Produção de feijão em Goiás cresce 3,1%, mas queda nos preços desafia rentabilidade
Safra 2025/26 deve alcançar 299 mil toneladas; em Cristalina, alta produtividade contrasta com recuo nas cotações, enquanto irrigação e infraestrutura condicionam a expansão
Publicado em: 07/10/2026 às 18:00hs
Goiás deve produzir 299 mil toneladas de feijão na safra 2025/26, crescimento de 3,1% em relação ao ciclo anterior, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A expansão reforça a posição do estado entre os principais produtores brasileiros, mas a volatilidade dos preços continua dificultando a transformação dos ganhos produtivos em rentabilidade.
A área cultivada passou de 119,2 mil para 127 mil hectares, avanço de 6,5%. Esse crescimento compensou a redução da produtividade média estimada, que caiu de 2.432 para 2.354 quilos por hectare.
O resultado coloca Goiás na quinta posição entre os maiores produtores de feijão do país. Para os especialistas ouvidos, porém, ampliar a produção exige enfrentar desafios de comercialização, disponibilidade de água e acesso à energia.
Preço do feijão recua durante a colheita em Cristalina
Um dos principais polos da cultura em Goiás, Cristalina reúne produção irrigada, experiência técnica e lavouras de elevado rendimento. Segundo Renato Caetano, presidente da Associação Brasileira dos Consultores de Feijão (ABC Feijão), o município cultiva aproximadamente 35 mil hectares por ano, considerando a primeira e a terceira safras.
A primeira safra inclui lavouras de sequeiro implantadas na primavera. A terceira é cultivada no inverno com irrigação e, no período da entrevista, estava na etapa final de colheita, com rendimento superior a 55 sacas por hectare e boa qualidade dos grãos.
O desempenho no campo, contudo, veio acompanhado de pressão sobre os preços. Conforme Caetano, a saca de 60 quilos, que chegou a ser negociada a R$ 400, estava próxima de R$ 230 no momento da entrevista.
Para Vilmar Eurípedes da Silva, analista técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), a oscilação das cotações e a influência da classificação do grão tornam mais difícil antecipar a receita da lavoura. Assim, colher mais nem sempre representa obter uma margem maior.
Irrigação e tecnologia sustentam altas produtividades
Rafael Lorea Lawson, diretor da Sementes Aliança e produtor em Cristalina, aponta uma produtividade média de aproximadamente 50 sacas por hectare no município. Em algumas propriedades, os resultados chegam a 65 ou 70 sacas.
Segundo ele, esses rendimentos refletem a combinação de irrigação, condições climáticas, novas cultivares e conhecimento acumulado pelos produtores.
A obtenção de grãos de qualidade depende de decisões ao longo de todo o ciclo, desde a escolha da janela de plantio e o preparo do solo até o momento da adubação e das aplicações de defensivos.
Caetano também destaca mudanças no manejo, como ajustes na população de plantas, melhoria da arquitetura das lavouras, adoção de bioinsumos e uso mais eficiente da água.
Assistência técnica contribui para manejo e conservação do solo
O acompanhamento especializado ganha importância diante dos riscos produtivos e comerciais da cultura. A Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar Goiás orienta produtores de grãos diretamente nas propriedades, com foco no manejo, na conservação do solo e na melhoria dos resultados.
Entre as práticas destacadas por Vilmar está o plantio direto. A manutenção da palhada contribui para conservar a umidade, enquanto a menor movimentação do solo pode reduzir o contato de terra com as vagens durante a colheita, favorecendo a qualidade do produto.
O planejamento técnico também ajuda a lidar com períodos de estresse climático e a preservar as condições produtivas para as safras seguintes.
Água e energia limitam expansão do feijão irrigado
Apesar do potencial de crescimento, a ampliação das lavouras irrigadas enfrenta obstáculos de infraestrutura. Em Cristalina, Caetano aponta limitações relacionadas à disponibilidade de água, ao fornecimento de energia e à capacidade da rede de distribuição.
Lawson também considera o acesso à energia e às outorgas de uso da água fatores importantes para a instalação de novos pivôs de irrigação.
Além dessas condições, a decisão de ampliar a área depende da expectativa de retorno. Segundo Vilmar, o produtor compara os riscos climáticos e comerciais do feijão com os de outras culturas antes de definir o plantio.
Redução do ICMS favorece comercialização
Conforme as informações apresentadas na reportagem, a tributação do ICMS sobre a comercialização do feijão passou de 6% para 2,4% em Goiás. Na avaliação de Vilmar, a redução melhora a competitividade do produto, especialmente nas vendas destinadas a outros estados.
Lawson relata que a medida atraiu compradores de outras regiões e ampliou a disputa pelo feijão goiano, contribuindo para melhores condições de negociação.
Caetano ressalta, entretanto, que o benefício tributário precisa ser acompanhado de investimentos em água e energia para permitir a expansão da produção.
Feijões especiais abrem possibilidades de exportação
A diversificação também aparece como oportunidade para Goiás. Além do feijão carioca, Caetano cita variedades como vermelho, mungo verde, rajado e branco entre as alternativas para alcançar mercados internacionais.
Segundo ele, a produção irrigada pode atender às exigências de qualidade de compradores em países como Índia, México e Estados Unidos.
O setor também trabalha na construção de uma indicação geográfica para o feijão, buscando valorizar a origem do produto. A perspectiva é ampliar as oportunidades comerciais e agregar valor à produção, em uma atividade na qual qualidade, produtividade e preço precisam avançar juntos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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