Mercado de trigo segue lento no Sul, mas recomenda venda escalonada diante da volatilidade
Baixa liquidez, cautela dos moinhos e diferenças regionais de preços aumentam a necessidade de estratégias graduais de comercialização no Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina
Publicado em: 10/08/2026 às 11:50hs
O mercado de trigo no Sul do Brasil segue marcado por baixa liquidez, cautela dos moinhos e atenção crescente à nova safra. Ao mesmo tempo, o cenário internacional mantém elevada a volatilidade dos preços, combinando fundamentos potencialmente altistas com movimentos de correção no curto prazo.
Diante desse ambiente, a TF Agroeconômica recomenda que produtores, cooperativas, cerealistas e moinhos adotem estratégias graduais, evitando concentrar decisões de venda ou compra em um único momento.
A combinação entre Chicago, câmbio, oferta regional, custos de reposição e possíveis tensões no Mar Negro deve continuar determinando o comportamento do mercado. Nesse contexto, movimentos de alta podem abrir oportunidades para fixações, enquanto eventuais correções devem ser aproveitadas de forma tática.
Trigo exige cautela na comercialização
Para os produtores que ainda possuem trigo da safra velha, a orientação é avaliar vendas parciais, principalmente nas regiões onde a disponibilidade física está mais restrita e os preços apresentam melhor sustentação.
Na nova safra, a recomendação é evitar a comercialização concentrada. Uma eventual recuperação das cotações em Chicago para a região de US$ 7,00 por bushel pode ser utilizada para ampliar gradualmente as fixações, preservando parte da produção para aproveitar possíveis novas altas.
A estratégia busca reduzir o risco de exposição excessiva às oscilações internacionais sem eliminar a possibilidade de participação em movimentos favoráveis de preço.
Paraná apresenta cenário mais firme
No Paraná, o mercado apresenta comportamento relativamente mais favorável, enquanto os moinhos já acompanham de perto a evolução da nova safra.
A colheita alcançou cerca de 3% da área, e as condições das lavouras permanecem predominantemente positivas. Segundo o Deral, 97% das áreas estão classificadas em condição boa e 3% em condição média.
Nos Campos Gerais, há indicação de aproximadamente R$ 1.450 por tonelada CIF moinho para agosto, enquanto compradores trabalham em níveis entre R$ 1.530 e R$ 1.550 por tonelada. Para a safra futura, as referências ficam entre R$ 1.400 e R$ 1.500 por tonelada CIF.
O trigo argentino nacionalizado é indicado em torno de US$ 310 por tonelada, enquanto a chegada de um navio com aproximadamente 15 mil toneladas a Paranaguá reforça a presença do produto importado no mercado brasileiro.
A necessidade de importação para 2027 é estimada entre 1,5 milhão e 1,6 milhão de toneladas.
Com a tendência de preços mais firme no estado, a orientação para cerealistas é manter cautela com posições vendidas e acompanhar de perto o custo de reposição.
Rio Grande do Sul tem preços mais pressionados
No Rio Grande do Sul, a movimentação também permanece limitada, embora algumas referências tenham apresentado leve reação.
Para trigo não segregado, os valores indicados estão próximos de R$ 1.300 por tonelada para embarque em agosto e R$ 1.320 para setembro.
Os moinhos já apresentam cobertura de compras até aproximadamente 20 de setembro, mas a moagem permanece limitada pela relação desfavorável entre o custo do trigo e os preços praticados para a farinha.
O mercado de farelo de trigo, por outro lado, apresenta melhor remuneração e oferta mais restrita.
A chegada prevista de um navio com cerca de 31 mil toneladas de trigo argentino também deve influenciar a disponibilidade regional.
Na safra nova, aproximadamente 60 mil toneladas já foram negociadas, mas produtores e compradores permanecem cautelosos diante dos riscos climáticos.
Em Panambi, a referência ao produtor recuou para R$ 69 por saca, reforçando a necessidade de decisões comerciais graduais.
Para os cerealistas, preços mais fracos no estado podem criar oportunidades de compra, mas a recomendação é evitar formação excessiva de estoques enquanto a demanda permanece lenta.
Santa Catarina mantém mercado travado
Em Santa Catarina, o mercado segue com pouca movimentação. Os moinhos estão relativamente abastecidos e realizam compras pontuais, inclusive de trigo proveniente do Rio Grande do Sul.
Para o trigo local destinado à panificação, as referências estão entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada.
O plantio ainda está no início, enquanto os preços de balcão oscilam entre R$ 64 e R$ 75 por saca, dependendo da praça.
A combinação entre estoques disponíveis, ritmo mais lento de compras e incertezas sobre a nova safra mantém os agentes do mercado em posição defensiva.
Cooperativas devem escalonar as vendas
Para as cooperativas, a estratégia indicada é distribuir as vendas ao longo do tempo, monitorando principalmente Chicago, câmbio e bases regionais.
No Paraná, momentos de valorização podem ser utilizados para reduzir estoques e ampliar a proteção de vendas futuras. Já para cooperativas que precisam garantir matéria-prima para moinhos próprios, a recomendação é evitar deixar toda a necessidade de compra exposta a uma eventual alta internacional.
O cenário exige equilíbrio entre proteção de margem e flexibilidade comercial.
Moinhos precisam proteger o abastecimento
Para os moinhos, a principal recomendação é trabalhar com compras graduais e mecanismos de proteção de preços.
A combinação entre aquisição física, hedge e flexibilidade de compra pode permitir melhor aproveitamento de eventuais correções nas cotações internacionais.
Também ganha importância o acompanhamento das diferenças de preços entre Paraná, Rio Grande do Sul e Argentina, especialmente diante da participação do trigo importado na formação da oferta brasileira.
O principal risco para os compradores é esperar uma queda mais acentuada e ser surpreendido por uma nova valorização provocada por fatores externos.
Mar Negro continua no radar do mercado
No ambiente internacional, as tensões na região do Mar Negro permanecem como um dos principais fatores de risco para o trigo.
Qualquer interrupção relevante no fluxo de exportações ou mudança nas condições de oferta pode provocar reação rápida nas cotações internacionais, afetando diretamente os custos de importação e as referências brasileiras.
Ao mesmo tempo, a pressão das vendas dos fundos pode limitar altas no curto prazo e provocar movimentos de correção em Chicago.
Essa combinação reforça a necessidade de evitar apostas concentradas em uma única direção.
Estratégia deve ser gradual
O cenário atual do mercado de trigo combina baixa liquidez no Sul do Brasil, diferenças expressivas entre os estados, acompanhamento da nova safra e elevada sensibilidade aos movimentos internacionais.
Para produtores, a estratégia passa por vendas escalonadas e proteção gradual da nova safra. Para cooperativas, o foco deve estar na distribuição das operações e no acompanhamento das bases regionais. Cerealistas precisam observar o custo de reposição e evitar posições excessivamente vendidas ou estoques elevados.
Já os moinhos devem garantir o abastecimento de forma progressiva, combinando compras físicas e proteção financeira.
Com a volatilidade elevada, a estratégia mais importante é preservar flexibilidade. Em um mercado sujeito a mudanças rápidas em Chicago, no câmbio e no cenário do Mar Negro, decisões graduais podem reduzir riscos e melhorar a capacidade de aproveitar oportunidades de preço.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias