Nebbiolo e Marzemino passam por testes na Serra Gaúcha para revelar potencial de novos vinhos
Casa Marques Pereira avalia adaptação de castas italianas e portuguesas em Monte Belo do Sul antes de ampliar o cultivo e aposta na diversidade do terroir brasileiro
Publicado em: 22/09/2026 às 13:00hs
A busca por novas variedades de uvas para a produção de vinhos brasileiros ganhou um laboratório a céu aberto em Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha. A Casa Marques Pereira mantém uma área experimental destinada à avaliação de castas que ainda possuem pouca presença na região, entre elas as italianas Nebbiolo e Marzemino e a portuguesa Alvarinho.
O objetivo não é reproduzir no Brasil os mesmos vinhos produzidos tradicionalmente na Europa, mas entender como cada variedade se comporta diante das condições de solo, clima e manejo encontradas na Serra Gaúcha.
Testes começam antes da implantação comercial
O processo de adaptação de uma nova variedade começa em pequena escala. Antes de implantar um vinhedo comercial, a propriedade leva entre 25 e 50 mudas de cada cultivar para a área experimental.
As plantas são acompanhadas durante aproximadamente três safras, período em que são avaliados aspectos agronômicos e produtivos.
Segundo Felipe Marques Pereira, da Casa Marques Pereira, um dos primeiros critérios observados é a sanidade das plantas.
“O primeiro ponto que a gente observa é a sanidade. É uma uva que você consegue começar e terminar o ciclo dela com poucos problemas?”
A duração do ciclo também é determinante. Na Serra Gaúcha, variedades de maturação muito tardia podem chegar ao final do ciclo em períodos de maior ocorrência de chuvas, aumentando a exposição a problemas sanitários e dificultando a colheita.
Formato do cacho e maturação entram na avaliação
Além do ciclo e da sanidade, a equipe acompanha características como formato e compactação dos cachos, espessura da casca e comportamento das frutas durante a maturação.
A intenção é identificar variedades capazes de completar o ciclo produtivo dentro de uma janela considerada mais segura e, ao mesmo tempo, apresentar concentração, equilíbrio e qualidade de fruta.
“Uma uva estar adaptada são essas condições. Uma uva que a gente consiga colher dentro de um período mais seguro, que tenha poucos problemas de sanidade, que tenha uma boa concentração e qualidade de fruta”, explica Felipe.
Esse acompanhamento permite observar se o comportamento da variedade em seu território de origem se mantém ou sofre alterações quando submetido às condições brasileiras.
Nebbiolo é avaliada fora do padrão italiano
Tradicionalmente associada ao Piemonte, na Itália, a Nebbiolo despertou o interesse da vinícola pelas características da variedade. Entretanto, a proposta da Casa Marques Pereira não é reproduzir na Serra Gaúcha os grandes vinhos italianos elaborados com a casta.
“Quando a gente plantou o Nebbiolo aqui, a gente não plantou esperando produzir Barolo. A gente estava apostando numa uva de qualidade para se produzir aqui, mas diferente das tradicionais”, afirma Felipe.
A estratégia considera que a mesma variedade pode apresentar características distintas quando cultivada em outro ambiente. Solo, clima, altitude, manejo e condições de maturação interferem diretamente no resultado final.
Marzemino também passa pelo laboratório de campo
A Marzemino, outra variedade italiana avaliada pela propriedade, segue uma lógica semelhante. A intenção é descobrir quais características a casta consegue expressar na Serra Gaúcha, sem buscar uma reprodução fiel do estilo tradicional encontrado na Itália.
“A gente não estava buscando copiar o estilo do vinho Marzemino da Itália. Porque nós sabemos que nós temos condições aqui diferentes de cultivo”, destaca o produtor.
Depois da avaliação agronômica, as uvas são vinificadas. Essa etapa permite verificar se o potencial observado no vinhedo também se traduz em características interessantes na taça.
Seleção massal amplia o potencial das variedades adaptadas
Quando uma variedade demonstra bom desempenho, o trabalho pode avançar para uma nova etapa: a seleção massal.
A técnica consiste em utilizar plantas que apresentaram características consideradas desejáveis, como produtividade, sanidade e qualidade dos frutos, como fonte de material para a formação ou melhoria de novas áreas.
“Utilizamos esta técnica tanto na implantação de novas cepas como no melhoramento de áreas já existentes, ano a ano há alguma muda que se destaca e vira doadora do seu material genético para melhorar outras mudas com desempenho que não esteja satisfatório.”
Na prática, o processo permite aproveitar a própria experiência acumulada no vinhedo para selecionar plantas que demonstram melhor desempenho nas condições locais.
Alvarinho chega com referências do cultivo brasileiro
A estratégia de diversificação também inclui variedades cujo comportamento no Brasil já é mais conhecido. É o caso da Alvarinho, uma casta portuguesa que já possui experiências de cultivo em diferentes regiões brasileiras.
Para a vinícola, a existência de referências anteriores facilitou a decisão de apostar na variedade.
“Então, daí veio a aposta nela. Já era conhecido o perfil de vinho que ela costuma produzir na Serra, na Campanha. Então, foi mais fácil optar por ela”, explica Felipe.
A comparação evidencia diferentes caminhos para a introdução de novas castas. Enquanto variedades como Nebbiolo e Marzemino exigem um período maior de observação para compreender sua adaptação, a Alvarinho conta com referências nacionais que ajudam a orientar a decisão.
Encruzado avança para produção comercial
O trabalho de experimentação também resultou na implantação de uma área comercial da Encruzado, variedade branca originária da região do Dão, em Portugal.
A cultivar passou anteriormente pelo período de testes e, em 2025, a vinícola implantou uma área destinada à produção comercial.
Segundo Felipe, a variedade apresenta características que podem ampliar a diversidade dos vinhos produzidos na Serra Gaúcha.
“É uma uva branca de grande potencial para a Serra Gaúcha, traz um enorme frescor e uma paleta de aromas diferente dos habituais brancos brasileiros com notas de lima, rosas e violetas, além de uma marcante nota mineral.”
Terroir gaúcho impulsiona experimentação
A experiência da Casa Marques Pereira mostra como a diversificação varietal pode ocorrer a partir de um processo gradual de experimentação, observação, seleção e vinificação.
Em vez de simplesmente importar modelos europeus, a proposta é avaliar o comportamento de cada cultivar no ambiente brasileiro e identificar quais características podem ser valorizadas no novo território.
Os vinhos elaborados a partir dessas experiências chegaram ao consumidor como alternativas dentro do portfólio da vinícola. O Nebbiolo apresenta intensidade de frutas e aromas florais; o Marzemino se destaca pela proposta de elegância; enquanto o Alvarinho combina corpo, complexidade aromática e acidez.
O resultado reforça uma tendência de valorização da diversidade de castas e da capacidade dos diferentes terroirs brasileiros de produzir vinhos com características próprias, sem necessariamente reproduzir os estilos tradicionais de seus países de origem.
Fonte: Portal do Agronegócio
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