El Niño aumenta riscos para os vinhedos e exige atenção redobrada na próxima safra de uvas
Chuvas podem favorecer o desenvolvimento das videiras antes da floração, mas precipitações excessivas, granizo e umidade elevada ameaçam a sanidade das uvas, o calendário de colheita e a qualidade dos vinhos na Serra Gaúcha.
Publicado em: 20/10/2026 às 13:30hs
A influência do El Niño sobre o regime de chuvas coloca os produtores de uvas da Serra Gaúcha em alerta para a próxima safra. Embora a disponibilidade de água seja importante para o desenvolvimento das videiras, o excesso de precipitação em fases específicas do ciclo pode comprometer a formação dos frutos, aumentar a incidência de doenças e dificultar o planejamento da colheita.
Em Monte Belo do Sul (RS), a equipe técnica da vinícola Casa Marques Pereira acompanha as condições climáticas para ajustar o manejo dos vinhedos e preservar o padrão de qualidade das uvas destinadas à elaboração de vinhos.
Segundo Felipe Marques Pereira, vinhateiro e sócio-proprietário da vinícola, a atenção deve ser redobrada diante da possibilidade de episódios de chuva intensa e granizo associados ao cenário climático. A distribuição das precipitações ao longo do ciclo vegetativo é um dos fatores que determinam como as plantas responderão às condições da safra.
Chuvas antes da floração podem beneficiar as videiras
Na fase de pré-floração, as chuvas podem contribuir para o desenvolvimento das videiras ao garantir a disponibilidade de água necessária para o crescimento das plantas. Essa reserva hídrica é importante antes de uma etapa de maior exigência fisiológica, quando ocorre o desenvolvimento das flores e começa o processo de formação dos frutos.
O cenário, porém, muda quando as videiras entram em floração. Nesse período, precipitações excessivas podem prejudicar o desenvolvimento das estruturas florais, reduzir a exposição à luz solar e interferir nas condições necessárias para uma boa frutificação.
Por isso, o volume de chuva não deve ser analisado isoladamente. O momento em que a precipitação ocorre, sua intensidade e a duração dos períodos de umidade são fatores fundamentais para o manejo dos vinhedos.
Para os produtores, acompanhar as condições meteorológicas e observar a resposta das plantas permite ajustar as práticas de campo conforme as necessidades de cada etapa do ciclo.
Excesso de umidade aumenta o risco de doenças nas uvas
Após a floração, durante a formação e o desenvolvimento das bagas, as videiras continuam dependendo de condições hídricas adequadas. Entretanto, a combinação de chuva frequente e umidade elevada pode favorecer doenças fúngicas e elevar a necessidade de intervenções fitossanitárias.
O risco permanece durante o amadurecimento das uvas, quando a sanidade dos frutos passa a ter importância ainda maior para a definição do momento da colheita e para a qualidade da matéria-prima utilizada na produção dos vinhos.
Em períodos chuvosos, o manejo exige monitoramento constante das plantas, avaliação das condições sanitárias e planejamento dos tratamentos necessários, sempre de acordo com as recomendações técnicas e as condições registradas no vinhedo.
Além dos possíveis impactos sobre a produção, a umidade excessiva pode dificultar a execução das atividades no campo e tornar menos previsível o calendário de colheita.
Granizo pode comprometer a produção e a recuperação dos vinhedos
Entre as principais preocupações dos produtores está a ocorrência de granizo, capaz de provocar danos físicos às videiras e comprometer parte da produção.
As pedras de gelo podem quebrar ramos, ferir folhas e perfurar as bagas, prejudicando o desenvolvimento dos frutos. Conforme a intensidade do evento e a extensão dos danos, a recuperação das plantas pode se prolongar por mais de um ciclo produtivo.
Felipe Marques Pereira destaca que os efeitos de uma ocorrência severa podem permanecer por várias safras.
“Às vezes tem plantas que precisam de duas, três safras para ser recuperadas de uma chuva de granizo”, avalia o vinhateiro.
O impacto depende das características do evento, do estágio de desenvolvimento das plantas e da gravidade das lesões. Por isso, além do acompanhamento meteorológico, a avaliação dos danos após episódios extremos é importante para definir as medidas de recuperação e reorganizar o manejo.
Menos chuva durante a maturação pode favorecer a qualidade das uvas
Na fase de amadurecimento, períodos com menor volume de chuva podem oferecer condições mais favoráveis ao controle da colheita. Dependendo da variedade, do estado sanitário dos frutos e das características desejadas para o vinho, condições mais secas podem favorecer a concentração de açúcares e ajudar a preservar a qualidade das uvas.
A redução das precipitações também pode facilitar o planejamento das operações no campo, permitindo que o produtor acompanhe com maior precisão a evolução da maturação e escolha o momento mais adequado para retirar os frutos das plantas.
“Se você tem menos chuva, consegue ter mais controle sobre o ponto que vai colher a uva”, afirma Felipe Marques Pereira.
Ainda assim, a ausência de chuva não garante, por si só, uma safra de melhor qualidade. O resultado depende do equilíbrio hídrico das plantas, das temperaturas, das características de cada variedade e dos objetivos de produção.
Planejamento fitossanitário e calendário de colheita exigem atenção
A instabilidade climática também interfere diretamente no planejamento fitossanitário dos vinhedos. Quando as uvas estão próximas do ponto ideal de colheita, uma nova precipitação pode alterar as condições sanitárias e exigir a reavaliação dos tratamentos realizados.
Nessas situações, o produtor precisa observar as recomendações técnicas e respeitar o intervalo de carência dos produtos fitossanitários antes da retirada dos frutos, quando aplicável.
Esse cuidado pode afetar o calendário de trabalho, especialmente em períodos nos quais a janela ideal de colheita é curta e as condições climáticas mudam rapidamente.
Na Serra Gaúcha, onde a produção de uvas está diretamente ligada à elaboração de vinhos, o acompanhamento do clima e a adaptação das práticas de manejo são fundamentais para reduzir riscos e preservar as características da matéria-prima.
El Niño reforça a importância do monitoramento climático na viticultura
O cenário climático reforça a necessidade de planejamento ao longo de todo o ciclo produtivo. Para os viticultores, não basta observar o volume total de chuva: é preciso avaliar quando as precipitações ocorrem, como as plantas respondem e quais medidas podem reduzir os impactos sobre a produção.
Na prática, o monitoramento meteorológico, a inspeção frequente dos vinhedos e o manejo fitossanitário adequado ajudam a orientar decisões sobre tratamentos, recuperação de plantas danificadas e definição do ponto de colheita.
O desempenho da próxima safra dependerá da interação entre as condições climáticas e as decisões tomadas em cada etapa do cultivo. Em um cenário de possíveis extremos associados ao El Niño, a capacidade de adaptação será importante para preservar a produtividade, a sanidade das uvas e a qualidade dos vinhos produzidos na Serra Gaúcha.
Fonte: Portal do Agronegócio
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