Irrigação por gotejamento eleva em até 92,8% a produtividade da cana no Nordeste
Resultados de usinas de Pernambuco, Alagoas e Paraíba mostram que a irrigação de precisão aumenta a produção, economiza água e fortalece os canaviais diante do déficit hídrico
Publicado em: 31/08/2026 às 12:30hs
Usinas de cana-de-açúcar do Nordeste registraram ganhos de até 92,8% na produtividade com a adoção da irrigação por gotejamento subsuperficial. Os resultados foram apresentados durante o Painel STAB Recife e Alagoas 2026 e reunidos pela Netafim.
Os avanços foram obtidos em uma safra marcada por severo déficit hídrico, cenário que reforçou a importância da irrigação de precisão para reduzir os impactos da estiagem, melhorar o aproveitamento da água e aumentar a previsibilidade da produção.
Além dos ganhos agrícolas, os projetos avaliados apresentaram redução da demanda por mão de obra, identificação antecipada de falhas operacionais, maior eficiência na aplicação de fertilizantes e melhor aproveitamento das áreas já cultivadas.
Nordeste alcança 33 mil hectares irrigados por gotejamento
A área de cana irrigada por gotejamento subsuperficial no Nordeste chegou a 33 mil hectares, com crescimento de 83% nos últimos cinco anos. A região reúne aproximadamente 75 unidades produtoras.
A expansão da tecnologia ocorre em meio ao aumento da variabilidade climática e à necessidade de produzir mais com recursos hídricos limitados. Os resultados apresentados pelas usinas indicam que o sistema pode elevar a produtividade sem exigir a abertura de novas áreas.
O desempenho também amplia a segurança do planejamento industrial, uma vez que a maior estabilidade dos canaviais ajuda as usinas a estimarem com mais precisão o volume de matéria-prima disponível para moagem.
Como funciona a irrigação por gotejamento subsuperficial
A irrigação por gotejamento subsuperficial, também conhecida pela sigla SDI, utiliza tubos gotejadores instalados abaixo da superfície e próximos às raízes da cana-de-açúcar.
O sistema aplica água e nutrientes diretamente na região explorada pelas plantas, reduzindo perdas por evaporação, escoamento superficial e distribuição inadequada. A tecnologia também permite realizar a fertirrigação, combinando o fornecimento de água e fertilizantes conforme as necessidades do canavial.
Entre os principais benefícios estão maior eficiência hídrica, melhor uniformidade no desenvolvimento da cultura, ampliação da longevidade das soqueiras e aumento da produtividade, especialmente em regiões sujeitas a estiagens prolongadas.
O acompanhamento agronômico e operacional durante a vida útil do projeto também permite ajustar o manejo e comparar o desempenho das áreas irrigadas com outros sistemas utilizados pelas unidades produtoras.
Usina Petribu registra produtividade até 92,8% maior
A Usina Petribu, em Pernambuco, obteve o maior ganho entre os casos apresentados. Considerando o acumulado de 17 safras, as áreas irrigadas por gotejamento registraram produtividade 92,8% superior à obtida com os demais sistemas.
Somente na safra 2025/26, a vantagem alcançou 83%. O histórico de quase duas décadas demonstra que o desempenho não ficou restrito a uma temporada isolada, mas representa um ganho estrutural associado ao uso contínuo da tecnologia.
O resultado ganha relevância em um ambiente de instabilidade climática, no qual a disponibilidade de água se tornou um dos principais fatores de risco para a produção de cana-de-açúcar no Nordeste.
Porto Rico produz mais sem ampliar área cultivada
Na Usina Porto Rico, em Alagoas, o manejo integrado da irrigação aumentou a produtividade em 36% ao longo de quatro anos, considerando uma área de 2.200 hectares.
Segundo os dados apresentados, o incremento produtivo equivale ao resultado que seria alcançado com a incorporação de aproximadamente 846 hectares adicionais.
Na prática, a unidade conseguiu ampliar a oferta de matéria-prima sem precisar expandir a área plantada. O caso evidencia o potencial da irrigação por gotejamento para promover a intensificação sustentável da produção.
Gotejamento responde por metade da produção na Japungu
Na Usina Japungu, na Paraíba, apenas 35% da área cultivada contava com irrigação por gotejamento. Mesmo assim, essa parcela foi responsável por 50% de toda a produção própria da unidade durante uma safra afetada pelas condições climáticas.
O projeto também apresentou ganhos operacionais. A adoção da telemetria reduziu em 22% a necessidade de mão de obra na casa de bombas e permitiu identificar preventivamente 500 anomalias ao longo da safra.
O monitoramento remoto ajuda a detectar falhas, vazamentos ou alterações no funcionamento antes que os problemas provoquem perdas expressivas de água, energia ou produtividade.
Usina Caeté amplia área atendida pela tecnologia
A Usina Caeté, em Alagoas, decidiu ampliar a participação do gotejamento de 4% para 20% de sua área cultivada. O projeto prevê elevar a cobertura de 910 para 5.110 hectares.
Mesmo com uma lâmina reduzida de irrigação, de dois milímetros por dia, o sistema proporcionou acréscimo de 10,1 toneladas de cana por hectare em comparação com o sistema linear já na cana-planta.
O resultado mostra que o desempenho da tecnologia não depende apenas do volume aplicado. A precisão na distribuição da água e o posicionamento dos gotejadores próximos às raízes também contribuem para melhorar a resposta da cultura.
Fertirrigação eleva produção de ATR em Pernambuco
Na Usina Olho d’Água, em Pernambuco, um projeto de fertirrigação de precisão por gotejamento alcançou 135,7 quilos de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) por tonelada de cana.
O desempenho representou ganho aproximado de cinco toneladas de ATR por hectare em relação à média da unidade.
O indicador é estratégico para o setor sucroenergético porque mede a quantidade de açúcar recuperável presente na matéria-prima. Portanto, o aumento do ATR significa maior potencial de produção de açúcar e etanol por área cultivada.
Irrigação de precisão fortalece resiliência dos canaviais
Os resultados apresentados pelas usinas mostram que o gotejamento subsuperficial pode gerar ganhos simultâneos de produtividade, eficiência operacional, qualidade da matéria-prima e aproveitamento da água.
A tecnologia também ajuda a reduzir a exposição da produção canavieira às irregularidades das chuvas. Com maior controle sobre o fornecimento de água e nutrientes, as unidades conseguem manter o desenvolvimento dos canaviais mesmo durante períodos críticos de estiagem.
Diante da intensificação dos eventos climáticos e das limitações para expandir as áreas agrícolas, a irrigação por gotejamento ganha espaço como ferramenta estratégica para elevar a produção de cana-de-açúcar, preservar recursos hídricos e ampliar a competitividade das usinas do Nordeste.
Fonte: Portal do Agronegócio
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