Preço do café recua com melhora da oferta global, mas estoques baixos e El Niño limitam perdas
Arábica caiu 1% em Nova York e robusta perdeu 6,5% em Londres durante agosto; avanço dos embarques brasileiros e proximidade da safra do Vietnã ampliam expectativas de abastecimento
Publicado em: 04/09/2026 às 19:00hs
As cotações internacionais do café encerraram agosto em queda, interrompendo o movimento de valorização observado em julho. Apesar das preocupações com a disponibilidade do grão no curto prazo, o mercado passou a incorporar perspectivas de uma oferta global mais confortável nos próximos meses, pressionando os contratos do arábica na Bolsa de Nova York e do robusta em Londres.
A volatilidade permaneceu elevada durante todo o período. O avanço dos embarques brasileiros, a maior chegada de café aos armazéns e a proximidade da nova safra do Vietnã reforçaram as expectativas de aumento da disponibilidade mundial. Em sentido contrário, os baixos estoques certificados nas bolsas e os possíveis impactos do El Niño sobre a próxima temporada limitaram a intensidade das perdas.
Café arábica atinge maior preço em oito meses e depois despenca
Na Bolsa de Nova York, principal referência internacional para o café arábica, o contrato com vencimento em dezembro alcançou 345,65 centavos de dólar por libra-peso em 25 de agosto. A cotação representou o maior patamar em oito meses e meio.
A alta, entretanto, perdeu força ainda naquela sessão. Os contratos passaram por forte correção nos pregões seguintes, encerraram agosto no campo negativo e prolongaram as perdas durante as primeiras sessões de setembro.
O vencimento dezembro havia terminado julho cotado a 314,65 centavos de dólar por libra-peso e fechou o dia 31 de agosto a 311,50 centavos. Com isso, acumulou desvalorização mensal de 1%.
Em Londres, o robusta apresentou uma queda mais expressiva. O contrato dezembro recuou 6,5% em agosto, refletindo principalmente as expectativas de ampliação da oferta asiática.
Fundos ampliaram volatilidade nas bolsas
Segundo o analista da Safras & Mercado Gil Barabach, a forte valorização registrada ao longo de agosto foi impulsionada pela mudança dos contratos de referência, pela presença expressiva dos fundos e pela intensidade do fluxo financeiro.
Esse movimento fez com que as cotações em Nova York avançassem em velocidade superior à observada no mercado físico. O descolamento deixou os contratos tecnicamente sobrecomprados e mais vulneráveis a uma correção quando surgiram sinais de maior disponibilidade do produto nas origens.
As preocupações iniciais estavam relacionadas à oferta limitada no curto prazo, ao recuo dos estoques certificados e ao atraso na colheita e na entrada da safra brasileira no mercado. A evolução dos embarques do Brasil, porém, começou a reduzir parte dessas incertezas.
Safra brasileira volumosa aumenta pressão sobre o café
O crescimento do fluxo interno e a maior chegada de café aos armazéns reforçaram a percepção de uma produção brasileira elevada, sobretudo de arábica. Esse cenário recuperou as expectativas de uma oferta mais abundante e contribuiu para a mudança de direção dos preços.
Com maior disponibilidade física, as preocupações provocadas anteriormente pelo atraso da colheita perderam força. O mercado passou, então, a considerar a possibilidade de um abastecimento menos apertado no médio e no longo prazo.
Os produtores brasileiros mantiveram uma estratégia cautelosa durante agosto. A oferta foi dosada conforme as oscilações das bolsas internacionais, com maior interesse de venda nos momentos de recuperação das cotações.
Vietnã amplia expectativa de oferta de café robusta
O desempenho das exportações vietnamitas também pesou sobre as cotações. Além do avanço dos embarques, produtores do Vietnã demonstraram maior interesse em negociar antecipadamente a nova safra.
A aproximação da colheita vietnamita fortalece as projeções de crescimento da oferta global nos próximos meses. Como o país ocupa posição de destaque na produção de robusta, a perspectiva de entrada de novos volumes exerceu pressão adicional sobre os contratos negociados em Londres.
A combinação entre uma safra brasileira volumosa e maior disponibilidade vietnamita cria um ambiente fundamental mais favorável aos compradores, reforçando o viés de baixa para o mercado internacional.
Dólar, petróleo e fundos mantêm risco de oscilações
Mesmo com a perspectiva de melhora na oferta, o mercado do café deve continuar sujeito a movimentos bruscos. As oscilações do dólar e do petróleo influenciam o comportamento dos fundos e podem ampliar tanto as altas quanto as quedas nas bolsas.
O posicionamento especulativo ainda relativamente comprado representa outro fator de risco. Caso importantes níveis de suporte técnico sejam rompidos, uma liquidação mais intensa de posições poderá acelerar a desvalorização dos contratos.
Por outro lado, mudanças no ambiente financeiro ou novas preocupações com o abastecimento podem provocar rápida recomposição das posições compradas, mantendo a volatilidade elevada.
Estoques certificados baixos limitam queda dos preços
Embora o fluxo global esteja melhorando, os estoques certificados permanecem em níveis reduzidos. Essa situação deixa o mercado vulnerável a eventuais interrupções no abastecimento ou problemas nas principais regiões produtoras.
A expectativa é de que o Brasil continue demonstrando baixo interesse em certificar café nas bolsas, principalmente porque essa operação apresenta pouca atratividade econômica para os vendedores nacionais.
Os estoques restritos funcionam, portanto, como um importante fator de sustentação. Mesmo diante das expectativas de maior oferta física, a reduzida disponibilidade imediatamente acessível nos mercados certificados pode limitar quedas mais acentuadas.
El Niño mantém prêmio climático nas cotações
Os possíveis efeitos do El Niño sobre a próxima safra mundial também permanecem no radar. Alterações no regime de chuvas e nas temperaturas podem afetar o desenvolvimento das lavouras e reduzir o potencial produtivo de importantes países exportadores.
A incerteza climática mantém parte do prêmio de risco incorporado às cotações. Dessa forma, os estoques certificados baixos e a ameaça do El Niño atuam como contrapontos ao avanço dos embarques brasileiros e às expectativas favoráveis para a produção vietnamita.
Café arábica e conilon recuam no Brasil
O mercado brasileiro acompanhou as perdas registradas nas bolsas internacionais. No Sul de Minas Gerais, o café arábica bebida boa da nova safra caiu de R$ 1.800 para R$ 1.770 por saca na base de compra ao longo de agosto, desvalorização de 1,7%.
No Espírito Santo, o conilon tipo 7 recuou de R$ 1.080 para R$ 1.020 por saca na base de compra em Vitória. A redução acumulada no mês chegou a 5,5%, acompanhando a pressão mais intensa observada sobre o robusta em Londres.
Apesar da queda mensal, os produtores seguem seletivos na comercialização e evitam ampliar a oferta durante os períodos de maior desvalorização. A combinação entre volatilidade externa, estoques apertados e riscos climáticos mantém o mercado sensível às novas informações.
Mercado do café entra em setembro com viés de baixa
As perspectivas de crescimento da oferta brasileira e vietnamita indicam um cenário mais confortável para o abastecimento global no médio prazo, mantendo pressão sobre os preços do café no início de setembro.
No entanto, o movimento baixista encontra limites nos reduzidos estoques certificados, na retenção dos produtores e nas incertezas relacionadas ao El Niño. O mercado deverá continuar reagindo rapidamente às condições climáticas, ao ritmo das exportações e ao comportamento dos fundos nas bolsas internacionais.
Fonte: Portal do Agronegócio
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