pressões sobre os preços internacionais e, consequentemente, sobre o mercado brasileiro.
Assim, o mercado de milho permanece dividido entre pressões domésticas de oferta e demanda e fatores externos capazes de sustentar as cotações.
Com a colheita avançando, exportações ainda abaixo do ritmo de 2025 e compradores adotando postura seletiva, o produtor precisa acompanhar de perto as oportunidades de venda. Ao mesmo tempo, a escalada dos conflitos no Leste Europeu e o comportamento de Chicago podem provocar mudanças rápidas no cenário.
Mercado de milho segue entre oferta, exportações e geopolítica
O momento exige disciplina na comercialização do milho. A combinação entre avanço da segunda safra, cautela dos consumidores, desempenho das exportações brasileiras e oscilações em Chicago reduz a visibilidade para os preços no curto prazo.
Nesse ambiente, a venda escalonada, o acompanhamento das referências internacionais e a proteção parcial da produção surgem como ferramentas importantes para administrar o risco.
O comportamento das exportações brasileiras de milho em agosto, a evolução da colheita da segunda safra, o câmbio e os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia serão determinantes para definir os próximos movimentos do mercado.
Fonte: Portal do Agronegócio
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