Etanol de milho amplia demanda e déficit do cereal pode saltar para 7,2 milhões de toneladas em 2026/27
Datagro prevê consumo recorde de 154,7 milhões de toneladas, avanço limitado da produção e queda dos estoques no Brasil; cenário pode sustentar os preços pagos aos produtores
Publicado em: 25/08/2026 às 10:50hs
O crescimento acelerado da indústria de etanol deverá aumentar a pressão sobre a oferta brasileira de milho na temporada 2026/27. Projeção preliminar da Datagro aponta que o déficit entre produção e demanda pode alcançar 7,2 milhões de toneladas, bem acima dos 2,7 milhões estimados para o ciclo anterior.
Embora a safra esteja concentrada principalmente em 2027, as primeiras estimativas já indicam um balanço mais apertado para o cereal. A consultoria manteve a produção brasileira projetada em 147,5 milhões de toneladas, aumento de 1,5% na comparação anual.
A demanda total, por sua vez, deverá crescer 4,5% e chegar a 154,7 milhões de toneladas. O avanço do consumo em ritmo superior ao da colheita explica a ampliação do déficit prevista para o período.
Etanol de milho lidera crescimento do consumo
A indústria de etanol aparece como o principal vetor de expansão da demanda doméstica. Segundo a Datagro, as usinas deverão processar 32,49 milhões de toneladas de milho em 2026/27, volume mais de 14% superior ao da temporada anterior.
“O déficit é muito puxado pelo incremento das usinas de etanol”, afirmou o analista Gabriel Bastos durante a Abertura de Safra Soja, Milho e Algodão, evento promovido pela Datagro em Goiás.
Atualmente, 33 usinas de etanol estão em funcionamento no Brasil. Considerando as unidades em construção e os projetos anunciados, a expectativa é de que esse número mais do que dobre nos próximos seis anos.
A expansão demonstra a consolidação do milho como matéria-prima estratégica para a produção de biocombustíveis, especialmente nas regiões com maior disponibilidade do cereal e possibilidade de operação industrial ao longo de todo o ano.
Ração animal deve absorver 64,2 milhões de toneladas
O setor de alimentação animal continuará como o maior consumidor de milho no mercado interno. A previsão é de utilização de 64,2 milhões de toneladas na fabricação de rações em 2026/27, crescimento próximo de 4% sobre o ciclo anterior.
A demanda total estimada pela Datagro também inclui o milho destinado à produção de sementes, à alimentação humana e a outras atividades industriais.
Com o avanço simultâneo do etanol e da produção de proteína animal, a disputa pelo cereal deverá aumentar, exigindo maior coordenação entre produtores, indústrias e compradores.
Exportações brasileiras devem permanecer estáveis
Mesmo diante do crescimento do consumo doméstico, as exportações brasileiras de milho estão projetadas em 45 milhões de toneladas na temporada 2026/27, praticamente estáveis na comparação anual.
O Brasil vem ocupando a posição de segundo maior exportador mundial do cereal, atrás dos Estados Unidos. A manutenção dos embarques em patamar elevado, combinada ao avanço da demanda interna, tende a reforçar o aperto no balanço de oferta e consumo.
Estoques de milho podem cair para 8,9 milhões de toneladas
O déficit recorrente vem levando o mercado brasileiro a utilizar parte dos estoques acumulados em anos anteriores. Para o encerramento de 2026/27, em 31 de janeiro, a Datagro estima reservas finais de 8,9 milhões de toneladas.
O volume representa uma redução expressiva em relação aos 16,1 milhões de toneladas registrados ao fim da temporada 2024/25. A queda diminui a margem de segurança do país diante de eventuais perdas de produtividade, atrasos na colheita ou crescimento adicional do consumo.
Margens apertadas e crédito caro limitam expansão da safra
A previsão de crescimento moderado da produção ocorre em um ambiente financeiro mais desafiador para os produtores rurais. As margens da atividade agrícola estão mais estreitas, enquanto o crédito permanece caro e com maior restrição de acesso.
Parte do setor também enfrenta dificuldades financeiras e aumento dos pedidos de recuperação judicial. Esse quadro pode limitar os investimentos em tecnologia, insumos e ampliação da área cultivada, reduzindo a capacidade de resposta da produção ao avanço da demanda.
Além dos fatores econômicos, o possível fortalecimento do fenômeno El Niño mantém o clima no centro das atenções para a safra 2026/27. Eventuais irregularidades nas chuvas podem afetar tanto o milho de verão quanto a segunda safra.
Déficit pode favorecer preços do milho ao produtor
Apesar das preocupações com a oferta, o balanço mais apertado poderá oferecer maior sustentação aos preços do milho no mercado brasileiro.
Para o head de Grãos da Datagro, Flávio França Júnior, a possibilidade de cotações mais remuneradoras representa um alívio para os produtores depois de um período marcado por custos elevados e margens comprimidas.
“Quando se fala em possível melhora de preço, é um alento”, afirmou o especialista. Segundo ele, o cenário permanece volátil, especialmente diante dos riscos relacionados ao El Niño, mas as perspectivas para os preços são mais favoráveis.
Com a demanda por etanol avançando em dois dígitos, exportações próximas de 45 milhões de toneladas e estoques em queda, o mercado brasileiro de milho deverá entrar em 2026/27 com menor disponibilidade. O equilíbrio dependerá do desempenho da safra, das condições climáticas e da capacidade dos produtores de ampliar a oferta em um ambiente de crédito restritivo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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